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Quais aprendizagens priorizar agora?

Instituto Reúna elabora Mapas de Foco alinhados à Base Nacional Comum Curricular para orientar redes de ensino no cenário da pandemia


Katia Smole, diretora do Instituto Reúna: “Como os coordenadores e professores estão escolhendo o que aplicar nas aulas distanciadas? O que estão usando como base?”. Foto:

Por Ferdinando Casagrande, Rede Galápagos, São Paulo

Antes mesmo da primeira amostra de SARS CoV 2 aparecer numa lâmina de microscópio em Wuhan, na China, 2020 já se anunciava como um ano desafiador para a educação brasileira. Afinal, ele havia sido estabelecido como limite para que escolas e redes de ensino alinhassem seus currículos à Base Nacional Comum Curricular, a BNCC. Graças a esse prazo, a percepção de que gestores e educadores precisariam de muito apoio ao longo de 2020 despertou cedo para a professora Katia Smole, diretora do Instituto Reúna. “Eu ainda era secretária de Educação Básica no MEC, em 2018, e acompanhava a elaboração dos novos currículos quando comecei a me preocupar com o distanciamento entre as altas expectativas trazidas pela Base e o estágio de conhecimento dos alunos”, lembra a professora. “Percebi que precisaríamos desenvolver programas para apoiar as redes na tarefa de diminuir essa defasagem.” Nasceram assim os Mapas de Foco da BNCC, uma ferramenta concebida para ajudar na priorização de aprendizagens que acabou se revelando perfeita no cenário de escolas fechadas pela pandemia. “Quando veio o distanciamento, eu comecei a pensar: como os coordenadores e professores estão escolhendo o que aplicar nas aulas distanciadas? O que estão usando como base?”, conta Katia Smole. “Estudando os mapas, nossa equipe percebeu que eles eram muito adequados para orientar as redes nesse momento.”

Competências, habilidades e objetos
Katia apresentou a proposta a um grupo de apoio a estados e municípios durante a crise da Covid-19 na educação e a ideia ganhou o apoio do Itaú Social. Os Mapas, então, foram ampliados para auxiliar na revisão dos currículos das redes para todos os anos do ensino fundamental. Compostos por um conjunto de documentos que explicitam relações possíveis entre competências específicas de área, habilidades dos componentes de anos iniciais e finais do ensino fundamental, objetos de conhecimento e unidades temáticas dispostas na BNCC, eles abrangem os componentes de língua portuguesa, matemática, ciências, história e geografia. “A ideia é orientar as redes na revisão dos seus currículos para que possam decidir quais aprendizagens serão priorizadas neste ano”, explica a professora. “A decisão de quais aprendizagens priorizar deve ser colegiada, envolvendo os gestores das redes, as escolas e os professores.”

Três categorias de aprendizagem
Os Mapas de Foco separam as aprendizagens em três categorias: focais, complementares e expectativas de fluência. As focais são as habilidades relevantes para a vida, inegociáveis e essenciais para o desenvolvimento dos estudantes. As complementares podem ser desenvolvidas junto às focais para proporcionar oportunidades de avanço a indivíduos ou grupos que já conquistaram as aprendizagens focais. Já as expectativas de fluência são habilidades ou objetivos de aprendizagens que precisam ser mobilizados com fluência ou automaticidade para facilitar a aprendizagem das demais habilidades dentro daquele ano ou dos seguintes. Essas habilidades, em geral, representam as aprendizagens que se espera que o aluno adquira com fluência ao longo de uma etapa.

Antes de escolher as aprendizagens que serão priorizadas, o ideal é que cada rede tenha um diagnóstico do ponto em que estão os seus alunos. Os Mapas de Foco podem servir também como norte para essas avaliações. “Elas podem ser orientadas pelas aprendizagens focais. Se os alunos se mostrarem fluentes nessas aprendizagens, que são muito centrais, é possível avançar. Se não as atingiram, é com estas que se deve trabalhar”, explica Katia Smole.

“Não acredito que nós tenhamos, nos próximos meses, uma volta em que poderemos estar todos juntos, com as aulas organizadas da forma como estávamos acostumados antes”

Katia Stocco Smole, diretora do Instituto Reúna

A utilização dos Mapas de Foco não precisa esperar pelo retorno às aulas presenciais. As redes podem utilizá-los desde já como apoio para decidir o que priorizar e, a partir daí, eleger conteúdos, materiais didáticos, sequências de atividades e planos de aula durante o atendimento distanciado. Até porque, na avaliação de Katia Smole, o retorno às aulas presenciais será um processo lento. “Não acredito que nós tenhamos, nos próximos meses, uma volta em que poderemos estar todos juntos, com as aulas organizadas da forma como estávamos acostumados antes”, analisa Katia. “Vamos precisar ter muitos protocolos novos, com decisões anteriores às questões pedagógicas, que precisam do envolvimento da escola como um todo, e o modelo vai ter de ser híbrido, combinando momentos presenciais com momentos distanciados.”

Coordenada por Katia Smole, a equipe que criou os Mapas de Foco da BNCC reuniu 18 pessoas, das quais 14 especialistas nas áreas abordadas. Os trabalhos de elaboração começaram em março de 2019 e o lançamento aconteceu em julho deste ano. O acesso ao material é gratuito para todos os interessados. Clique para acessar os Mapas de Foco da BNCC

Instituto Reúna apoia a implementação da BNCC


Quando iniciou sua carreira, em 1984, a professora de Matemática Katia Stocco Smole tinha dúvidas sobre o que deveria ensinar aos seus alunos do Ensino Médio na Rede Pública de São Paulo. E percebeu que aquela não era uma questão exclusiva de iniciantes. As dúvidas existiam também entre os colegas mais experientes porque o Brasil não tinha parâmetros nacionais para orientar os currículos. A jovem professora iniciou, então, uma busca por respostas, acumulando o trabalho nas salas de aula com uma posição de técnica de pesquisa no Centro de Aperfeiçoamento do Ensino de Matemática do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo, que a levaria ao mestrado e depois ao doutorado, ambos pela Faculdade de Educação da USP. “Em 1996 eu já estava na formação continuada de professores e deixei a sala de aula para ampliar minha atuação nessa área”, lembra Katia. “Foi quando fundamos o Instituto Mathema, com foco na melhoria da qualidade da educação de matemática.”

Enquanto a professora trilhava seu caminho, o Brasil também avançava na direção da melhoria da educação ofertada nas redes públicas de ensino. Primeiro com a Constituição Federal de 1988, que reconheceu a educação como um direito de todos, e em seguida com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, os Parâmetros Curriculares Nacionais e, finalmente, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). “Quando as primeiras conversas sobre a construção da Base surgiram, em 2013, eu percebi que ela poderia oferecer as respostas àquelas dúvidas do início da minha carreira”, conta Katia Smole. “Por isso me juntei ao Movimento pela Base.”

Em 2018, Katia assumiu a Secretaria de Educação Básica do MEC e ao deixar o cargo, no ano seguinte, decidiu continuar incentivando a implementação da BNCC. Nasceu assim o Instituto Reúna, uma organização sem fins lucrativos que atua em quatro frentes principais: formação, material didático, currículo e avaliação. “A missão é desenvolver insumos técnicos pedagógicos para apoiar o país na implementação da Base”, explica a professora. “O instituto não atua diretamente com nenhuma rede, nem faz a formação de professores, mas estamos no cenário para produzir conhecimento que possa ser usado pelo terceiro setor, por escolas em geral, por produtores de livros, pelo Consed, pela Undime… Recursos que ajudem na implementação da BNCC.”

Desde setembro de 2019, quando foi oficialmente lançado, o Instituto Reúna já criou alguns materiais didáticos nas áreas de currículo e formação, que estão disponíveis e com acesso gratuito no seu site: