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Polo de desenvolvimento educacional

Organizações de Juventudes Negras: quem são, onde estão, o que fazem

Um olhar para dentro das organizações de juventudes negras revela o forte protagonismo dos jovens tanto na execução dos projetos quanto como público das ações. Noventa e dois por cento das entidades ouvidas durante a pesquisa possuem colaboradores de até 29 anos integrando as equipes de trabalho e 70% delas dedicam seus esforços exclusivamente para os jovens. O dado explica o fôlego renovado – e também uma certa fragilidade institucional – apresentado pelas entidades mapeadas pela pesquisa do Itaú Social e do Observatório de Favelas.

A predominância dos jovens justifica também os campos de atuação prevalentes. Arte e cultura estão na pauta de 33 instituições. Em seguida, vêm educação e direitos humanos aparecendo como eixos de ação de 27 entidades:

Fonte: Pesquisa Nacional Sobre Organizações de Juventudes Negras

Para a equipe que realizou a pesquisa, a centralidade desses temas ocorre como forma de suprir lacunas deixadas pelo estado. “Foi por essas vias que o racismo institucional impediu a população negra de acessar a sociedade como um todo. Precisamos olhar para o fato do ensino de história da África e das culturas africana e afro-brasileira só aparecer oficialmente na educação básica em 2003, depois de uma grande articulação do movimento negro. Por isso, a educação desses indivíduos se deu e se dá em grande parte em espaços e manifestações culturais não formais como clubes, sambas, congadas e marujadas”, explica Juliana Yade, especialista em educação e pesquisadora do Itaú Social.


Atuação concentrada no Sudeste e Nordeste

A pesquisa desenhou o mapa de atuação das entidades. A maior parte delas está concentrada nas regiões Nordeste e Sudeste, como mostra o gráfico abaixo:

Fonte: Pesquisa Nacional Sobre Organizações de Juventudes Negras

Em termos de projetos, ao todo foram 63, distribuídos em diferentes regiões do país. O Nordeste aparece com 26, seguido pelo Sudeste, território de 13 ações. Os maiores vazios estão nas regiões Sul e Centro-oeste, com 7 e 6 projetos, respectivamente. O levantamento concluiu que as organizações presentes nas regiões com maior concentração de renda encontram mais facilidade para reverberar suas pautas e expandir as ações para além de seus territórios. Por outro lado, as entidades presentes nos estados onde há escassez de recursos vivem grandes dificuldades no desenvolvimento dos projetos.

Segundo Juliana, os dados podem ser interpretados historicamente. “O movimento negro viveu um boom na década de 1980 na região Sudeste. Por isso, muitas organizações se alocaram nesse território. Já o Nordeste vem passando pelo processo se reconhecer negro, um movimento que agora vai muito além da Bahia”, afirma. De acordo com a especialista, o Sul sofreu um apagamento da cultura negra, que se deu muito pela origem europeia estabelecida no local. “Mesmo assim, é preciso reconhecer que as periferias estão lá, assim como os registros históricos de clubes e associações negras”, ressalva.

Juliana explica que todas as temáticas de atuação são perpassadas pela luta pelos direitos humanos. “O direito de ser reconhecido como um cidadão sempre foi motivo de luta entre os negros, desde as populações escravizadas até hoje, no que a gente chama de abolição inacabada”, diz Juliana. A especialista aponta que concentrar os trabalhos em áreas que são caras para as juventudes negras é essencial, mas tem seus limitantes. “É necessário que avancemos cada vez mais nos espaços onde a população branca transita há bastante tempo. Por exemplo, nas áreas de tecnologia e economia. Afinal, elas também são vias de acesso a direitos essenciais para a cidadania”, defende.

Uma das edições do programa Conexão Futura, do Canal Futura, foi dedicado à luta pelo protagonismo de negros e indígenas em países latino-americanos, tema da série Diz Aí, fruto de uma parceria entre o Futura e o Itaú Social. Participaram da conversa Juliana Yade, especialista em educação do Itaú Social; Aruan Braga, coordenador de pesquisas do Observatório de Favelas; e Larissa Fulana de Tal, diretora da série.

 

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