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Polo de desenvolvimento educacional

Olimpíada recheada de atividades pedagógicas

A primeira edição da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, um programa da Fundação Itaú Social em parceria com o Ministério da Educação (MEC), aconteceu em 2008. Para começar, os professores das escolas públicas inscritas receberam o material para desenvolver em sala de aula. Após, aproximadamente, 2 meses e meio de trabalho, cada escola indicou seus melhores textos para uma seleção municipal. Isso quer dizer que as produções escolhidas competiram com outras da mesma cidade.

Os eleitos passaram por outra avaliação, agora em nível estadual, e os autores dos textos selecionados no estado e seus respectivos professores foram convidados a participar da etapa regional, que reuniu alunos e docentes da mesma região. Nesse encontro, foi possível ampliar o repertório cultural de todos os envolvidos, já que grande parte de crianças e jovens nunca havia viajado. Além de ser uma oportunidade de conviver com pessoas de outros lugares e poder compartilhar experiências, a reunião tem finalidade pedagógica, pois é momento de tomar consciência do que foi feito durante todo o trabalho escolar.

Para Sonia Madi, coordenadora do programa no Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), que realiza a coordenação técnica da Olimpíada, a intenção é que o professor tenha discernimento sobre o que o fez merecer a escolha. “Só assim ele terá clareza para repetir a metodologia aprendida empregando outro gênero textual”, explica.

Primeiras experiências

Ao todo, foram sete oficinas regionais, que aconteceram em Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG), Fortaleza (CE), Goiânia (GO), Belém (PA), Recife (PE) e, a última, em São Paulo (SP). Participaram do evento na capital paulista 25 alunos e 25 professores de 4ª e 5ª séries (5º e 6º anos) do ensino fundamental do Estado de São Paulo, inscritos e classificados na categoria poesia.

Estavam presentes também todos os aprovados em memórias e artigo de opinião, respectivamente, das 7ª e 8ª séries (8º e 9º anos) do ensino fundamental e dos 2º e 3º anos do ensino médio de todo o território brasileiro, somando um total de 275 alunos e 275 professores. Aos poucos, o Hotel Transamérica foi sendo tomado por mais de 600 pessoas entre crianças, jovens e adultos, vindos dos mais variados lugares do País.

Na primeira noite, todos participaram de uma atividade de integração para contar um pouco sobre os lugares de onde vieram. Nessa oportunidade, as crianças de poesia receberam cartões postais escritos por (LINK) e puderam responder a seus interlocutores.

No dia seguinte, muita expectativa na expressão de todos. Alunos foram separados de seus professores. Cada turma foi reunida em uma sala para receber informação (e formação!) no uso dos gêneros estudados. As formadoras do Cenpec Cris Zelmanovitz e Elaine Ponce, por exemplo, ficaram com a responsabilidade de conduzir os trabalhos com os pequenos de 4ª e 5ª séries (5º e 6º anos). Cris e Elaine, logo cedo, reuniram a criançada para saber como tinha sido a primeira noite fora de casa. Após ouvirem atentas aos relatos, contaram o que estaria por vir naquele dia recheado de atividades.

Ampliação de repertório

Ainda sentados em círculo, cada um teve a missão de ler um poema preferido. Carlos Drummond de Andrade, Gonçalves Dias e Cecília Meireles foram alguns dos poetas citados. Como nesse grupo foi forte a organização dos poemas em quadras, as formadoras apresentaram às crianças outros formatos, como a poesia concreta, que se caracteriza pela abolição do verso, organização do texto segundo critérios que enfatizam valores gráficos e fônicos e conexão direta entre as palavras.

Os pequenos também conheceram materiais que apoiam a poesia, como o dicionário de rimas. Complementar à ação, foi exibido um vídeo com o poeta Manuel de Barros explicando o seu estilo literário. O objetivo foi ampliar o repertório dos estudantes e fazê-los enxergar problemas que ainda não haviam sido detectados em seus textos.

Depois, a turminha teve a oportunidade de criar um novo poema tendo como inspiração as experiências de infância e as expectativas para o futuro. Em uma folha A4 na posição horizontal, com a própria foto fixada no centro, Ítalo Daniel Seixas Ferro, de 10 anos, do 5º ano (4ª série), da EMEF Profª Joanninha Gilberti, em Sertãozinho (SP), escreveu o seguinte:

Adeuzinho

À minha infância.

Adeuzinho,

Vida de criança.

Adeuzinho,

Meus carrinhos de brinquedo.

Adeuzinho

Às histórias e aos segredos.

Apareceu, agora,

Uma vida adolescente.

Mesmo assim,

Consigo ser contente.

Apareceu, agora,

Uma linda liberdade.

Guarda esse segredo?

Estou com muita saudade.

Essa atividade estimulou a reflexão sobre o que é crescer, quais coisas da infância estão sendo deixadas para trás e quais outras estão sendo incorporadas à nova fase. Como recordação, cada um levou para casa um álbum com cópias de todos os escritos dos colegas.

Ações de formação

Enquanto isso, na sala com os professores semifinalistas de 4ª e 5ª séries (5º e 6º anos) do Ensino Fundamental, Ana Roveran e Marina Brant, formadoras do Cenpec, recebiam os relatos de prática escritos por eles e estimulavam uma atividade sobre seqüência didática. “Trata-se de uma grande prancha com vários cartões enumerados e o grupo tem de descobrir em qual sequência as atividades devem ser feitas”, explica Ana. A sugestão está no (LINK).

Aos estudantes das categorias memórias e artigo de opinião, foi pedido um novo texto. Para ajudar na missão, os alunos de memórias receberam o ator João Acaiabe, que entrou no teatro do Hotel Transamérica recitando Se essa rua fosse minha. Acaiabe faz teatro, cinemas, TV e também é contador de histórias. Ele falou sobre sua vida e se colocou à disposição da turma para responder às questões vindas da platéia. Com base no que foi falado, os aprendizes de escritores construíram seus novos textos.

Os participantes da categoria artigo de opinião receberam o Q.P. Brasil – o jogo da argumentação, criado pelo Cenpec. O objetivo foi motivar os participantes a refletir e construir argumentos contrários ou favoráveis em relação às questões polêmicas apresentadas. Eles tinham de usá-lo antes de escrever seus textos inéditos.

A parte da tarde foi reservada para um passeio cultural. Os pequenos de poesia visitaram os principais pontos turísticos do centro paulistano, como o Pateo do Collegio e o Edifício Martinelli. Os de memória visitaram o Museu Paulista e os do ensino médio foram ao Museu da Língua Portuguesa. No fim do dia, todos exaustos pelo dia puxado de trabalho e diversão. Só restou o jantar e um pouco de conversa.

Conhecimentos apropriados

O trabalho começou logo cedo no terceiro dia, na sala dos professores de poesia. Com um novo texto em mãos, o grupo foi dividido em subgrupos de cinco ou seis pessoas e cada turma tinha como objetivo lê-lo e modificá-lo, caso sentisse necessidade de aprimoramento. Nesse momento, foi possível identificar as aprendizagens por parte dos educadores. “A cada justificativa de mudança, seja em uma pontuação ou em uma palavra, percebemos como eles estão mais críticos”, observa Ana.

Depois de dois dias trabalhando separadamente, chegou a hora do encontro entre professores e alunos. Os adultos orientam seus pupilos sobre possíveis modificações no texto original. “Há mais estrofes do que necessário?”, “O poema ganha rima e perde o sentido?”, “O que está inadequado?” e “Está repetitivo?” foram algumas das questões lançadas. Foi um momento de alta produtividade, pois os conhecimentos de ambas as partes estavam aguçados. Tanto os professores aprenderam como fazer melhor essa intervenção, como os alunos, que aprenderam mais sobre o gênero para melhorar a sua produção. Depois das orientações, cada criança ficou sozinha reescrevendo o que achou preciso.

O momento da livraria merece também ser registrado, pois foi uma oportunidade de aprendizagem. Alunos de todas as categorias puderam escolher o valor de R$ 200 em livros. “Muitas vezes, eles trabalham com as publicações disponíveis na biblioteca escolar ou, quando ganham exemplares, geralmente, não são escolhidos por eles”, explica Sonia Madi.

Na Olimpíada, os estudantes vão ao estande de livros, que foram cuidadosamente selecionados, e separam um título. Quando retornam à sala, têm de justificar a escolha. Com base nisso, os formadores chamam a atenção para detalhes como orelhas, índices, nomes de autores, gêneros, enfim, características, muitas vezes, nunca analisadas. Depois da orientação, eles têm a chance de voltar e escolher os outros e até trocar a primeira publicação.

A essa altura, era possível ver professores e alunos mais entrosados. Depois de uma deliciosa refeição, todos tiraram a parte da tarde para descansar e se preparar para o grande evento de premiação à noite, que aconteceu no Teatro Abril, em São Paulo. Lá, foram anunciados os finalistas, todos convocados para a grande final em Brasília.