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Outros contos de fadas

Contação de histórias é um dos projetos do Mãe Terra, instituto que atende alunos de 107 escolas da rede pública de ensino de Porto Seguro. A Cinderela de lá não quer casar. Quer estudar


As fadas Dália (interpretada pela bióloga Lígia) e Flora (interpretada pela pedagoga Pétala), numa adaptação do clássico Cinderela: o desejo da protagonista é trocar o príncipe pelos livros. Foto: Instituto Mãe Terra/Divulgação

Por Afonso Capelas Jr., Rede Galápagos, Porto Seguro (BA)

“Bom dia com muita alegria”. A saudação calorosa preenche o ar no pátio da Escola Municipal Álvaro Henrique, no bairro Frei Calixto, periferia de Porto Seguro, litoral sul da Bahia. Dezenas de crianças e adolescentes respondem “bom dia” com entusiasmo e ouvidos atentos ao que vão narrar as fadas Dália e Flora. É a história, bastante conhecida, de Cinderela, mas com uma releitura inusitada: na versão contada pelas simpáticas fadinhas, o grande desejo da protagonista não é se casar com o príncipe, mas estudar com dedicação para se formar em uma faculdade. 

O sonho, entretanto, é ofuscado pela obrigação de trabalhar- aquela parte do conto de fadas que todos já sabem e que, infelizmente, também faz parte do cotidiano de muitos jovens porto-segurenses. Por isso, o Instituto Mãe Terra (IMT), uma organização da sociedade civil (OSC) que iniciou suas atividades em 2006, criou as personagens para abordar o tema “trabalho infantil”. A instituição atende hoje 1.477 alunos de 107 escolas da rede pública de ensino. A contação de histórias é parte do Projeto Filhos da Terra: Um despertar para a educação cidadã, juntamente com vernissages e oficinas de arte. Com a chegada da pandemia, a estratégia teve de ser adaptada. 

A cidade de Porto Seguro faz parte da chamada Costa do Descobrimento e é vivamente reverenciada como um dos mais queridos e visitados paraísos de sol do nordeste brasileiro – principalmente por turistas estrangeiros e brasileiros do sul do país. Um olhar mais próximo e atento, contudo, revela um paradoxo no éden: convivem com a natureza generosa da região índices preocupantes de criminalidade, especialmente nas comunidades em situação de vulnerabilidade, além do tráfico de drogas e o trabalho infantil. Em tal cenário – visualmente lindo, mas perigoso, sobretudo para crianças e adolescentes – era necessário traçar um diagnóstico detalhado da situação dentro de um mosaico social diverso que inclui as populações urbana, rural e indígena do município, além de assentamentos sem-terra. 

Um levantamento foi realizado pelo IMT em 107 escolas da rede pública de ensino por meio de uma estratégia lúdica: a contação de histórias narradas pelas fadas Dália e Flora. “Para que as crianças se sintam à vontade, cada uma escolhe sua personagem para identificá-las no crachá enquanto fazemos as apresentações. A Fada Dália foi inspirada na natureza e, quanto mais eu investia no figurino e na maquiagem, mais encantadas elas ficavam. E mais divertido e receptivo era o nosso trabalho”, conta Lígia Mendes. 

Fada e bióloga
Lígia não é atriz de formação. É graduada em Biologia e especialista em gerenciamento ambiental. Piracicabana criada em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, chegou a Porto Seguro para trabalhar nessa função em uma Unidade de Conservação e, por acaso, conheceu o trabalho do Instituto Mãe Terra. Foi convidada a participar de algumas atividades com os jovens e ficou fascinada a ponto de colocar os dois pés no Projeto Filhos da Terra. “É maravilhoso trabalhar com as crianças. Muitas chegam a se sentir à vontade para compartilhar sonhos, angústias e desejos com a fada”, conta.

O Projeto Filhos da Terra nasceu em 2017. Seu principal objetivo é reduzir ao máximo a vulnerabilidade e o risco social de crianças e adolescentes, buscando melhorar sua vida escolar e desenvolvimento integral. Essa meta é realizada em duas etapas: a primeira, dedicada a crianças de 6 a 11 anos; a segunda, voltada aos adolescentes de 12 a 17 anos incompletos.

A Fada Dália durante uma contação de histórias na Escola Quatro Estações, Porto Seguro, antes da pandemia: atenção dos alunos. Foto: Instituto Mãe Terra/Divulgação

Nessa jornada estão envolvidos também o poder público, associações comunitárias, organizações da sociedade civil, em união com instituições de ensino rurais, urbanas e indígenas, a fim de formar redes colaborativas e aperfeiçoar as políticas públicas voltadas aos povos e comunidades tradicionais da Bahia. Esse projeto é uma das parcerias do Mãe Terra com o Itaú Social. A organização também faz parte do programa Missão em Foco, voltado ao desenvolvimento institucional da organização e formação de equipes. 

Comunidades rurais e indígenas
Com a chegada da pandemia e o aumento de casos positivos no litoral sul baiano, a rotina do Instituto Mãe Terra teve de ser radicalmente modificada. “Desde meados de março, quase todas as equipes passaram a trabalhar em casa”, afirma Elismar Fernandes, presidente do conselho deliberativo do IMT. “Existimos há 14 anos e foi muito difícil quando tudo parou de repente. Ficamos perplexos e precisamos nos reinventar”. Assim, novas estratégias foram adotadas para não interromper o andamento e os resultados já alcançados. As atividades foram remanejadas para lives, vídeo-aulas ou ações pontuais presenciais de pequena escala em sistema de rodízio, sempre com todas as medidas de segurança necessárias. Mas uma parte significativa das comunidades atendidas é rural e indígena, com pouca ou nenhuma estrutura de equipamentos ou serviços de internet. “Para minimizar essa situação produzimos material informativo, educativo e de comunicação para levar a esses lugares e mantê-los sempre atualizados”, explica Elismar. 

Outra estratégia de atendimento durante a pandemia foi a distribuição de mantimentos, chamada de Campanha #IMTpelavida. Durante três meses foram enviados às famílias cadastradas cestas de alimentos, kits de higiene e limpeza pessoal, máscaras de proteção e livros infantis. A meta tratada com o Itaú Social, principal parceiro nas  ações de mitigação dos impactos da Covid-19  na região, era beneficiar 500 famílias por mês durante esse período.

Graças à capacidade de negociação de valores e articulação de apoio local, foram entregues 2.187 cestas e kits entre maio e julho, beneficiando 729 famílias, quase 3.000 pessoas. Foram 56 toneladas de alimentos distribuídos entre 16 grupos sociais. 

As cestas básicas com alimentos, kits de higiene pessoal e limpeza doméstica, máscaras de proteção e livros infantis: 729 famílias beneficiadas durante a pandemia. Foto: Instituto Mãe Terra/Divulgação

Novo cenário
“Adequar-se a esse novo cenário tem sido desafiador. Além das reuniões virtuais ficamos em contato via WhatsApp. Sempre trabalhamos de mãos dadas, diretamente com o público. Tivemos que aprender a sorrir com os olhos e ter a esperança de que logo tudo vai passar”, conta Calitta Felberg Pereira, assistente social do IMT. Sua atuação nas comunidades está voltada às visitas domiciliares para orientação aos beneficiários e também à promoção de encontros periódicos com eles, agora por via de webinários. 

A assistente social empenha-se desde 2013 em Porto Seguro, uma tarefa muito rica, segundo relata: “Trabalhar com esse público gera uma inquietação, um desejo imenso de construir uma trajetória diferente para as pessoas. Os jovens nos permitem novas descobertas, formas diferentes de olhar para sua comunidade. Eles enxergam ali um mundo cheio de possibilidades. Isto nos ensina, até mesmo, novas dinâmicas de trabalho”.

Jeliton Lima é um dos adolescentes que passaram pelas orientações do Projeto Filhos da Terra. Morava no bairro periférico Paraguai, tinha 16 anos e estudava na Escola Pública Municipal Educandário Pero Vaz de Caminha. “Foi um momento mais que especial na escola. Abriu para nós um leque imenso de oportunidades”. O jovem reconhece que entendeu sobre seus direitos dentro e fora da escola, inclusive como atuar no mercado de trabalho. Deu certo. Hoje Jeliton tem 18 anos e trabalha como operador de produção de uma grande empresa multinacional de alimentos. “Levo todos os ensinamentos que me foram dados pelo projeto como comportamento, diálogo e atenção. É o que me faz ser quem eu sou”. 

Estratégia e coragem
A crise gerada pela pandemia proporcionou a criação de uma plataforma de enfrentamento da Covid-19, um novo projeto de extensão em curso de execução, em parceria com a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). A ideia é promover, com um portal virtual, a cooperação e solidariedade nas intervenções de relevância social no enfrentamento à pandemia e mitigação de problemas decorrentes. “Do ponto de vista estratégico, queremos ser um agente incentivador de tecnologias sociais para promoção do bem viver na Costa do Descobrimento. Isto só será possível com o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes. Também vamos incrementar os Arranjos Produtivos Locais (APL) para a especialização produtiva das comunidades, além da maior participação da OSC nas articulações em rede”, diz o diretor executivo do IMT, Altemar Felberg. 

“Em pouco mais de uma década passamos por inúmeras fases. A mais importante delas, sem dúvida, foi onde nos encorajamos a olhar para dentro e redefinimos o que somos e pretendemos ser, repensando a forma de fazer para alcançar outros sonhos e tocar outras pessoas”, revela Elismar Fernandes. Certamente foi o que aconteceu com Pétala Grecov, a Fada Flora, citada no início desse texto. Pedagoga, trabalhou nas duas etapas do Projeto Filhos da Terra e tem orgulho do que faz, porque ela mesma tem uma história de vida com exemplos de desafios e de superação. “Quando adolescente, fui atendida pela rede de proteção da criança e do adolescente por ter sofrido uma violação”, relata. “Em 2019, transformei essa experiência individual por meio do IMT ao atuar em um projeto que ofereceu oficinas de capacitação para agentes da rede de proteção da criança e do adolescente. Passar de público atendido para profissional dessa área enriqueceu minha experiência como ser humano e cidadã”.

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