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“Por um futuro diferente para a minha comunidade”

Após perder um amigo para a violência, educadora e ativista social encontrou na pedagogia a esperança para seu trabalho com jovens em Conceição do Coité, Bahia


Legenda: Ana Paula: “Nas perdas pessoais, adquiri consciência social”. Foto: Arquivo pessoal

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA)
Depoimento de Ana Paula Oliveira, mãe, pedagoga, secretária executiva do Centro de Promoção da Educação, da Cultura e da Cidadania (CPECC) — e cursista do Polo

Começo a contar a minha história a partir de 29 de janeiro de 2016, data em que um querido amigo foi assassinado. Não foi a minha primeira perda causada pela violência. Era provável que tampouco seria a última. Naquele dia, durante a derradeira despedida, prometi a ele e a mim mesma que iria estudar para fazer algo em prol da minha comunidade e ajudar a mudar a perspectiva de futuro para a juventude local. E uma boa maneira de pensar em construir o futuro é pensar em fortalecer a educação. Sempre admirei a pedagogia. Considero o profissional da educação um dos principais pilares da sociedade e desde pequena sonhava em fazer parte disso.

Nosso futuro é também construído pelo nosso passado. Nasci e sempre morei em Conceição do Coité, Bahia. Não pretendo sair daqui. Desde 2014, sou associada do Centro de Promoção da Educação, da Cultura e da Cidadania (CPECC), onde trabalho com adolescentes e jovens que cumprem medidas socioeducativas. Quando perdi meu amigo, eu me perguntei o que estava fazendo para tentar diminuir a desigualdade e a violência no meu município. No mesmo ano, passei no vestibular para cursar pedagogia. Era o primeiro passo para duas realizações. A de um sonho da criança Ana Paula e a de uma promessa da mulher Ana Paula.

É também a realização da profissional Ana Paula. No CPECC, atuo como secretária executiva. Exerço funções administrativas e coordeno as atividades relacionadas à educação. Oferecemos aulas de capoeira, dança, pintura e reforço escolar. Durante a graduação, o meu contexto de vida fez com que eu me interessasse pela educação de jovens e adultos (EJA) e pela educação prisional. Esta última foi objeto do meu trabalho de conclusão de curso (TCC) e será também tema do meu mestrado. A maioria das pessoas que acabaram se envolvendo com a criminalidade passou pela escola em algum momento da vida. Já vi professores dizerem, em sala de aula, que um aluno estava fadado ao fracasso. Uma palavra mal dita por um professor pode ter graves consequências. 

Somos a soma de nossas experiências. Também atuei no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) do município durante seis anos. Foi lá que uma colega me apresentou o Itaú Social e o Polo. Desde então, estou sempre acompanhando os cursos oferecidos nesse ambiente de formação e já perdi as contas de quantos fiz, nos mais variados temas. Acredito que o educador precisa ser eclético. O último foi o Planejamento Estratégico para OSCs. O nome do curso me fez imaginar que encontraria na formação debates políticos e assuntos relacionados.

Creio que esse curso me ajudou a me desafiar a mim mesma. E me ajudou a fazer questionamentos que reforçam essa necessidade da qual falei no início deste texto, de fazer mudanças agora para obter melhores resultados no futuro. Quando comecei a cursar Planejamento Estratégico para OSCs, vi que não se tratava do que eu estava pensando. E isso foi muito bom. As aulas me deram uma chacoalhada e me fizeram perguntar a mim mesma: “Ana Paula, você está exercendo o seu papel de secretária ou se aproveitando do poder que ele dá a você?”. O curso me fez refletir e ouvir os meus colegas. Durante a escuta, percebi que eu reproduzia um comportamento hierárquico em alguns dos meus posicionamentos, o que não é produtivo para o trabalho de uma organização da sociedade civil. A formação serviu para que eu mudasse a minha atitude dentro e fora da instituição.

Foi com esse curso que aprendi que escutar pode ser estratégico. Quando ocupamos um papel de muita responsabilidade, podemos acabar esquecendo de ouvir o outro. Isso me ajudou também no trabalho com o público das medidas socioeducativas. Levei oito semestres na faculdade para entender por que os meninos chegam tão revoltados. Essa é uma forma de defesa e de camuflar algumas carências. Aprendi isso na graduação, mas aprendo também no dia a dia, sempre que paro para escutá-los. Entendo que a teoria passa a fazer sentido quando aplicada à prática. Hoje, trato-os como à minha equipe. Conversamos de igual para igual, o que é confortável para todos os envolvidos na atividade.

E tenho ampliado também a minha área de interesse nos cursos do Polo. Sempre gostei de estudar e acredito que a leitura pode ser uma ótima forma de autoconhecimento. Estou sempre incentivando as crianças ao meu redor a ler, inclusive os meus dois filhos. Quando descobri o Leia com uma Criança, prontamente cadastrei o CPECC e o CMDCA de Conceição do Coité para receber os livros. Desde então, tenho promovido contação de histórias e doação de livros para as crianças da comunidade. Na verdade, fazemos um empréstimo dos livros, para incentivar que os pais e familiares se envolvam no processo educativo, contando as histórias para os pequenos. 

Apesar de focar as minhas pesquisas na educação de jovens e adultos e na educação prisional, também tenho muito interesse no trabalho com o público infantil. Entendo que a educação, quando em condições ideais de recursos humanos e de estrutura, tem grande potencial para evitar que as crianças precisem passar pela socioeducação no futuro. É assim que podemos mudar o mundo. É nisso que acredito. Essa foi a promessa que fiz. O meu trabalho é por aquilo em que acredito, em memória do meu amigo e em prol do futuro da minha comunidade.

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