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Presença e vínculo

Em Goiás, entidade que apoia crianças e adolescentes se adapta para enfrentar os efeitos da Covid-19 e manter o contato com as famílias


A fome não espera o fim da pandemia: sem atividades, núcleo mantém distribuição de cestas para segurança alimentar. Foto: Centro Comunitário Aliança/Divulgação

Por Luís Gustavo Rocha, Rede Galápagos, Goiânia (GO)

“O bairro é muito simples e humilde, ainda bem que aqui tem o Nacri”. Isadora Oliveira se refere ao bairro Novo Paraíso, que fica na cidade de Anápolis, e ao Núcleo do Adolescente e Criança, no qual ela trabalha como monitora. Um dos estudantes atendidos pela entidade é a Jordana, que está no 9º ano do ensino fundamental. “Dou graças por ela estar lá”, diz a mãe, Maria Lúcia Gomes, explicando que “as monitoras ajudam minha filha a fazer umas tarefas que eu não dou conta”.

Administrado pela Comunidade Católica Aliança, que realiza outras ações dentro e fora do Brasil, o Nacri foi fundado em 1993 pelas Irmãs Franciscanas de Allegany. Elas ofereciam catequese e alimentação às famílias da região, que era conhecida como Morro do Cachimbo.

“As irmãs assistiam à instituição que cuidava dos portadores de hanseníase aqui da cidade. Uma senhora muito pobre, que aparecia de vez em quando para comer, pediu à irmã Jacinta para morar lá, mesmo sem ter hanseníase. Advertida do risco de contrair a doença, ela respondeu que no local havia comida. Foi assim que, nos anos 1960, as irmãs passaram a frequentar o morro e montaram uma base que foi tomando corpo até se tornar o Nacri”, lembra o vice-presidente da entidade, Márcio Rodrigues Pereira.

Campo (ilu)minado
As situações extremas não ficaram no passado. E uma das preocupações é a carência e vulnerabilidade social de moradores da região. “É um local afastado, bem fora da realidade de Anápolis.

Muitas pessoas da cidade que nós convidamos para conhecer o projeto vão entrando no bairro, subindo o morro, e ficam assustadas”, diz o Márcio, que é anapolino e exemplo do que ele mesmo fala. “Eu sofri um baque quando eu vim para cá.

Antes do isolamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus, o espaço recebia cerca de 130 crianças e adolescentes de escolas públicas, sempre no contraturno escolar, nos períodos matutino e vespertino. Além do reforço escolar, aulas de informática, prática de esporte e ensino de música, as crianças recebiam quatro refeições ao longo do dia e contavam com serviço odontológico. Em função do contexto social, o fortalecimento de vínculos com as famílias dos estudantes é uma preocupação permanente.

Olhando de cima: instituição administrada por católicos tem quase três décadas. Foto: Centro Comunitário Aliança/Divulgação

Comunidade presenteada
Por enquanto, sem a rotina de encontros diários, o contato tem acontecido por telefone, com os responsáveis, em busca de informações a respeito dos estudantes, e para informar sobre a distribuição de cestas básicas e sacolas de verduras às mais de 80 famílias beneficiadas. Parte dessas doações foi assegurada pelo programa Comunidade, Presente!, do Itaú Social, que lançou edição emergencial em razão da Covid-19.

No Nacri, os problemas começaram a surgir antes da pandemia. A entidade atravessou dificuldades em 2019 e precisou rever despesas, reduzindo o quadro de funcionários e suspendendo algumas atividades. A solução para essa crise ainda está sendo construída. Uma medida importante foi convidar a gestora de projetos Marislei Peixoto, interessada na sustentabilidade das Organizações Sociais Civis. “Um erro é não se organizar para buscar os recursos e para que os projetos sejam constantes e os doadores também. É importante dar valor ao planejamento”, comenta Marislei, pontuando que, durante a pandemia, houve diminuição da transferência de recursos para as instituições que desenvolvem trabalhos sociais com finalidade pública.

A gestora de projetos acredita que, de maneira geral, essas instituições que estendem os braços para onde o poder público não alcança precisam se pautar na profissionalização da entidade, com um pensamento de empreendedorismo social, para dar sustentabilidade às ações. “A partir do momento que você tem um planejamento, se estrutura, tem uma equipe coerente, processos otimizados para buscar esses recursos, a instituição passa a ter um programa que vai nortear a equipe inteira e, como consequência, os projetos são bem-sucedidos”, conclui Marislei.  

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