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O desafio de reaprender para ensinar

Cerca de 1.500 educadores da rede de Suzano foram capacitados para a Plataforma do Saber, que mescla atividades on-line e material impresso


A professora Michelle Nogueira, da E.M.Engenheiro Isaías Martinelli Gama: para ela, o ano letivo de 2021 será ainda mais desafiador. Foto: arquivo pessoal

Por Dandara Silva, Rede Galápagos, São Paulo

Com o célebre conto intitulado Fátima, a fiandeira, da obra O Violino Cigano e Outros Contos de Mulheres Sábias, de Regina Machado, o secretário de educação de Suzano, Leandro Bassini, gravou um vídeo endereçado aos cerca de 1.500 educadores do município para apresentar a ferramenta digital “Plataforma do Saber”. A história da cultura sufi remete aos percalços da protagonista Fátima para encontrar a felicidade. Ela teve de aprender a reaprender muitas vezes diversos ofícios não apenas para sobreviver, mas sair mais forte das experiências que em algum momento lhe pareceram desgraças. O paralelo do secretário refere-se ao enorme desafio de educar diante de um contexto jamais vivido antes, o da pandemia. “Estamos em um momento de ruptura, de reaprender como fazer, recompondo com a experiência que já temos para criar uma nova linguagem para chegar e mobilizar os alunos”, diz ele.

Em maio, o município disponibilizou a ferramenta digital para a comunidade escolar de 27.000 alunos, com atividades formatadas para serem desenvolvidas em casa. O conteúdo didático envolve exercícios, filmes, desenhos, contação de histórias, jogos, baú de recordações, brincadeiras, pinturas, entre outras soluções, dependendo da faixa etária da criança. “Embora o uso de celulares e computadores faça parte do cotidiano, na questão do ensino, sobretudo na educação básica, muitos professores se viram sem chão, pois além da presença física dos alunos, eles foram repentinamente privados das ferramentas e instrumentos aos quais estavam habituados: giz, lousa, livros didáticos e a possibilidade de dirimir as dúvidas e dificuldades de seus alunos in loco”, afirma Israel da Silva Lyrio Junior, 44 anos, coordenador pedagógico da Escola Municipal Professora Neyde Pião Vidal. 

Por esta razão, os professores foram os primeiros a receber formação para melhorar o aproveitamento das rotinas virtuais. Tiveram a consultoria exclusiva de profissionais do Itaú Social, que pensaram em conteúdos específicos para a necessidade e realidade de Suzano, município de 260 mil habitantes. O material foi disponibilizado no Polo, uma plataforma de formação para educadores. A ferramenta tem sido uma aliada importante de suporte para as administrações municipais, com conteúdos para responder de forma rápida aos efeitos negativos da crise instaurada pelo coronavírus. No eixo de gestão da educação, por exemplo, dirigentes municipais, equipes dos arranjos de colaboração intermunicipal e dirigentes estaduais encontram materiais e instrumentos para apoiar suas redes e realizar uma gestão da educação eficiente nos temas mais urgentes.

Enquanto os educadores eram treinados e contribuíam com ideias de como atuar, a Secretaria Municipal de Educação realizou uma pesquisa com as famílias dos estudantes da educação infantil e ensino fundamental. Concluíram que 40% das famílias não têm acesso à internet. A saída foi apostar numa educação híbrida, que mescla atividades presenciais e remotas. Os pais puderam escolher a melhor forma de receber o conteúdo: 40% optaram pelo uso da plataforma digital e 60% escolheram o material impresso, já que muitos não possuem equipamentos em casa ou têm dificuldade de compreensão com as ferramentas digitais.

O incentivo à leitura com a doação de cerca de 30 000 livros por parceiros: estreitar o vínculo entre famílias, escolas e crianças como Alana. Foto: Bruno Gomes Cabra

“A equipe pedagógica da prefeitura produziu dois tipos de material, específicos por faixa etária”, conta Rafaela Rodrigues, supervisora de projetos especiais da Secretaria Municipal de Educação. Os alunos também receberam 16 500 kits com dois livros cada do programa Leia para Uma Criança, do Itaú Social, além de livros de outras instituições. 

“Este processo trouxe para todos o ‘sair fora da casinha’, o desconforto de tentar algo diferente. Estava muito cômodo para os profissionais da educação repetir processos antigos com roupagem nova. Agora, fomos desafiados a usar ferramentas que tínhamos no discurso, mas não tínhamos na prática”, admite o secretário municipal de Educação, Leandro Bassini. “Além disso, foi necessário repensar toda a linguagem do material escrito. E com isso conseguimos retomar a importância da literatura. Disponibilizar livros para as crianças lerem com as famílias foi outro lado positivo deste contexto”, completa. 

No dia 16 de julho, a Secretaria de Educação de Suzano lançou um novo material didático voltado aos alunos de quatro a seis anos de idade da rede municipal de ensino, produzido pelo Instituto Avisa Lá, com apoio do Itaú Social. O material será um conteúdo complementar ao que já está sendo desenvolvido para os estudantes e estarão disponíveis exclusivamente na Plataforma do Saber. Os alunos que não têm acesso à internet receberam o material impresso. Ao todo, 5,5 mil cards impressos foram encaminhados às crianças com o apoio do  Itaú Social, assim como todo o desenvolvimento do material. “O objetivo do trabalho é criar uma sinergia nesta fase de transição dos alunos dos anos finais da educação infantil para o ensino fundamental para que possam sentir o desenvolvimento da sua aprendizagem de uma forma mais fluida. E temos feito avanços importantes neste sentido com a equipe de Suzano, principalmente no momento tão desafiador em que estamos vivendo”, destaca Tatiana Bello, gerente de Implementação do Itaú Social. Os cards são o resultado de um trabalho conjunto. Educadores de dezessete escolas participantes do Programa Melhoria da Educação participaram da construção desse conteúdo. “O novo material integra a ampliação do nosso projeto que visa estreitar o vínculo entre famílias, crianças e escolas, com linguagens acessíveis e atrativas e que garantam o direito de aprendizagem”, explica Leandro Bassini.

Cards feitos com educadores de dezessete escolas usam linguagem acessível e leve para abordar três temas: “Identidades e Nome Próprio”, “Brincar, Ler e Escrever” e “Apropriações Literárias”. Foto Irineu Júnior/Secop Suzano

Apesar do esforço e investimento de Suzano na educação e do apoio de diversos parceiros, é certo que a escola não substitui a casa e a casa não substitui a escola. O desafio é constante. “Sugerimos atividades que os pais irão desenvolver com as crianças. Infelizmente, muitos pais não têm tempo de sentar com seus filhos para ensiná-los, outros demonstram muita dificuldade para assim fazê-lo. E só mandam para nós o resultado final, não mandam os erros do processo, o que inviabiliza a avaliação, por exemplo. Não dá para saber o que o aluno aprendeu e o que ainda está em desenvolvimento”, completa Michelle Nunes Durães Nogueira, 33 anos, professora de educação infantil e ensino fundamental há sete anos na E.M. Engenheiro Isaías Martinelli Gama. Ela acredita que 2021 será tão desafiador quanto este ano letivo. A receita para uma eficiente estratégia para a qualidade da educação? A tecnologia estar em sinergia com a intencionalidade, inferência e olhar atento do professor.