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O desafio da flexibilização curricular

Diante da nova realidade que a pandemia trouxe para as secretarias de Educação, os gestores agora contam com ferramentas adicionais para seu planejamento pedagógico


A Coordenadora Pedagógica Camila Fattori, da Comunidade Educativa CE Cedac: “A flexibilização tem que dialogar com a pandemia e com suas questões”. Foto: Arquivo pessoal

Por Maria Ligia Pagenotto, Rede Galápagos, São Paulo

Flexibilização dos currículos escolares é um assunto relevante dentro das estratégias educacionais discutidas por gestores e educadores de todo o país. O tema ganhou urgência e novos contornos no contexto da pandemia do coronavírus, no ambiente das aulas remotas ou mesmo no sistema híbrido. Na avaliação de Tatiana Bello, gerente de implementação do Itaú Social, esse é o grande desafio dos gestores neste momento. Daí a atenção e o cuidado para oferecer formações e orientações sobre esse tema aos profissionais de educação. A flexibilização curricular e acadêmica é definida como uma “revisão do currículo proposto e seleção dos objetivos ou marcos de aprendizagem essenciais previstos para o calendário escolar de 2020-2021”, de acordo com parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE).  

“A pandemia trouxe uma realidade muito nova e diferente para as secretarias de Educação, que precisaram fechar as escolas com a oferta de atividades presenciais”, diz Tatiana. “Isso gerou uma mudança substancial no ensino, além de trazer à tona inseguranças sobre como proceder no novo modelo, o desafio de lidar com as desigualdades sociais, a dificuldade de acesso a equipamentos, as mudanças para a família e a criança”, observa. Ela ressalta que a abordagem das formações oferecidas pelo Polo, ambiente de formação do Itaú Social, aponta para a necessidade de os gestores contextualizarem a aprendizagem dos alunos, partindo para um planejamento pedagógico orientado para enfrentar as possíveis defasagens que estão surgindo.

Assim, já entrando no segundo semestre de 2021, é urgente que a temática da flexibilização curricular ganhe força. Feita em caráter emergencial, essa flexibilização está relacionada à necessidade de priorizar objetivos de aprendizagem e desenvolvimento e adaptar variáveis das práticas educativas — considerando novos espaços, tempos, agrupamentos para as aprendizagens, com foco na recuperação de aprendizagens e continuidade das trajetórias escolares dos estudantes. 

Tatiana enfatiza a necessidade de as secretarias se dedicarem com afinco a essa questão, considerando uma avaliação diagnóstica da aprendizagem dos alunos e, a partir disso, se aprofundarem na priorização, do ponto de vista do currículo, para garantir aprendizagens essenciais.

“Temos programas voltados para atuar com o poder público e, dentre estes, o percurso formativo intitulado Educação na Pandemia”, destaca. Essas ações foram instituídas para apoiar secretarias de Educação no contexto atual, e o percurso da flexibilização curricular se insere aí. 

Priorizar para flexibilizar
Os Mapas de Foco alinhados à Base Nacional Comum Curricular (BNCC), apresentados pelo Itaú Social no ano passado, são recursos para a implementação da flexibilização curricular. A função dos mapas é orientar gestores e professores nesse percurso de formação e aprendizagem. A partir deles foram produzidos guias para trabalhar com essas ferramentas, nas versões Mapas de Foco para as Redes e Mapas de Foco para as Escolas.

“Os Mapas de Foco e seus guias servem exatamente para a implementação da flexibilização curricular”, afirma Tatiana. A ferramenta ajuda a identificar as aprendizagens e habilidades prioritárias para o avanço dos estudantes em um cenário de flexibilização curricular. Vale lembrar que a priorização é uma parte da flexibilização — é justamente quando se olha para o currículo e se escolhe o que vai ser selecionado, trabalhado. A priorização está dentro de um contexto maior, que é a flexibilização. 

Essa priorização é feita com base em um conjunto de critérios. Em matemática e em língua portuguesa, por exemplo, um dos critérios é  priorizar as competências mais básicas e essenciais dos primeiros anos iniciais do ensino fundamental, como alfabetização, resolução de problemas e competência leitora. 

Diálogo com os professores
Em contato direto com gestores nas orientações sobre flexibilização curricular, a Coordenadora Pedagógica Camila Fattori, da Comunidade Educativa CE Cedac, organização parceira do Itaú Social, aponta que há algumas dificuldades de compreensão do conceito, embora todos reconheçam a sua necessidade. Mas, por causa dos desafios, as organizações sociais e as secretarias estaduais, que dão maior apoio aos gestores, têm grande importância no processo de implantação da flexibilização, no sentido de orientar corretamente sua aplicação. 

Camila atua com gestores de educação infantil e do fundamental, em redes municipais, e no momento trabalha discutindo alguns pontos do tema da flexibilização com a comunidade de gestores em webinários e grupos de WhatsApp. E observa que, aos poucos, eles têm compreendido que a seleção dos currículos não pode ser feita de cima para baixo. “As secretarias, com quem falamos, precisam fazer um planejamento que envolva  professores e diretores, senão o documento de flexibilização não vai avançar, será apenas um papel”, alerta. No momento de priorizar as aprendizagens, um critério muito importante que deve ser utilizado é o diálogo com os professores. 

Análise e diagnóstico
Cada território tem as suas especificidades, e o currículo, diz Camila, precisa levar em conta essa realidade local. Portanto, a decisão do que priorizar deve ser coletiva e diferente de um município para o outro e, dentro de uma mesma rede municipal, deve respeitar as diferenças entre as escolas. Após a seleção das prioridades, é preciso analisar os conhecimentos prévios necessários para que as habilidades e competências sejam aprendidas. Ou seja, é necessário um diagnóstico mais específico sobre esses pré-requisitos. 

De alguma maneira, é preciso ter uma avaliação dos conhecimentos prévios dos estudantes — isso ajuda a orientar melhor a decisão para o que pode ou deve ser priorizado. Esse diagnóstico pressupõe também uma análise pedagógica sobre o ensino remoto. São muitas as questões que devem ser postas aí. Camila cita algumas:

  • Os professores conseguiram sistematizar as atividades com esse modelo de aula? 
  • Que objetivos de aprendizagem e desenvolvimento estavam ali? 
  • O que foi priorizado? 
  • Quais atividades foram enviadas? 
  • Quais habilidades foram trabalhadas? 
  • Por que foram escolhidas? 
  • Os estudantes tiveram acesso, conseguiram aprender?

Camila Fattori lembra que, de alguma forma, quando o professor faz as escolhas do que está ofertando aos alunos já está priorizando algumas habilidades e objetivos de desenvolvimento.

Do que foi oferecido, será que os estudantes conseguiram participar, ter acesso, aprender? A priorização tem de reverter em aprendizado dos alunos, e a análise pedagógica é para avaliar como isso se deu. “Essa sistematização do aprendizado é muito importante para a flexibilização curricular”, explica. A priorização das competências e habilidades do currículo só vai fazer sentido se resultar em um planejamento pedagógico de qualidade para essa recuperação da aprendizagem. “Isso contribui para ampliar a compreensão das equipes envolvidas diante desse processo.” 

Novos espaços e novos tempos para as aprendizagens


Para apoiar gestores, equipes e comunidades escolares, o Itaú Social, em parceria com a Comunidade Educativa CE Cedac, realizou um webinário sobre o tema Flexibilização Curricular. O encontro também apresentou o curso gratuito Flexibilização Curricular para Dirigentes Municipais, disponível na área temática Educação na Pandemia, dentro do ambiente de formação na plataforma Polo. Veja alguns pontos destacados pelos participantes.

Luiz Miguel Garcia, Roberta Panico e Sonia Dias no Ciclo de Debates: flexibilização curricular no centro da discussão. Imagem: YouTube Itaú Social

“Falar de flexibilização curricular é falar de uma ação pedagógica honesta e da busca de ferramentas para fazer educação de verdade — assumindo o que é possível fazer, compreendendo o que está ficando por fazer e planejando como retomar essas questões.”

“Quem diz que não avançamos nada nesse período de pandemia não conhece nada de educação. Nós nunca trabalhamos tanto, nunca buscamos tanto. Temos consciência de muitas falhas, mas passamos a dar um real sentido para a Escola, com maiúscula. A escola não está só intramuros. A criança aprende nos novos espaços de formação que surgiram. É preciso levar isso adiante, para além desse período, que a gente utilize todos os espaços físicos, da escola, do entorno, e os espaços digitais criados.”

Luiz Miguel Garcia, presidente da Undime — União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação

“O principal desafio das equipes de secretarias e escolas está em propor para as redes um planejamento colaborativo para discutir a flexibilização curricular. Temos orientado que esse planejamento esteja centrado na escola, porque é lá que o currículo acontece.”

“Esse é um processo de desafios e de muitas aprendizagens. Aprendemos muita coisa, como a importância da maior participação das famílias na escola, o uso da tecnologia para ensino e aprendizagem e formação da equipe e a articulação com o trabalho intersetorial (saúde e assistência social).”

Roberta Panico, diretora executiva da Comunidade Educativa CE Cedac

“O tema da flexibilização curricular não se esgota, é uma conversa que se estende por muito tempo e é importante que esteja sempre na pauta de gestores, professores e de todos nós.”

“Entendemos que é no diálogo entre estados e municípios, envolvendo toda a comunidade escolar, que será possível endereçar soluções para os desafios impostos pela pandemia. Não existem fórmulas mágicas, mas alguns caminhos possíveis.”

Sonia Dias, coordenadora de implementação do Itaú Social

“Os Mapas de Foco nasceram para apoiar as redes no momento da priorização curricular. A partir da BNCC, os mapas fazem uma releitura das habilidades da base para o ensino fundamental. Olhamos para cada ano e selecionamos o que é essencial para evitar um déficit muito grande de aprendizagem.”

“Na Base tudo é essencial, mas, numa situação como a da pandemia, algumas coisas vão ter de ser priorizadas. O que o aluno vai aprender agora deve apoiar aprendizagens futuras. Olhamos para trás um pouco também, para identificarmos o que esse estudante deveria ter aprendido no ano anterior para adquirir essa habilidade essencial.”

Katia Smole, coordenadora executiva do Instituto Reúna

Link da transmissão: Ciclo de Debates | Flexibilização Curricular

Ponte entre cultura e sociedade
As redes também precisam pensar como esses processos ocorreram e como as equipes das secretarias de Educação se apropriaram deles.  “Não basta só fazer a priorização, mas pensar no que ela tem de implicações na minha rede, que condições preciso oferecer para que de fato a priorização aconteça. Quais são as escolas ou educadores que precisam de mais apoio?”, exemplifica a educadora Camila, do CE Cedac.

Com a pandemia, surgiram novos tempos e novos espaços de aprendizagem, e isso exige uma reorganização das práticas pedagógicas, das secretarias de Educação, de diretores e professores.

Nesse cenário, é preciso reavaliar a expectativa de que todos vão aprender ao mesmo tempo. É preciso olhar para as adversidades e diversidades. E a flexibilização, inserida nesse contexto, tem que levar em conta o momento. “O currículo é uma ponte entre a cultura e a sociedade, um guia para o professor na organização de suas atividades. Por isso a flexibilização tem que dialogar com a pandemia e com suas questões”, diz Camila. 

Diante dos muitos impactos da pandemia na educação, Camila avalia que muitas das atividades que vêm sendo feitas situam-se mais na esfera da redução de danos. Mas, mesmo em meio aos desafios, ela enxerga algumas oportunidades interessantes. Acredita que é o momento de os gestores olharem mais atentamente para os currículos, se apropriando deles e refletindo sobre o que interessa mais para a sua comunidade, de uma forma individualizada.

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