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Projeto Incluir Para Transformar, em Barcarena (PA), atende 200 crianças em comunidades atingidas por desastre ambiental no município


Os irmãos Heloyse e Helliton, em foto anterior à pandemia: atividades, agora em casa, melhoram o relacionamento dentro da família. Foto: Francinea Dias/ CMDCA-Barcarena

Por Jullie Pereira, Rede Galápagos, Manaus

Em fevereiro de 2018, as comunidades de Burajuba e Bom Futuro, em Barcarena (PA), foram atingidas por uma lama vermelha vinda da bacia de rejeitos sólidos da empresa Hydro Alunorte. Casas foram inundadas e a lama, contaminada com metais tóxicos, prejudicou rios e o consumo de água no município, segundo relatório do Instituto Evandro Chagas (IEC), centro de pesquisas ligado ao Ministério da Saúde, com sede em Belém. 

Naquele mesmo ano, profissionais do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA) aplicaram um formulário com os moradores atingidos, para diagnosticar quais eram suas maiores necessidades. Entre as medidas urgentes, a população pediu que atividades educativas envolvendo a arte fossem feitas com as crianças. Foi nesse contexto que nasceu o projeto Incluir para Transformar, em que 11 profissionais, entre músicos e assistentes sociais passaram a se dedicar a 200 crianças e adolescentes, com oficinas de teclado, caratê, cavaquinho, bateria, percussão e balé, além de atendimento psicossocial. O projeto começou a ser elaborado em 2018 e entrou em execução em 2019. De forma itinerante, os professores visitavam as duas comunidades três vezes por semana para ministrar as oficinas. Com a pandemia, o ritmo mudou e as atividades também.

Antes as crianças se encontravam no mesmo local na comunidade, participando das atividades juntas. Agora os professores fazem visitas esporádicas nas casas de cada uma. Às vezes unindo apenas vizinhos próximos. O professor Jailson Santos, 29, foi um dos que se empolgou na tentativa de adaptar suas aulas de percussão à realidade das crianças dentro de casa. Ele viu a oportunidade de unir duas paixões: filmes de super-heróis e o contato com os alunos. “Sempre gostei dos filmes e incentivei os colegas a usarem fantasia pra gente visitar as crianças em suas casas. A arte é a forma que elas encontram de se conectarem, de aprenderem sobre respeito, empatia”, diz.

Educação e filmes de super-heróis são duas paixões do professor Jailton, aqui vestido de Pantera Negra para uma aula: respeito, empatia e percussão. Foto: Francinea Dias/CMDCA – Barcarena

No começo, Jailson achava que as crianças poderiam sentir medo da fantasia que escolheu, a de Pantera Negra. Como o seu personagem é popular entre as crianças, a receptividade foi boa. “Achei que eles poderiam se assustar; na primeira vez até fiquei um tempo no carro, com receio de sair, quando vieram me dizer que as crianças estavam esperando pelo Pantera Negra”, lembra. O professor acredita que o trabalho educativo e artístico é uma forma de as crianças aprenderem sobre convivência. “Percebo que elas vão aprendendo com as atividades”, explica.”Quando um deles começa a usar a bateria, o outro já sabe que precisa esperar, por exemplo. Ele sabe que tem de respeitar o colega. Nessas pequenas atitudes, eles estão aprendendo”.

Riscos e cuidados
Entre as crianças beneficiadas estão os dois filhos de Elionai de Abreu, 38, moradora da comunidade Bom Futuro. Ela os incentiva a participar desde o início do projeto, há um ano. A mais nova, Heloyse, 13, pratica balé. A atividade escolhida por seu irmão, Helliton, 14, é o caratê. “Nossa relação familiar melhorou muito depois do projeto. No começo da quarentena foi um pouco complicado, mas agora estamos fazendo atividades com nossos filhos em casa mesmo”, conta. “É ótimo. A gente acaba tendo mais tempo com eles; e isso é muito gratificante”. Ela lembra que, após o rompimento da bacia, a comunidade foi atingida pela lama e, estando em local de vulnerabilidade, os moradores perceberam logo a necessidade de dar ainda mais atenção às crianças. “Quando a bacia da Hydro se rompeu, acabou inundado quase toda a comunidade de rejeito de bauxita e soda cáustica. Isso trouxe muitos prejuízos com a morte de animais e contaminação do lençol freático”, relata Elionai. “Vivemos em uma área de risco e precisamos estar muito mais atentos para as nossas crianças, para cuidar delas e também ajudar em seu desenvolvimento e formação”.

A assistente social Francinea Dias, 33, é a responsável por fazer a iniciativa sair do campo das ideias, ir para o papel e, depois, conseguir financiamento para sua realização. Ela era presidente do CMDCA de Barcarena em 2018, quando o projeto foi elaborado. “Eu me identifico muito, iniciei meu trabalho de assistência social logo que me formei, em 2001. Fui a primeira coordenadora do abrigo de crianças afastadas da família por abandono; tenho uma história”, conta. “Por mais que queira ir para outra área, sempre sou puxada para a infância”. 

Francinea inscreveu o Incluir Para Transformar no Edital Fundos da Infância e da Adolescência (FIA), do Itaú Social, que tem periodicidade anual e em 2020 impulsiona projetos em 115 municípios, relacionados ao atendimento, diagnóstico local, monitoramento de políticas, capacitação, campanhas e mobilização social. O projeto foi contemplado por duas vezes. Além dos recursos do edital, a iniciativa conta com apoio da Secretaria Municipal de Assistência Social de Barcarena. Durante a pandemia, os recursos do projeto foram usados também para auxiliar na doação de cestas básicas, com produtos de higiene. “Foi necessária uma adaptação, pois não dava pra oferecer oficinas coletivas por causa das aglomerações”, explica Francinea. “Fizemos doações de cestas básicas e itens de higiene, entregando nas residências; depois conseguimos adaptar também as atividades lúdicas para as crianças”. Com o apoio, as famílias ganham um respiro ameno diante da situação de calamidade e as crianças recebem os professores em casa, para evitar aglomerações e pra não esquecer de ter esperança, principalmente. 

Bailarinas do Incluir Para Transformar em desfile do dia 5 de setembro de 2019, em Barcarena (PA). Foto: Semas/Divulgação

Com o apoio, as famílias ganham um respiro ameno diante da situação de calamidade e as crianças recebem os professores em casa, para evitar aglomerações e pra não esquecer de ter esperança, principalmente. 

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