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Para ‘ousadiar’ na educação

Os caminhos que levaram um coletivo à realização da Virada Educação de 2020, com o tema ‘Como atravessar neste tempo que nos atravessa?’


André Gravatá: “A educação é um jeito de se relacionar com o mundo com mais atenção e considerar que é possível imaginar outros jeitos de viver”. Foto: Arquivo Pessoal.

Depoimento de André Gravatá, poeta, educador, ativista social e facilitador da Virada Educação
Por Gustavo Queiroz, Rede Galápagos, Curitiba

Eu sou André, filho de pais nordestinos, nascido na periferia de Embu das Artes (SP). Sempre estudei em escola pública e isso foi muito importante para conhecer a realidade e o poder da educação pública. Pouco a pouco a questão da desigualdade se tornou muito mais incômoda para mim. Na universidade, fui bolsista Prouni e estudei jornalismo na PUC de São Paulo. Também foi um marco no meu caminho porque até o ensino médio não imaginava ser possível entrar em uma faculdade; era um universo muito distante pra mim.

Entender que uma política pública de educação teve essa força avassaladora na minha vida me levou mais e mais para a educação e para a arte, duas maneiras de entrar em contato com a realidade. A educação é um jeito de se relacionar com o mundo com mais atenção e considerar que é possível imaginar outros jeitos de viver. Nasceu então o projeto do livro Volta ao mundo em 13 escolas, criado por mim e mais três amigos (Carla Mayumi, Camila Piza e Eduardo Shimahara). Na época nomeamos nosso coletivo de Educ-ação. Para escrever este livro, viajamos por escolas em nove países!  Ele fez muita gente se perguntar quantas maneiras existem para aprender e para educar, que Brasil é esse, tão grande, e que muitos não conhecem? 

Depois do lançamento do livro, junto com outras pessoas, criamos o Coletivo Entusiasmo, com a intenção de desenvolver uma ação com escolas públicas com foco em ações no território. Nesse processo, criamos a Virada Educação, projeto que existe desde 2014, com a intenção de mobilizar escolas públicas a repensarem sua relação e a criarem juntas um projeto comum e duradouro.

Virada Educação: nos anos anteriores à pandemia, os cortejos davam visibilidade ao projeto. Foto: Reprodução Virada

A virada surgiu dessas reflexões que fazíamos sobre territórios educativos, cidades educadoras e comunidades de aprendizagem. Começamos dialogando com três escolas públicas na região central de São Paulo, cujos alunos vêm de diversos contextos, sendo que há muitos imigrantes e famílias em ocupações. Desde então, esse território vem se conhecendo mais, criando mais intimidade, pois escolas vizinhas nem sempre conversam sobre sua realidade comum. Hoje, seis escolas participam da Virada Educação, um momento de encontro em que as pessoas articulam juntas ações coletivas numa mesma região. Ainda que a iniciativa seja percebida publicamente como um evento, é muito mais; é uma forma de mobilizar. Com o tempo, a virada se desdobrou no Território Educativo das Travessias, uma ação que se dá ao longo do ano e promove encontros entre os gestores das escolas. Os educadores vivenciam e compartilham formações, fazem cortejo com maracatu pela rua e reconhecem as diversas camadas que compartilham: as afetivas, as simbólicas e as da cidadania. 

Neste ano de pandemia nossa pergunta-tema foi “Como atravessar neste tempo que nos atravessa?”. Em anos anteriores já tivemos centenas de pessoas vivendo a andança pela rua. Agora não foi possível, mas realizamos vários encontros pela internet. Na rua, a única manifestação além dos encontros virtuais foi uma carreata em que o carro da frente tinha um som com falas das crianças, pois a voz delas tinha de estar na rua de alguma maneira. De certa forma, conseguimos manter atenção para as identidades do território, que é povoado por diferentes pessoas. É fundamental podermos nos lembrar dessa diversidade quando estamos em casa. Como dizia Paulo Freire, relembrar a boniteza dessa diversidade é um jeito de se fortalecer. Agora foi muito mais difícil porque todos os nossos encontros foram mediados por telas. Assim, uma das primeiras atividades da virada em 2020 propôs uma ação corporal, de viver o corpo presente. Outro ponto importante foi fazer da virada também um ato de escuta. Sabemos que a pandemia trouxe uma angústia coletiva. As atividades deste ano eram também espaços em que as educadoras falavam, contavam e traziam suas experiências e sentimentos.

2020: neste ano, a Virada Educação aconteceu de forma on-line. Foto: Reprodução Virada

Com o tempo, a virada se tornou um projeto vivo. Já aconteceu em Salvador, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Manaus, Conde (PB), Pindamonhangaba (SP) e Ipatinga (MG), sempre de forma orgânica, puxada voluntariamente por coletivos locais. Sinto que o maior desafio é, a partir da perspectiva de Paulo Freire, continuar anunciando e denunciando. Continuar se manifestando, não aceitando a violência estrutural e, ao mesmo tempo, se fortalecendo. O desafio coletivo é o da gente se apoiar, se dar sustentação. De alguma maneira dizer que, apesar de todo esse contexto, ainda existem iniciativas que estão em pé e que precisam do apoio das pessoas.

É preciso valorizar mais o que é feito coletivamente e que muitas vezes não é reconhecido como poderia. Coletivamente ainda temos muita dificuldade de valorizar aquilo que realmente cuida da gente. Meu recado tem a ver com esse olhar poético, porque na poesia  vivemos o exercício infinito de estar presente, estar aqui, estar agora tentando traduzir em palavras ou em gestos essa existência que também é um mistério. De alguma maneira, a poesia me ensina muito a ser educador também porque ela me abre espaço para perguntas que ainda não foram feitas. Tudo isso tem relação com a palavra ousadiar, assim mesmo, transformada de substantivo em verbo, que aprendi com um senhor lá no Vale do Jequitinhonha. Ele me disse que só conseguiu ver uma mudança mais forte na vida dele quando começou a “se compartilhar” e ousadiar. Essa palavra ficou muito comigo, porque ousadiar quer dizer inventar, abrir espaço. Assim, de alguma maneira, o meu caminho com a educação tem muito a ver com essa incessante tentativa de abrir caminhos junto com as pessoas. 

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