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Polo de desenvolvimento educacional

Prêmio Itaú-Unicef

A 8ª edição do Prêmio Itaú-Unicef premiou cinco projetos que se destacaram entre os 1.917 inscritos em 2009. Os projetos vencedores demonstraram articular com maestria a interação entre escola, família, comunidade e cidade para melhorar a vida de muitas crianças e jovens. Todos revelaram que têm intencionalidade pedagógica ao monitorar os processos, definir resultados esperados e explorar novos itinerários na ação educativa. E principalmente, reconheceram as oportunidades de tempo e espaço para desenvolver capacidades físicas, intelectuais e morais, além dos muros da escola, mas em articulação com ela. Veja a seguir os trabalhos das ONGs premiadas:

Os saberes do morro na escola

Grande Vencedora Nacional

Projeto Educação e Cultura em Periferias

Associação Casa das Artes de Educação e Cultura

Rio de Janeiro/RJ

Há dez anos, Sueli de Lima, formada em educação artística e história, conheceu moradores do Morro da Mangueira e do Morro dos Macacos e descobriu que tinha em comum com eles a expectativa de uma educação de qualidade na periferia. Grande parte das crianças e jovens dessas comunidades não completava a educação fundamental e poucas organizações sociais atuavam na região para garantir o direito básico à educação. Formou-se, assim, um pequeno grupo de educadores acadêmicos e educadores locais para oferecer reforço escolar e oficinas artísticas no Ciep Nação Mangueirense. Essa foi a primeira ação de uma série que se espalhou pelas duas favelas e extrapolou o Rio de Janeiro. Hoje 360 crianças e jovens são despertados para o prazer do conhecimento por meio de pesquisas artísticas, com atividades de dança e musica; oficinas sobre memória, com fotografia, vídeo e redação; oficinas de educação urbana, com visitação a museus e centros culturais e oficinas de pesquisa para a Ciência, com atividades que difundem o conhecimento da área. A valorização da cultura local é o foco do programa, que se baseia na troca de experiências entre os conhecimentos acadêmicos dos educadores que lideram o projeto e os saberes dos moradores dos morros. Uma metodologia própria elaborada com a experiência prática guia os trabalhos e virou política pública pelo Ministério da Educação. Em 2008, mais de 1.500 escolas do Brasil participaram do Programa Mais Educação, que tem por objetivo ampliar o espaço e o tempo educacional dos alunos da rede pública, e conheceram a Mandala dos Saberes, método elaborado pelos educadores da Casa das Artes. “Nossa prática é continuamente repensada porque acreditamos que educação de qualidade se baseia em fazer e em pensar. Esse assunto não deve ser preocupação apenas de professores da academia ou das comunidades, mas de todos que sonham com a verdadeira democratização do conhecimento”, afirma Sueli, coordenadora geral do projeto.

 

Música, instrumento de vida

Vencedora Grande Porte

Projeto Aprendendo com Arte

Fundação Raimundo Fagner

Fortaleza e Orós/CE

As crianças que participam do projeto Aprendendo com Arte em Orós (CE) são conhecidas por desfilarem pelas ruas da cidade com um sorriso largo no rosto. O uniforme (ou farda) da Fundação Raimundo Fagner é motivo de orgulho no município de 11 mil habitantes. É como se estivesse escrito em cada camiseta: sou um músico da terra! Assim como o presidente da organização, o cantor e compositor Raimundo Fagner, crianças e jovens sonham em encontrar novas oportunidades de vida além das oferecidas no comércio e agricultura local. Advindos de uma situação de extrema pobreza – muitos vivem sem água, luz e banheiro –, os 370 participantes encontram no contraturno escolar a chance de se enriquecerem culturalmente em oficinas de canto coral, flauta, violão, percussão, literatura, informática, artes plásticas, idioma, acompanhamento escolar e reuniões. “A música é só um instrumento para levar conhecimento e oportunidades para muitas crianças e adolescentes que anseiam por conhecer o poder transformador da arte”, explica Tereza Cristina Tavares Gondim, coordenadora pedagógica da fundação.

Na casa, na rua, na praça…

Vencedora Médio Porte

Projeto Novo Espaço: Construindo Saberes com a Comunidade

Casa do Sol Padre Luís Lintner

Salvador/BA

Há um longo tapete vermelho na entrada da Casa do Sol para lembrar que a comunidade é importante e sempre bem-vinda àquele espaço. A ideia foi do padre Luis Lintner ao inaugurar a organização social em Cajazeiras, um dos bairros mais violentos da periferia de Salvador (BA). No início, o principal problema da região era a fome. Hoje a maior demanda é a violência gerada pelo tráfico de drogas. A situação de elevada vulnerabilidade ficou evidente, quando o padre foi assassinado na porta de sua casa, no mesmo bairro, em 2002. Até hoje, os culpados pelo crime estão soltos, mas os tiros que mataram o padre deram mais vida ao projeto. “Nossas denúncias incomodaram muita gente. Foi um período muito difícil, mas demos uma guinada quando os jovens perceberam que eles eram a Casa do Sol e que o projeto dependia do trabalho de todos”, conta a italiana Guiseppina Rabbiosi, coordenadora e uma das fundadoras da Casa do Sol. Pina, como é chamada na comunidade, chegou ao Brasil em 1981, movida pelos conflitos de terra no interior do País. Em 1993, mudou-se para Salvador, ao acompanhar muitas famílias que fugiam do campo para a periferia da cidade grande. Neste contexto, a organização passou a oferecer estudos complementares de Português e Matemática, oficinas de arte-educação, organizadas por critérios de interesse e faixa etária, com atividades de teatro, dança contemporânea, percussão, flauta e teclado; acesso à biblioteca e, também, passeios e visitas culturais. As atividades não ocorrem só na sede da Casa do Sol, mas nas escolas, nas ruas, e praças do bairro. Como resultado, 239 crianças e adolescentes de 6 a 18 anos, que participam do projeto, apresentam melhoria no desempenho escolar e no relacionamento familiar, e se tornaram mais responsáveis e participativos. Aos poucos, Pina vai saindo de cena para que a nova geração assuma também a coordenação da casa. “Meu papel será de fomentadora de novas iniciativas, de ideias e intenções. A Casa do Sol ainda vai garantir a educação integral de muitas crianças e adolescentes que vivem à sombra”, afirma Pina.

Ponte para vida nova

Vencedora Pequeno Porte

Projeto Ponte

Obra Social Nossa Senhora das Graças

Vitória/ES

Há nove anos, Mara Perpétuo, professora de Artes da rede pública, chegou à Obra Social Nossa Senhora das Graças e encontrou educadores oferecendo reforço escolar. Mas a nova participante queria mais. Seu sonho era oferecer oficinas de artes para ampliar o repertório cultural das crianças e adolescentes atendidas pelo programa e atualizar a metodologia utilizada pelos voluntários. Deu certo. Hoje 16 educadores se dividem na rotina diária das atividades que incluem oficinas de leitura, artes, capoeira, maculelê, educação ambiental, xadrez, dança, musicalização, percussão, teatro, informática e futebol. A cada trimestre, um tema interliga todas as oficinas e o resultado final é uma produção coletiva. No módulo Metamorfose Sou Eu, por exemplo, crianças leram e produziram textos dramáticos sobre a passagem da infância para a adolescência, observaram e desenharam a transformação da crisálida em borboleta e criaram o enredo, o figurino, o cenário e a trilha sonora de uma peça de teatro. Duas refeições diárias são oferecidas a quase 200 participantes e semanalmente os jovens se reúnem para avaliar as ações do projeto e levantar expectativas e interesses. “Mudei como profissional, pois aprendo todos os dias com as crianças do projeto que é possível ampliar horizontes e utilizar a arte como combustível para uma nova perspectiva de vida”, afirma a coordenadora Mara.

A semente que virou música e arte

Vencedora Microporte

Projeto Musicart

Associação de Mães Educadoras

Porto Seguro/BA

A paisagem exuberante de Porto Seguro (BA) esconde um bairro que não faz parte da rota turística. Na periferia da cidade mais visitada do Nordeste fica o Baianão, famoso pelo tráfico de drogas e como origem de muitas crianças e adolescentes que perambulam pelo centro histórico. “Tínhamos que fazer algo para mudar essa realidade. Eu não queria perder meus quatro filhos para as drogas”, afirma Sileide Bonfim, coordenadora da Associação de Mães Educadoras. Cozinheira com ensino médio incompleto e moradora do lugar, ela se juntou a outras mães em 2000 para continuar um projeto de educação criado dois anos antes. Em 1998, um conhecido empreendedor social, Tião Rocha, coordenador do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), de Minas Gerais, implantou o Projeto Sementinha para promover educação popular e desenvolvimento comunitário no bairro. A organização foi vencedora da 1º edição do Prêmio Itaú-Unicef, em 1995. A continuidade do programa em Porto Seguro ficou nas mãos das mães do Baianão, que não permitiram o fim da iniciativa e ampliaram a oferta de atividades. Com o Projeto Musicart, 74 crianças e adolescentes participam de atividades de roda, na qual podem se expressar, contar notícias e trocar informações, assim como estudar música – canto coral, flauta, violão, teclado, bateria e percussão –, participar de reforço escolar, palestras e visitas à biblioteca e brincadeiras. O programa criou ‘pernas próprias’ e as líderes voltaram à escola para garantir a profissionalização da ação. Hoje Sileide é pedagoga e já planeja o curso de pós-graduação em gestão educacional. “Eu nunca imaginei que chegaríamos tão longe. Com a educação integral, vamos conseguir combater a exploração da mão-de-obra infantil”, afirma a coordenadora Sileide.