Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca
Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Que tal você fazer também?

Os livros que os estudantes querem

Para criar uma alternativa de estudos fora das telas durante a pandemia, comecei uma campanha de doação dos livros que os estudantes escolheram ler neste período


A professora Paula Martins, de Minas Gerais, que enviou nove livros para diferentes estudantes de São Paulo e do Rio de Janeiro: junto com cada título, uma carta escrita à mão. Foto: Arquivo pessoal

Por Cinthia Rodrigues, Rede Galápagos, São Paulo – Jornalista, cocriadora da iniciativa “Quero na Escola”, de voluntariado em escolas públicas

Quando a pandemia de Covid-19 chegou ao Brasil, além de todo o medo pela vida das pessoas e pelas repercussões sociais, também sofri porque as escolas já não poderiam mais receber visitas. Desde agosto de 2015, me dedico ao “Quero na Escola”, projeto que leva voluntários a escolas públicas a partir de pedidos de estudantes por assuntos específicos. Um exemplo de pedidos comuns antes da pandemia eram as palestras sobre temas como gordofobia, bullying, Enem, vestibular, informática e mercado de trabalho. Foi a forma que encontramos para reduzir a desigualdade de oportunidades entre estudantes com contextos socioculturais mais e menos favorecidos. Na quarentena, esta janela se fechou e tivemos de buscar outra.

Começamos pelo ambiente on-line. Convidamos os voluntários já inscritos em atividades nas escolas a participar agora de encontros virtuais com os estudantes interessados. A alternativa, no entanto, não dava conta da missão de reduzir as desigualdades, já que o acesso à internet é muito diferente entre as classes sociais. Além disso, em poucas semanas muitos adolescentes, até então conhecidos como viciados em tela, enjoaram delas. Conversamos então com um grupo de jovens para saber como poderíamos ajudar de outra forma e a resposta foi simples e potente: com livros.

Apesar de apenas metade das escolas no Brasil ter bibliotecas, segundo o Censo Escolar mais recente, quase todas têm algum acervo literário ou cantos de leitura. Com as escolas fechadas, também foram fechados estes livros.

Cada estudante se limitou ao que tinha para ler em casa. Adivinha o que apareceu de novo? A enorme desigualdade de oportunidades. Quem trouxe o assunto para a gente foi o estudante Álvaro Samuel, 16 anos, que está no 2º ano do Ensino Médio e já começou a ler as obras obrigatórias para o vestibular.

Cinthia Rodrigues: alunos de escolas públicas, com idade a partir de 12 anos, fizeram mais de 300 pedidos de livros, que são doados por uma rede de voluntários. Foto: Arquivo pessoal

Em uma conversa sobre o que fazer em tempos de pandemia ele sugeriu que o envio de arquivos em PDF seria melhor do que links de textos. “Eu, por exemplo, estou procurando PDFs de livros para ler”, comentou. “E o livro físico, não seria melhor?”, perguntei. “Seria, mas isso a maioria não tem como comprar”, arrematou. Uma semana depois, em julho, lançamos a campanha “Quero Livro”.  

Com um formulário simples, os estudantes de escolas públicas inscrevem-se e dão os títulos dos livros que gostariam de ter por perto durante o confinamento. Nós listamos os pedidos para que voluntários interessados em doar aquela obra também se inscrevam. Pode ser um livro parado na estante ou um novo, direto da loja.

O Álvaro, que inspirou a ideia, foi um dos primeiros a receber os dois livros que pediu: “Angústias”, de Graciliano Ramos, e “Poemas Escolhidos”, de Gregório de Matos. Só na escola dele, a ETEC Carlos de Campos, em São Paulo, mais 20 colegas receberam de presente os livros que pediram. 

A lista de livros escolhidos pelos estudantes, em sua maioria, é de literatura juvenil: diversidade de títulos, de Harry Potter a Anne Frank. Imagem: Instagram @queronaescola

Em dois meses, foram mais de 300 pedidos de estudantes. Destes, quase 100 livros já estão nas mãos dos leitores. Por conta do foco do “Quero na Escola” nas etapas de educação em que o Brasil tem menos resultados – os anos finais do ensino fundamental e o ensino médio – são aceitas apenas inscrições de estudantes acima de 12 anos e sempre de escolas públicas.

Os pedidos, em sua maioria, são por títulos de literatura juvenil, de Harry Potter a Anne Frank. Em seguida, estão obras da literatura brasileira de autores tão diversos como Maria Carolina de Jesus e Euclides da Cunha. Os livros obrigatórios nos vestibulares são 10% do total. Há também destaque para livros de ciências sociais, incluindo títulos que tratam de temas urgentes sempre solicitados por estes estudantes como racismo, desigualdade de gênero e política.

Considero que o estudante ganha algo mais além do livro. Com o presente entregue vai um sinal claro de que há pessoas que se importam com educação, não no sentido abstrato que comumente aparece entre as prioridades de qualquer cidadão, mas de um modo bem concreto: se importam com quem estuda e estão dispostos a ajudar. Sempre gosto de lembrar que a Constituição Federal do Brasil diz que educação é “obrigação do estado e da família com a participação da sociedade”. 

Muitos doadores fazem questão de enviar seus contatos, um elogio pela escolha do título ou mesmo um depoimento sobre a influência da leitura em suas vidas. É o caso da professora mineira Paula Martins, que enviou 9 livros para diferentes estudantes em São Paulo e no Rio de Janeiro, sempre com uma carta escrita à mão. Uma das estudantes, que nunca havia recebido uma correspondência de outro município enviou uma mensagem agradecendo o livro e emocionada com a carta.

Do lado de cá, eu também me emociono com as mensagens ou publicações em redes sociais feitas pelos estudantes e com a iniciativa de pedirem livros. A campanha “Quero Livro” segue sem data para acabar. Mais de 70 títulos estão listados à espera de possíveis doadores. Quando a pandemia acabar, espero que estas obras sejam lembranças de um capítulo feliz no meio da difícil história da quarentena a que fomos todos submetidos.

Saiba mais