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“Quando ensino, aprendo”

Durante a pandemia, educador manteve preocupação com os estudantes e desenvolveu projeto de leitura premiado em Guajará-Mirim, Rondônia


Professor Alisson Nogueira: “Entrei na faculdade de pedagogia para aprender e continuo aprendendo até hoje”. Foto: Arquivo pessoal

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA)
Depoimento de Alisson Nogueira, supervisor na Escola Professora Maria Liberty de Freitas, em Guajará-Mirim (RO), graduado em pedagogia, filosofia e teologia, pós-graduando em educação Iinclusiva e cursando tecnologia em gestão pública — e cursista do Polo

Sou um apaixonado pela educação. Gosto de ensinar e amo aprender. Trabalho com educação porque aprendo ao ensinar. Parece a história de alguém que sempre sonhou em ser educador, mas não é o meu caso. Quando pequeno, eu queria ser padre. Cheguei a trilhar boa parte do seminário. Nesse período, até estava matriculado na graduação em pedagogia, quando fui orientado pelos meus superiores na Igreja a trocar para o curso de filosofia. Hoje, tenho tripla graduação. Filosofia, teologia e pedagogia. Depois que abri mão do seminário, retomei a minha primeira escolha e me tornei pedagogo. Desistir da carreira religiosa foi uma decisão tão difícil quanto necessária. O seminário já não fazia sentido para mim. O curso de filosofia me possibilitou o autoconhecimento, fundamental para optar por um caminho diferente.

Sou natural de Guajará-Mirim, município que fica mais próximo da Bolívia do que da capital do estado de Rondônia. Finalizei a graduação em pedagogia em 2018. No mesmo ano, tive a minha primeira experiência profissional em sala de aula, após aprovação num concurso público para a educação municipal, na minha cidade. Com menos de um ano de trabalho, fui convidado a assumir interinamente a direção de uma escola. Depois, mais uma experiência com direção e outra com supervisão antes de voltar para o cotidiano das salas de aula, em 2020. Hoje, estou atuando novamente como supervisor e considero meu trabalho desafiador. Sou um dos responsáveis pela educação de 406 crianças que, muitas vezes, são carentes de pão, afeto e atenção. Elas precisam que o meu trabalho seja bem executado para que haja a perspectiva de um futuro melhor.

Apesar da precariedade e dos altos índices de criminalidade na comunidade onde fica a escola em que trabalho, a maioria dos pais acredita que a educação pode mudar para melhor essa realidade. Eu também creio nisso. Senti-me desafiado ao perceber que mais da metade dos meus alunos de terceiro ano não sabiam ler de maneira adequada. Durante a pandemia, fiquei preocupado com a possibilidade de a distância da escola agravar esse problema e desenvolvi o projeto Doses de Leitura na Pandemia. Telefonava para os pais e combinava de ir até a casa deles. Aproveitava o momento da minha chegada e, consequentemente, dos protocolos de higienização, para explicar os cuidados relacionados ao contexto do coronavírus. Depois, eu, a(s) criança(s) e os pais sentávamos e aproveitávamos um gostoso momento de leitura. Eu incentivava a participação do estudante na atividade. Quando não sabia ler, eu lhe pedia que contasse a história a partir das imagens ou das cores no livro. Ensinei. Aprendi.

O que me move é o amor. Acredito que o desafio do professor é muito maior do que compartilhar aquilo que sabe. O afeto tem potencial para transformar e educar, assim como qualquer regra da língua portuguesa ou fórmula matemática. Com atenção, acolho pais e professores, remota ou presencialmente. Algumas famílias têm apenas um celular para uso compartilhado de três ou quatro filhos. Esse e outros fatores precisaram ser levados em consideração no planejamento do enfrentamento da pandemia de Covid-19 pela educação municipal. Adotamos o uso de apostilas e nos dedicamos à busca ativa. Neste momento, é fundamental que a escola vá até cada uma das crianças.

Durante a pandemia, Alisson visitou a casa das crianças para incentivar a leitura. Foto: Arquivo pessoal

A minha rotina de trabalho é intensa. Por isso, estudo nos fins de semana. Atualmente, faço uma pós-graduação em educação inclusiva e em curso de tecnologia em gestão pública. Descobri o Polo através de uma publicação numa rede social e, de imediato, encontrei o curso que estava precisando fazer: Ensino Híbrido na Prática para Gestores. Enquanto supervisor, eu precisava me preparar para esse novo momento da educação e atingi o objetivo através do curso. Aperfeiçoei a forma de pensar e adaptei técnicas e estratégias de aprendizagem que possibilitam que as aulas sejam remotas e presenciais. Na minha experiência, consegui aliar teoria e prática porque eu assistia às aulas nos sábados e domingos e já podia aplicar os aprendizados na escola, ao longo da semana seguinte.

Graças à formação, conseguimos planejar cada momento de adaptação ao contexto da pandemia. Achei positivo o fato de a formação abordar desde os elementos mais básicos e conceituais a respeito do ensino à distância até questões mais específicas, a exemplo de como solicitar recursos tecnológicos para atender os estudantes de forma adequada. Nós, educadores, precisamos nos atualizar constantemente. O ensino híbrido veio para ficar, mesmo que tenha chegado a nós de forma precoce, num contexto desafiador. É interessante ter uma ferramenta que não nos deixe limitados ao modelo tradicional de aula, que faz da criança um depósito de conteúdos. Dá outro sentido à educação. Para mim, o único ponto negativo do ensino híbrido são os momentos em que a atividade ocorre à distância, porque a minha educação é baseada no afeto.

Já me inscrevi no curso Ensino Híbrido na Prática para Docentes, além de recomendá-lo para toda a minha equipe. Com base no planejamento que elaboramos juntos, estamos nos preparando para o retorno dos nossos estudantes ao ambiente escolar neste mês de novembro. Os cursos que fiz e farei no Polo beneficiam a mim e a toda a comunidade à minha volta. Mal posso esperar para ver as crianças novamente. Encontrei-me comigo mesmo na educação e espero colaborar para que os estudantes que por mim passarem também entendam os seus propósitos. Eu, que queria ser padre, acabei achando outra forma de fazer a diferença na vida das pessoas. Sinto que fui eu o abençoado.

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