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O impacto positivo da natureza nas crianças com deficiência

Projeto pioneiro de inclusão de crianças cegas na natureza demonstra a importância de iniciativas desse tipo


Crianças cegas e crianças videntes participam de um dos passeios do Natureza de Criança. Foto: Isabela Abreu

Por Livia Piccolo, Rede Galápagos

Crianças precisam do contato com a natureza para que possam se desenvolver plenamente. No Brasil, a pauta tem sido trazida à tona principalmente pelo programa Criança e Natureza, do Instituto Alana. O programa tem como missão defender o direito de toda criança a viver em um meio ambiente saudável, fortalecendo o seu vínculo com a natureza. Para isso, incentiva a criação de cidades mais verdes, acessíveis e amigáveis para todas as crianças. Advoga por espaços escolares com mais ambiente natural e por justiça climática e socioambiental para todas as infâncias. Se o assunto já era urgente antes da pandemia, depois dela ganhou ainda mais relevância. 

A pesquisaO papel da natureza para a saúde das crianças no pós-pandemia”, realizada pela Rede Conhecimento Social e pelo programa Criança e Natureza, mostra que a experiência da pandemia trouxe uma preocupação maior com a conservação da natureza e sua importância para a qualidade de vida — 64% das famílias começaram a valorizar mais a conservação da natureza e 59% passaram a pensar sobre a importância de ter áreas verdes nas cidades.

Nesse cenário, um ponto importante surge: se a falta de natureza impacta negativamente as crianças, o efeito é ainda maior  naquelas que são neurodivergentes ou com algum tipo de deficiência. As famílias compostas de crianças com deficiência costumam ter mais barreiras para acessar áreas verdes e incluir a natureza no cotidiano. Quando têm a oportunidade de vivenciar o  meio natural, o resultado é notável. “O impacto positivo da natureza é ainda mais perceptível nas crianças com deficiência”, diz Isabela Abreu, idealizadora do projeto Natureza de Criança, responsável por realizar passeios ao ar livre com crianças cegas. 

A história da iniciativa
Em 2002 Isabela Abreu criou a organização da sociedade civil Grupo Terra e realizou passeios em que adultos com deficiência visual entravam em contato com a natureza. “Eu já tinha paixão por trilhas e queria que pessoas não dotadas de meus privilégios também pudessem viver experiências na natureza.” Enquanto trabalhava no mercado publicitário, Isabela desenvolvia voluntariamente os projetos no Grupo Terra. Os passeios ocorriam em lugares de muita beleza natural e costumavam durar um dia inteiro. “Para cada adulto cego tínhamos um voluntário junto, que fazia a audiodescrição”, explica Isabela. A troca entre pessoas com e sem deficiência sempre foi um aspecto importante nos passeios. O projeto cresceu, contou com o apoio da Laramara — Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual e chegou a ter 150 pessoas cegas e 150 pessoas videntes em um único passeio. “Ganhamos muita experiência e fomos melhorando cada vez mais; desmistificamos muitos preconceitos com relação à deficiência visual.” 

Isabela conta que um dos passeios mais marcantes foi ao Forte dos Andradas, no litoral de São Paulo, na região do Guarujá. “Levávamos banheiro químico, falávamos sobre reciclagem, sobre recursos naturais, trocávamos intensamente uns com os outros e com o ambiente. Pessoas se conheceram nos passeios e algumas até chegaram a se casar.”

Isabela Abreu e sua filha Clara no Parque Nacional do Itatiaia. Foto: Arquivo pessoal

O acesso ao que é concreto
Com o nascimento de sua filha, há dez anos, Isabela Abreu concebeu pela primeira vez o projeto com crianças cegas. A ideia era promover a inclusão pelo contato com a natureza, assim como foi feito com os adultos nos passeios do Grupo Terra. “O pai da minha filha é cego, e eu queria que mais crianças desde pequenas tivessem contato com a realidade da deficiência visual.” 

Segundo Isabela, para a criança com deficiência visual a experiência na natureza é muito importante por causa do acesso ao que é concreto. A criança cega conhece o mundo pelo tato e pela audição. Ela não consegue tangibilizar aquilo que escuta sobre a natureza na televisão, por exemplo. A criança que enxerga pode não ter ido para a Muralha da China, mas ela vê a imagem e entende. “A criança cega só vai entender o que é a Muralha da China no dia em que você der na mão dela alguma referência concreta do que é um muro de pedra tão grande que um pequeno pedaço dele é do tamanho dos dez quarteirões que ela anda”, explica Isabela.

Crianças tocam uma pinha durante um dos passeios. Foto: Isabela Abreu

Levando as crianças cegas para a natureza
O projeto demorou para decolar e Isabela Abreu acabou chamando as amigas da filha para brincarem toda quarta-feira à tarde, no Parque Alfredo Volpi, em São Paulo. “Fizemos isso dos três aos sete anos dela; era o programa Brincando no Bosque.” Ela também conta que nessa época o livro de Richard Louv A última criança na natureza: resgatando nossas crianças do transtorno do déficit de natureza ainda não tinha sido publicado no Brasil. “Não se falava tanto do tema como hoje; o assunto ainda estava ganhando força.”

A ideia de levar crianças cegas para a natureza ficou martelando na cabeça de Isabela. “Decidi que precisava falar com as mães das crianças e fui à Associação Fernanda Bianchini, que dá aulas de balé para crianças cegas”, conta. Com o laptop debaixo do braço, Isabela mostrou o projeto Brincando no Bosque para as mães. “Elas ficaram animadas com a ideia, mas precisaria ser nos finais de semana.” 

O primeiro passeio finalmente aconteceu: cinco mães de crianças cegas levaram seus filhos para a praia da Riviera de São Lourenço, em São Paulo. “Assim como nos passeios do Grupo Terra, também tínhamos voluntários que nos acompanharam; fizemos um piquenique e todo mundo adorou”, conta Isabela. Cada um levou um prato de comida e os custos do transporte foram divididos.

A rede foi crescendo e os passeios também. “Uma mãe indicava outra mãe e fizemos um passeio bem maior em um sítio de Ibiúna, em São Paulo.” Os gastos com combustível eram divididos por todos e, no sítio, as crianças cegas encantaram-se com o lago e o passeio de caiaque. “Crianças com deficiência raramente têm acesso a esse tipo de coisa: remar um caiaque”, destaca Isabela. “Percebi que essa experiência com a água era algo muito rico e que precisávamos repeti-la.”  

Duda, deficiente visual, é acompanhada por Laura, vidente, em um dos passeios. Foto: Isabela Abreu

A experiência no Legado das Águas
Isabela Abreu realizou mais um passeio ao Legado das Águas, uma reserva da Votorantim que possui 25 caiaques. “Eles tinham um jardim sensorial em braille que nunca tinha sido usado! A Votorantim gostou do projeto e apoiou a primeira edição.” Nos caiaques cabiam 25 duplas e o passeio, realizado em novembro de 2019, contou com 50 pessoas, “sempre com a premissa de um para um, uma pessoa cega e uma pessoa vidente”. Nessa época Isabela já realizava, também, viagens com crianças para o Maranhão e a Amazônia e conta que “era hora de organizar todas essas iniciativas, criações e projetos que estavam espalhados. Queria que tudo tivesse um nome só; então surgiu oficialmente o Natureza de Criança”. 

Em 2022 o Natureza de Criança levará novamente diversas crianças cegas para o Legado das Águas e, desta vez, com o apoio da Votorantim por meio da Lei de Incentivo à Cultura e ao Esporte. 

Dupla remando no caiaque no Legado das Águas. Foto: Isabela Abreu

Empenho da sociedade
Além do inspirador livro escrito por Richard Louv, diversos outros estudos apontam a importância da natureza na infância. A pesquisa “O papel da natureza para a saúde das crianças no pós-pandemia” mostra que nove em cada dez adultos destacaram felicidade e maior disposição física e mental como efeitos positivos que o contato com a natureza traz para as crianças. 

E, por isso mesmo, a sociedade precisa se empenhar para oferecer a natureza à criança com deficiência. “Algumas famílias estão preocupadas em desenvolver o cognitivo e o motor, as crianças frequentam o balé, o teatro, a fonoaudióloga, a terapeuta ocupacional, e a natureza está no final da lista”, diz Isabela Abreu. Muitas vezes os parques e praças são distantes da residência e, para as famílias com crianças com deficiência, é difícil pegar o transporte público e se deslocar até a natureza. 

Projetos como o de Isabela Abreu mostram como é grande o impacto de iniciativas visando o contato das crianças com deficiência com a natureza. “Estávamos tomando um banho de rio e um menino me perguntou ‘o que tem ali na frente?’. Estávamos com a água na cintura, vestindo colete. Comecei a descrever a cena, falei da montanha e do fundo da represa. ‘Mas o que é fundo?’, ele me perguntou. A mãe dele não sabe nadar, ele não sabe nadar, talvez ele nunca tenha entrado em uma piscina. ‘Fundo é quando seu pé descola do chão e o chão fica distante do pé. E, como você está de colete, você vai flutuar, não vai afundar.’ Ele perguntou se podia ir para o fundo; respondi que sim. E ele foi. Quando o pé dele descolou, ele gritava de alegria, de maravilhamento.” 

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