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O poder do convívio na assistência social

Psicólogo aprimora o serviço de atendimento a famílias vulneráveis depois de concluir curso sobre convivência disponível no Polo


Bruno Oliveira Maia orienta moradores em situação de vulnerabilidade de uma comunidade em Santos. Foto: Arquivo pessoal

Por Alexandre Raith, Rede Galápagos, São Paulo (SP)
Depoimento de Bruno Oliveira Maia, psicólogo no Centro de Referência de Assistência Social (Cras) em Santos (SP) e cursista do Polo

Trabalho na maior comunidade construída sobre palafitas da América Latina, com um público em situação de grande vulnerabilidade, na zona noroeste da cidade de Santos. Na Vila Gilda, há 6 mil famílias, o que equivale a cerca de 22 mil pessoas, vivendo sobre a água. Na verdade, trabalho nos serviços de convivência, no Centro de Referência de Assistência Social (Cras), um órgão que gerencia programas de transferência de renda. Tenho 35 anos, nasci em São Vicente (SP), sou psicólogo, com pós-graduação em políticas públicas de assistência social e mestrado em ciências da saúde. Nas linhas a seguir falo um pouco dos desafios do meu trabalho e de como foi oportuno realizar um curso disponível no Polo, o ambiente de formação do Itaú Social.

Todo trabalho tem um acúmulo de saberes e de conhecimentos. Antes do Cras, passei pela Fundação Casa, na Praia Grande, e por uma unidade de saúde mental, em Mongaguá. Sempre como psicólogo. Entrei em muitas comunidades nesses lugares. Trabalhei com dependentes de álcool e drogas, com pessoas vulneráveis, com população em situação de rua. O serviço público é o único que esse usuário pode acessar. É o único meio de acessar políticas públicas.

No Cras, oferecemos atividades de enfrentamento das vulnerabilidades em que essas famílias vivem. O principal foco é o serviço de proteção e atendimento integrado. São pessoas à margem, não apenas social e financeiramente, mas também geograficamente. Elas moram em cima do rio, onde não tem mais terra, aonde o chão do município não chega. Auxiliar esse público é trabalhar pelo enfrentamento dessas desproteções, sejam materiais, emocionais, sociais, de saúde e de isolamento da cidade. Não é somente morar longe; é um processo de exclusão. Por isso, o Cras é pensado para estar na boca das comunidades com maior vulnerabilidade.

As maiores dificuldades dessas famílias são moradia, acesso a serviços, trabalho e renda. Muitos não têm vivência de renda fixa, precisam do benefício para ter acesso a emprego, educação e saúde com dignidade. E a assistência social é o primeiro lugar que essas pessoas procuram.

Por estarmos no serviço público mais próximo ao qual a população vulnerável tem acesso, vivenciamos situações que mexem muito com a gente. Lembro-me de uma situação bem difícil logo no começo do meu trabalho no Cras, um incêndio que ocorreu na comunidade. A pessoa não tem nada e nos diz que perdeu tudo. Na verdade, ela perdeu a memória, o pouco que tem é tudo para ela. O fogo consome tudo. Vivi cinco incêndios em três anos. É uma situação desastrosa. Sem ter para onde ir, o que fazer, o que levar. Trata-se de uma situação extrema com a qual nós, da assistência social, temos de lidar lá na linha de frente. Estamos lá para dar sentido à vida dessas pessoas. Procuramos ajudá-las a reconstruir suas histórias a partir da ótica delas, por meio do fortalecimento do vínculo, da ligação entre os moradores, e da participação política.

Por isso, um dos eixos do nosso trabalho é a convivência. Os usuários do Cras vivenciam outros modos de viver e existir, para encontrar meios de superação e outras possibilidades de vida. As pessoas trocam muita experiência vivendo em comunidade. O curso Convivência: Planejamento das Ações, que realizei pelo Polo, do Itaú Social, mostrou meios de como trabalhar o convívio estando afastado, por causa da pandemia. Esse é um dos desafios que tentamos resolver e equacionar. Tinha a necessidade de reconectar, pensar em outras realidades, buscar novos conhecimentos e ressignificar o que estamos vivendo. Fui muito feliz ao encontrar fortes narrativas no curso. Foram provocações interessantes, que ajudaram a me recolocar na obrigação de enfrentar essas dificuldades. Já conhecia as interlocutoras. Elas são uma referência no campo da assistência social e trouxeram narrativas muito reais do que essas famílias estão vivendo durante a pandemia. Nessa pandemia, trabalhar com segurança de convívio e proteção social em teletrabalho é uma tarefa muito difícil, em especial porque perdemos o olhar, o abraço, as expressões faciais e corporais do outro. Ver narrativas como as apresentadas no curso e ter contato com ótimos textos nos coloca a obrigação de persistir no apoio ao enfrentamento da desigualdade vivida por essas famílias.

Por causa do isolamento social imposto pela pandemia, perdemos o afeto. O teletrabalho me afastou da circulação e de encontrar os moradores da região. O meu trabalho precisa de olho no olho, leitura da linguagem corporal, dar um abraço, ser acolhedor, sentir a emoção. Atendemos pessoas que às vezes não têm nem celular. E o curso apresentou narrativas que me reconectaram com as famílias que são atendidas no Cras. Depois da capacitação, coloquei em prática formas diferentes de contato. Agora, consigo relembrar o olhar.

No início da pandemia, devido a um quadro de hipertensão e por ter filhos em idade escolar, eu estava trabalhando em home office. Após completar o esquema de vacinação para Covid-19, retornei ao trabalho presencial. As demandas do trabalho só aumentaram por causa da imensa maioria de usuários do serviço que passou a viver em insegurança alimentar, material e relacional. Esse aumento de demanda ainda não me permitiu uma reorganização do cotidiano onde caiba tempo para a educação permanente. Quando isso for possível, espero retomar as formações.

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