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Por uma educação inclusiva

“O que me motiva a trabalhar com crianças com deficiência é saber quanto um professor pode fazer a diferença na vida delas”, diz educadora alagoana


Desde 2013, a professora Ana Maria trabalha com crianças com deficiência, em Maceió. Foto: Arquivo pessoal

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA)
Depoimento de Ana Maria Silva, de Maceió (AL), pedagoga, pós-graduada em psicopedagogia, especializada em deficiência intelectual — e cursista do Polo

Aos 28 anos, eu havia completado apenas o ensino fundamental. Eu amava estudar, porém me casei muito jovem e fui impedida por meu marido de seguir na escola. Ser mulher, sobretudo no século 20, tinha dessas. Quando me separei, a primeira coisa que fiz foi voltar a estudar. A essa altura, eu tinha duas filhas pequenas e foi difícil conciliar o cuidado delas com os estudos e o trabalho. Por vezes, quase desisti. Mas eu não podia. Concluí o magistério e sabia que não havia mais tempo a perder.

Logo em seguida, fui aprovada no vestibular para cursar pedagogia na Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Fiz também especialização em deficiência intelectual e pós-graduação em psicopedagogia. O interesse nessas duas últimas formações surgiu depois que um dos meus três netos foi diagnosticado com uma deficiência intelectual. Percebi que a escola era um ambiente complicado para ele porque meu neto sofria com os apelidos maldosos por parte dos colegas e também porque os professores não sabiam lidar da maneira correta com a sua condição. 

E a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) propõe que trabalhemos as competências, não excluindo nenhum estudante. Se tenho uma criança com necessidades especiais na turma, cabe a mim trabalhar de forma adequada com ela para que esteja verdadeiramente incluída na aula. Preciso ter a paciência necessária para trabalhar novamente o conteúdo quantas vezes for preciso até encontrar uma forma em que ela se sinta inserida. A BNCC dá essa base ao professor. É papel da escola agir para que a inclusão aconteça.

Por isso fiquei tão entusiasmada com o curso que estou fazendo no Polo, o ambiente de formação do Itaú Social. Descobri o Polo meio por acaso, num anúncio enquanto navegava nas redes sociais. Encontrei lá vários materiais voltados à formação continuada dos profissionais da educação. Sem hesitar, comecei o curso Experiência e Protagonismo: a BNCC na Educação Infantil. Estou prestes a concluir as 20 horas da formação. Além de bastante conteúdo destrinchado sobre o currículo da educação infantil, o curso proporciona reflexões mais subjetivas. Fui provocada a pensar sobre os olhares: o da criança e o do educador sobre ela. 

O vídeo do personagem Tintim, exibido logo no começo da formação, me deixou encantada. Mostra uma criança que sai na rua e vê as coisas de um modo que um adulto não consegue, caso não se proponha a enxergar como ela. Com o tempo, vamos perdendo esse olhar inocente. Eu costumava ficar angustiada por, muitas vezes, não conseguir que as crianças agissem da maneira como eu esperava. Quando buscamos entender a educação infantil, percebemos que nós, adultos, somos quem deve se propor a enxergar o mundo sob a ótica da criança para que ela se sinta segura. 

O que me motiva a trabalhar com crianças com necessidades especiais é saber quanto um professor pode fazer a diferença na vida delas, positiva ou negativamente. Quero que se lembrem de mim como uma educadora atenta e cuidadosa. Trabalho com educação infantil desde 2014. Aquele universo tão ingênuo e puro continua me encantando diariamente. Atualmente, estou trabalhando como psicopedagoga no atendimento de crianças com necessidades especiais, numa associação. Não vejo a hora de voltar para a sala de aula. As aulas presenciais foram suspensas devido à pandemia porque é praticamente impossível trabalhar on-line com crianças pequenas. Sinto muita falta de minhas crianças. De vez em quando, faço chamadas de vídeo com as mães para vê-las e conversar um pouco.

A educação infantil é a principal fase do processo educacional. Se entendemos isso e educamos as crianças a partir da creche, elas terão um futuro melhor. Essa fase é a base de tudo, e a educação, como tudo na vida, precisa ter uma base consistente. Tenho certeza de que, se houvesse maior investimento na educação infantil, os indicadores de analfabetismo e de evasão escolar apresentariam dados mais animadores. Na minha experiência, vi crianças chegando ao primeiro ano do ensino fundamental sem saber pegar num lápis, como se não tivessem passado pelo estímulo das coordenações motoras fina e grossa, função da educação infantil.

O professor precisa receber uma melhor atenção. Eu, por exemplo, sou pós-graduada e não considero o meu salário e o de meus colegas compatível com o nosso trabalho. As condições desanimam os educadores que, muitas vezes, precisam ter uma jornada tripla para atingir algum conforto financeiro. Entretanto, sobra pouco tempo para passar com a família e para momentos de lazer. Além disso, não há incentivo à formação continuada. Se quero me especializar, preciso investir o meu tempo livre e o meu dinheiro. Eu trabalho com educação porque acredito na sua importância na vida das crianças, sempre incluindo aquelas com necessidades especiais. E os cursos que estou fazendo estão me abrindo novas perspectivas. 

Se eu pudesse, faria todos os cursos do Polo ao mesmo tempo. Mas prefiro fazer um de cada vez, com calma. Assim que terminar o atual, farei o curso O Coordenador Pedagógico como Formador. Ensino Híbrido na Prática para Gestores também está na minha lista, visto que essa modalidade parece que chegou para ficar. Achei a plataforma bastante completa e de grande utilidade mesmo para quem ainda está na graduação, pois os cursos possuem certificados reconhecidos pelo Ministério da Educação (MEC), que podem ser usados como carga horária complementar. Os cursos também contemplam professores que não têm condição financeira para investir numa boa formação, pois são gratuitos.

Eu ficaria muito feliz se fosse disponibilizado no Polo um curso voltado para a educação para crianças com necessidades especiais. Ao longo da minha trajetória, percebi que boa parte dos professores, principalmente os da rede pública, não foi preparada para lidar com estudantes com necessidades especiais. Faço e farei o que estiver ao meu alcance para garantir uma educação inclusiva para o meu neto e para cada estudante portador de deficiência.