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Polo de desenvolvimento educacional

Olimpíada contribui para ampliar repertórios

No final de novembro foram anunciados os 20 vencedores, professores e alunos, da edição 2010 da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, no Museu Nacional de Brasília. Neste ano, foram mais de 239.435 inscrições de professores de 60.123 escolas de todo o Brasil nos quatro gêneros textuais – poema, memórias literárias, crônica e artigo e opinião – e cerca de sete milhões de alunos envolvidos. O caminho percorrido até a premiação final contou com cinco etapas de seleção (escolar, municipal, estadual, regional e nacional) e quatro premiações regionais que ocorreram nas cidades de Curitiba, Fortaleza, Belo Horizonte e São Paulo, das quais participaram 500 semifinalistas.

Muitos deles enfrentaram dias de viagem, vivenciaram novas experiências como andar de avião e visitar outros estados pela primeira vez. Em cada uma das cidades onde aconteceram as premiações regionais, alunos e professores tiveram a chance de conhecer pontos turísticos e culturais, ampliando repertórios e a bagagem que levaram de volta para casa. Para o estudante Guilherme Resende Ferreira, 10, da cidade de Niquelândia, GO, a viagem à Fortaleza trouxe muitas novidades. “Nunca tinha saído de Goiás, nunca tinha andado de avião, nem de elevador!”, conta empolgado. Ele concorreu a uma vaga na final com um poema, gênero com o qual já tem intimidade, que fala sobre as festividades e tradições de sua cidade, como a folia de reis, a congada e a cavalgada. “Escrevo desde os 7 anos. Tudo o que eu leio, histórias em quadrinhos, romances, faço virar um poema. Foi minha mãe quem me disse que eu estava escrevendo poemas, eu nem sabia que tinha esse nome. Ela me deu um monte de livros e eu tomei gosto pela coisa”, conta.

Além da oportunidade de reforçar os conhecimentos adquiridos ao longo dos meses de oficinas, professores e alunos puderam trocar experiências em um ambiente que misturou cores, traços e sotaques de todo o Brasil. “Este é um momento não apenas de coroar nosso trabalho, mas também de aperfeiçoar nossa prática e perceber algumas questões que sozinhos com os alunos deixamos passar. Este encontro nos fez perceber a grandiosidade do programa e o impacto do trabalho no aprendizado dos alunos”, relata o professor Ladmires Luiz Gomes de Carvalho, de Natal, RN, selecionado entre os 152 finalistas que estiveram em Brasília, no dia 29 de novembro, para a cerimônia da premiação nacional.

 

Olimpíada, uma proposta que funciona

Apesar das diferentes realidades socioeconômicas e culturais, os professores são unânimes ao afirmar que a metodologia de ensino do idioma por meio de gêneros textuais e sequências didáticas, proposta pela Olimpíada, de fato, funciona. A professora Maria do Carmo de Sousa Torres, de João Pessoa, PE, que participa pela segunda vez da Olimpíada com o gênero poema, observa uma intensa evolução em sua sala de aula. “Eu concluo o ano letivo com os meus 35 alunos, dos quais muitos tinham grandes dificuldades de ler e escrever, produzindo belos textos e poetizando. O material nos dá o suporte para motivá-los e para identificarmos e solucionarmos as dificuldades”, afirma.

Para a professora Ivana Alves da Silva, da pequena Itaeté, BA, que é finalista com o gênero memórias literárias, “esta experiência muda muita coisa profissionalmente e pessoalmente”. Ela diz que a proposta da Olimpíada mudou a matriz curricular da escola onde trabalha. “Passamos a pensar em questões que não achávamos tão importantes, como o ensino do idioma por meio de gêneros textuais”, relata.

Segundo a educadora Ana Elvira Luciano Gebara, que trabalha com o material da Olimpíada desde 2004 e atuou como palestrante em Fortaleza, a metodologia do programa permite ao professor mapear os conhecimentos prévios dos alunos e as dificuldades, atuando de acordo com a realidade da sala de aula. “A partir do diagnóstico que é feito com base na primeira produção dos alunos, o professor tem condições de suprir as lacunas e conseguir um bom resultado”, afirma.

O encontro dos semifinalistas é também um momento em que os professores têm a chance de verificar que a metodologia do programa funciona, independentemente da realidade vivenciada em seus municípios. “O encontro tem como objetivo reconhecer o trabalho dos alunos e professores, ampliar o repertório, mas também de reforçar a formação iniciada com as oficinas em sala de aula. Para os professores, é um momento de troca e de confirmar que a metodologia traz bons resultados”, aponta Sônia Madi, coordenadora técnica da Olimpíada pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).

 

Uma mudança no olhar, construindo identidades

Além da evolução observada em sala de aula, a professora Maria do Carmo de Sousa Torres, de João Pessoa, PE, afirma que o tema da Olimpíada, O lugar onde vivo, contribui para ampliar a visão de mundo dos alunos, promover a identificação com suas comunidades, além de elevar a auto-estima. Ela conta que quando apresentou o tema os estudantes reagiram negativamente contestando que não teriam o que dizer sobre o lugar onde vivem. “São alunos, em sua maioria, provenientes de uma das comunidades mais violentas de minha cidade. Eles não conseguiam ver nada de bom em suas comunidades. Percebi que a visão de lugar para eles era muito limitada. Fiz um trabalho no sentido de mostrar aos alunos que o meu lugar é muito além do território onde meus pés podem pisar”, conta.

A professora, que adotou um livro de história para complementar o trabalho em sala de aula, apresentou a cidade por meio de fotos e cartões postais e conseguiu, com o apoio da direção da escola, organizar um passeio turístico. “Eles ficaram fascinados e produziram textos maravilhosos”, conta. A produção textual dos alunos foi organizada em uma coletânea, Os poetas da escola, poetizando sobre o lugar onde vivo. “Nós vamos continuar a trabalhar com a proposta da Olimpíada, então desde já estamos preparando os nossos alunos, buscando ampliar a visão de mundo. Hoje, posso dizer que tenho outros alunos, muito mais interessados”, finaliza. Sentir-se valorizado e reconhecido. É dessa forma que o estudante Jefferson Wilheme Pereira da Silva Santos, de Teresina, PI, descreve a experiência de ter chegado à semifinal do programa com o gênero crônica. “Para mim, foi surpresa total porque eu venho de uma realidade de uma periferia pobre. Não temos uma estrutura boa e as pessoas não estão muito interessadas em estudar. Eu procuro me diferenciar, me destacar por meio dos estudos. Ser finalista é um reconhecimento do meu esforço”. Jefferson conta que no início não estava tão animado com a proposta até perceber a grandiosidade do programa. “A Olimpíada forma verdadeiros escritores, a gente aprende a colocar nos textos o nosso toque, o nosso olhar. As oficinas são dinâmicas e, por isso, conseguem nos envolver”, afirma.

Os alunos, muitas vezes, não se sentem capazes de participar de um concurso a nível nacional, principalmente os que vivem em comunidades pobres de pequenas cidades, conforme relata a professora Crislane Marques de Oliveira, de Logradouro, PB. “Na primeira vez em que participamos da Olimpíada, meus alunos não acreditavam no programa, não acreditavam que poderiam passar por uma seleção, nem sequer que seus textos seriam lidos. Com o reconhecimento da semifinal em 2008, os alunos passaram a acreditar que são capazes, a compreender que eles são a chave do processo e vestiram a camisa”, conta a professora.

De Itaeté, BA, a professora Ivana Alves da Silva compartilha da mesma visão. “Quando recebemos a notícia, custamos a acreditar. A escola pública em si é desacreditada, ainda mais de uma cidade de interior. Para nós, chegar à final é afirmar que nós podemos e que estamos no caminho certo. É um reconhecimento para a escola e para a cidade”, afirma.

Recuperar a auto-estima é dos efeitos colaterais do programa observado pelos educadores e pelos próprios alunos. A história do estudante Heriberto Antonio de Souza, 28, do município de Serrinha, RN, é prova disso. Após dez anos fora da sala de aula, ele decidiu voltar a estudar com o objetivo de se preparar para um concurso público. “Eu não tinha a menor expectativa de chegar à semifinal. Eu não sabia sequer o que era uma crônica (gênero com o qual concorreu). Estou muito satisfeito em estar aqui, é uma vitória”, diz emocionado. Hoje, Heriberto, que se tornou fã de Rubem Braga e Luis Fernando Veríssimo, não pensa em outra coisa senão continuar firme nos estudos. “Eu tenho dois filhos e creio que esta é a melhor forma de incentivá-los a estudar e conquistar uma vida digna. Quero ser o exemplo”, conta o pai orgulhoso que levou para casa livros de Ziraldo e Monteiro Lobato para seus pequenos, além de muitas histórias para contar.