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Pela estrada afora

No interior do Amazonas, professores visitam comunidades rurais distantes, levando apoio e material impresso para alunos sem acesso à rede


A kombi usada pelos professores da E. M. Mário Jorge Gomes da Costa, em Presidente Figueiredo (AM), para visitar comunidades rurais: exercícios escolares para crianças sem acesso à internet e televisão. Foto: Ieda de Souza

Por Jullie Pereira, Rede Galápagos, Manaus

Faz um silêncio danado quando, às 8h da manhã, a kombi da escola Mário Jorge Gomes da Costa atravessa as estradas de terra, esburacadas e sem pavimentação, para visitar aproximadamente 20 comunidades da zona rural do município de Presidente Figueiredo, distante 121 quilômetros da capital Manaus, no interior do Amazonas. Essa é a única forma de levar as atividades escolares para 120 crianças e adultos, com idade entre 10 e 60 anos, que não possuem acesso à internet e estão com as aulas presenciais suspensas, em decorrência da pandemia. A cada dia a kombi passa nas casas de comunidades diferentes, levando novas atividades e coletando as da semana anterior que foram deixadas para as crianças do 6º ao 9º ano e adultos do EJA (Ensino de Jovens e Adultos). “O professor prepara o material, deixa na escola, fazemos a cópia e deixamos na sede. As crianças da zona rural são identificadas por meio do endereço deixado no ato da matrícula e recebem as atividades em casa”, explica Ieda de Souza, diretora da escola.

Cronograma de visitas: os estudantes recebem atividades diárias, entregues e recolhidas semanalmente. Foto: Ieda de Souza

A escola oferece material didático pelas redes sociais. Professores deixaram as salas e agora administram grupos no WhatsApp, plataforma mais acessível considerando os gastos com dados móveis, que não são custeados pela rede pública. Mas não é possível alcançar todos os alunos por esse meio.

No Brasil, uma a cada quatro pessoas não têm acesso à internet, segundo a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios Contínua), divulgada pelo IBGE em abril deste ano. Uma carência ainda mais acentuada na região norte. No Amazonas essa desigualdade foi escancarada durante a pandemia, dificultando o ensino. Desde março, quando as aulas começaram de forma remota, as atividades por meio de equipamentos acontecem com menor frequência na região, onde apenas 46% dos exercícios escolares são feitos pelo celular – proporção que chega a 78% no sudeste e a 84% no sul. Esses e outros dados fazem parte dos últimos resultados da série de pesquisas “Educação Não Presencial na Perspectiva dos Estudantes e suas Famílias , realizada pelo Datafolha, encomendado pelo Itaú Social, Fundação Lemann e Imaginable Futures.

Mesmo com as dificuldades, a Escola Municipal Mário Jorge Gomes da Costa adaptou as formações aos professores, apostando em mostrar o básico de como gravar vídeos, criar postagens nas redes e organizar mensagens em grupos e em conversas particulares. Elba Martins, 50, é professora no município desde os 30 e hoje ministra aulas de língua portuguesa e artes para crianças do 6º ano do ensino fundamental.  “Não foi nada fácil para nós professores, fomos obrigados a nos reinventar, superar obstáculos e enfrentar muitas dificuldades”, disse.

Livros da coleção Leia Para Uma Criança fazem parte do material distribuído aos alunos da zona rural de Presidente Figueiredo: atividades em casa. Foto: Ieda de Souza

“Mas tivemos a oportunidade de nos adequarmos e enfrentarmos com garra e determinação os desafios que foram aparecendo e ainda aparecem”. A insistência de Elba em concluir o ensino dos alunos parece ser a ferramenta mais importante nesse processo. “ É notório que se não houvesse esse entrave, que é a ausência de internet, o resultado de nosso trabalho seria mais satisfatório;  no entanto, isso não está sendo motivo para desistir de nossos alunos, de desistir de lutar pelo desenvolvimento de cada um deles”.

Professora Elba Martins, que começou a dar aulas via WhatsApp para seus alunos do 6º ano: “Não vamos desistir”. Foto: Elba Martins

Faz escuro mas eu canto
Procurando dar assistência aos alunos da melhor forma, os professores inscreveram a escola no programa ‘Comunidade, presente!’, do Itaú Social. Realizado este ano em edição emergencial, o foco do programa é apoiar famílias em situação de vulnerabilidade para amenizar os impactos causados pelo avanço do Covid-19 e conceder recursos financeiros para compra de alimentos e produtos de higiene. A escola recebeu R$ 204 mil para a aquisição dos materiais. “Fizemos o levantamento de todas as famílias que estão ajudando os seus filhos neste momento. Chamamos os professores das turmas, eles deram os nomes das crianças que estão participando das aulas remotas. Os alunos do EJA também, todos receberam um mega rancho, bem bonito: uma cesta básica com material de limpeza junto”, conta a diretora Ieda.

Uma das alunas beneficiadas é Sonildes Marinho, que aos 56 anos cursa a quarta etapa do EJA na escola. Ela decidiu voltar a estudar em 2018, depois de ter desistido aos 15 anos, quando engravidou pela primeira vez. Sonildes tem acesso ao WhatsApp em casa, mas acha difícil estudar fora da sala de aula. “Pra mim está sendo muito difícil  pois sou idosa e já não tenho tanta facilidade para aprender. Voltei a estudar para o meu aprendizado mesmo, não quero me sentir inferior às outras  pessoas estudadas e com formação”. Apesar da falta que sente das aulas presenciais, Sonildes prefere que o retorno ainda não aconteça já, por conta da pandemia. “Estou com muita saudades dos meus professores, dos meus amigos, mas como eu sou do grupo de risco tenho de me cuidar e não me arriscar”, disse. 

Relembrando o poeta amazonense Thiago de Mello, em um de seus livros mais famosos, Faz escuro mas eu canto, Sonilde afirma que se assemelha ao poema, em sua crença no amanhã. “Acredito que tem a ver conosco essa vontade de querer chegar lá, de terminar. Eu quero chegar lá pelo meu aprendizado, por mim mesma, pra dizer que ultrapassei, fiz o ensino médio e não vou parar”.  Thiago nasceu em outro município do interior do Amazonas, Barreirinha, mas sua poesia também reflete o sentimento dos educadores e alunos de Presidente Figueiredo. “Faz escuro (já nem tanto), vale a pena trabalhar. Faz escuro mas eu canto, porque o amanhã vai chegar”.

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