Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca
Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Boas lições

O poder da solução local

Em meio à pandemia, um banco comunitário nasceu em Florianópolis - e 825 famílias afetadas pela crise redescobriram seu direito de escolher


Comércios como o de Zilma Ferreira, localizado em comunidades em situação de vulnerabilidade de Florianópolis (SC), ganham fôlego com chegada do Banco Comunitário: moeda social. Foto: Arquivo pessoal/Zilma Ferreira

Por Gustavo Queiroz, Rede Galápagos, Curitiba

Moradora da comunidade da Serrinha, em Florianópolis, e mãe de três filhos, a dona de casa Itamara Wolff, 24, custou a acreditar quando recebeu a ligação da assistente social Deyse Fagah. A notícia era que sua família receberia doações de um recém-criado banco comunitário, modelo de organização da qual ela nunca ouvira falar. Itamara faz coro em meio à lista de trabalhadoras e trabalhadores informais que viram sua renda familiar diminuir drasticamente durante a pandemia da Covid-19. “Disseram que iríamos receber uma tal de moeda social para comprar no comércio da comunidade”, conta. “Que felicidade! Foram três meses em que pude escolher o que comprar para os meus filhos”.

Serrinha é uma das muitas comunidades brasileiras onde os problemas da informalidade habitacional se somam à baixa renda dos moradores e à dificuldade de acesso à cidade. Do alto do íngreme Morro da Cruz, Itamara e outros 3.500 moradores estavam acostumados a ouvir que as oportunidades estavam lá embaixo. Além do centro urbano que cresce acerca, ao pé do morro estão também o campus da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e uma série de comércios de grande porte onde as famílias da Serrinha faziam suas compras. “Com a moeda social, isso tem mudado” conta a pedagoga Michelle Setúbal, gestora da Casa São José, organização que mediou as doações do banco a 253 famílias no bairro. “A ideia de desenvolver o comércio local se mistura com a proposta da realização de um território mais justo”, explica. “Desde então, a escolha tem sido comprar na própria comunidade”.

Autonomia para as famílias
O Banco Comunitário Icom é uma iniciativa conduzida pelo Instituto Comunitário da Grande Florianópolis (Icom), fundado há 15 anos por seis mulheres. O foco do instituto é qualificar as organizações da sociedade civil por meio do estímulo ao investimento social e da produção e disseminação de conhecimento. Parte do trabalho é a constituição de fundos comunitários, que recebem aportes financeiros de doadores para o desenvolvimento das atividades. Foi desta experiência que surgiu o banco.

De acordo com a gerente executiva do Icom, Mariane Nunes, encontrar respostas criativas às situações de emergência não é novidade para a organização, que atuou de forma semelhante junto à Defesa Civil durante as enchentes que tomaram Santa Catarina no ano de 2008. Em março de 2020, contudo, quando as escolas públicas foram fechadas por conta da Covid-19, a equipe de nove pessoas se reuniu às pressas e não teve dúvidas. Em diálogo com os 22 doadores mensais, transformaram o já constituído Fundo de Impacto para a Justiça Social em uma linha de apoio emergencial dividida em duas etapas: a doação de recursos financeiros e a constituição do primeiro banco comunitário de Santa Catarina.

A estratégia surgiu como forma de ultrapassar a simples  — e muito bem-vinda  — distribuição de cestas básicas, já que as condições de segurança alimentar não são necessariamente asseguradas nos produtos não-perecíveis. “A proposta foi encontrar uma forma de dar autonomia às famílias, algumas que não conseguem pagar o gás, por exemplo. Além de distribuir recursos, o banco permite o desenvolvimento de toda a comunidade”, conta.

Mobilização e investimento social
“A doação é só um caminho. Ela motiva o cidadão para que se engaje nos problemas públicos”, explica Nunes. Em ações como a do banco, a articulação comunitária, a participação, o aprendizado sobre planejamento financeiro e o desenvolvimento do bairro é mais importante do que a ajuda financeira em si.

Funciona assim: o banco recebe doações em reais e, com elas, emite uma moeda social própria. As famílias são beneficiadas com três parcelas de R$ 200,00 e escolhem o que e onde vão comprar. O comércio local tem aumento de receita e passa a contratar mais e reinvestir na própria região. “Assim, o desenvolvimento começa a partir dos bairros. Em vez de ir para grandes empresas, o recurso fica nas comunidades mais vulneráveis”, conclui a diretora.

Em cinco meses, doações e investimentos que chegaram via linha de emergência somaram R$ 780 mil. Destes, R$ 521 mil foram aplicados como moeda social, beneficiando 825 famílias e 25 comércios em cinco comunidades na Grande Florianópolis. Números expressivos que, na outra ponta, garantem produtos por vezes inéditos nas casas: iogurte, canjica e bolacha recheada. Um dos doadores parceiros foi o Itaú Social, junto com outras instituições e empresas. O Banco Comunitário recebeu também aportes de pessoas físicas.

Zilma Ferreira, comerciante na Serrinha e uma das primeiras a aceitar a moeda social em seu negócio calcula que após a chegada do banco, suas vendas aumentaram em 40%. “Além de fortalecer nosso comércio, notamos que o projeto realmente beneficiou pessoas que estavam precisando deste benefício”.

Redescobrir a própria rua
Com a coordenação do Icom, o banco funciona por meio da ancoragem em organizações locais, que já atuam nos territórios afetados pela crise. No bairro onde vive Itamara, por exemplo, quem assumiu a responsabilidade foi a Casa São José. A organização da sociedade civil  atua há 17 anos com atendimento de crianças em contraturno escolar. Por lá, meninos e meninas têm acesso gratuito a aulas de educação física, informática, recreação, balé e os preferidos da filha de Itamara: circo e sapateado. Na Serrinha, a história sobre a moeda social correu rápido. Foi um alvoroço. De acordo com a gestora da organização, das 253 famílias no bairro que receberam o benefício, 130 já eram atendidas pela Casa São José.

Cartaz do Banco Comunitário em um endereço do Morro do Mocotó: pequenos empreendimentos, como a distribuição de marmitas e doces, se tornam novos pontos de referência. Foto: Divulgação/Icom

Cerca de 70% deste total tinham ao menos uma pessoa desempregada na residência. “O projeto proporcionou uma nova legitimidade da Casa com o território. Passamos a constituir uma nova rede de relações. Como gestora, foi um alívio”, conta Michelle Setúbal, ao lembrar que algumas famílias não podiam nem mesmo receber a cesta por não ter como cozinhar os alimentos.

“Para implementar o banco a gente precisava de duas coisas”, explica Mariane Nunes. “Que houvesse empreendimentos locais de alimentação e que existisse uma organização da sociedade civil dentro desta comunidade, já atuando em resposta à crise da Covid-19”.

Casa São José: Na Serrinha, Banco Comunitário impulsiona ações de organizações locais. Foto: Divulgação/Casa São José

O processo de sensibilização dos comerciantes e famílias foi delicado, e exigiu um cuidado especial de toda equipe. “ Quando viram que a comunidade estava comprando localmente, logo os comércios vinham nos pedir para participar,” diz Michelle Setúbal. Tudo é feito por aplicativo. O comerciante precisa apenas de um celular com acesso à internet e, as famílias, um CPF e uma senha. A tecnologia social para tal tipo de transação é desenvolvida pelo Banco Palmas, o primeiro banco comunitário do Brasil, que nasceu na década de 1990, em Fortaleza. Além da Casa São José, outras organizações correalizadoras atuam nos demais bairros beneficiados, são elas: Rede IGV, Cooperativa de Mulheres, Revolução dos Baldinhos, Cedep, Acam e Associação João Paulo Segundo.

Saiba mais