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“Nunca tivemos a pretensão de ensinar pelo rádio, mas mostrar que os alunos não estão sozinhos”

Durante a pandemia o professor Fernando Moraes criou o programa de rádio Nas Ondas da Educação, que leva conteúdo aos alunos sem acesso a plataformas digitais


Fernando Moraes

Professor de história da Escola Branca de Castro do Canto e Mello, na Vila Alpina, em São Paulo

Moraes, o criador do programa diário, com as coordenadoras Tatiane e Luana: foco no desenvolvimento pleno do aluno. Foto: Marco Antônio/Rádio Everest

Por Alecsandra Zapparoli, da Rede Galápagos, São Paulo

O professor Fernando Moraes não tem uma trajetória comum. Trabalhou como repórter em alguns jornais impressos do interior de São Paulo até o final dos anos 1990. Entre psicologia e jornalismo, abraçou a licenciatura em história, pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/Assis). Ingressou no serviço público em 2006, ao mesmo tempo em que trabalhava como voluntário em abrigos, dando aulas de reforço. Não demorou e também passou a trabalhar na rede privada, onde diz ter aprendido muito. Assumiu a coordenação da escola Branca de Castro em 2018 com a ideia de partilhar a experiência adquirida em todos os lugares em que se dispôs a ensinar. Virou coordenador e temeu que uma função mais burocrática comprometesse a sua visão de mundo e das coisas. Acredita que conseguiu continuar olhando para as pessoas mais do que para os números, valorizar um olhar mais humano e acolher. A empreitada que inventou durante a pandemia – um programa diário na rádio comunitária Everest FM para levar conteúdo aos alunos que não têm acesso às plataformas digitais – mostra que o foco dele continua sendo o outro. E não por acaso seu apelido entre os colegas é “Humanóide”.

NNotícias da Educação – Quem é Fernando Moraes?

FFernando Moraes – Sou uma pessoa tímida, de 43 anos, que não gosta de aparecer ou ser o centro das atenções. Falo baixo, raramente mudo o tom da voz. Na sala de aula ocorre o mesmo, mas tento me desconstruir, mostro o quanto não caibo no estereótipo do professor que tem todas as respostas, que eu sou atrapalhado, tenho frustrações e sigo em frente… O que seria algo como “Senta que eu vou te ensinar”, se torna um “Ei, vamos conversar?” Danço, canto, e quando percebemos… estamos falando sobre aprender.

NComo surgiu a ideia do programa Nas Ondas da Educação?

FFoi um complemento natural de uma outra ação de apoio aos alunos imigrantes da escola. Muitos não têm nem TV, muito menos computador. A pouca participação dos alunos nas plataformas digitais não deixava mais dúvida de que tínhamos um sério problema de acessibilidade a esses instrumentos. O passo seguinte foi convidar gente que tinha uma visão parecida acerca do papel da escola e sobre o aprender. Foi nesse momento que as professoras Luana Resier e Tatiane Gusmão aderiram ao projeto e, a partir daí, ele acabou ganhando corpo e alma. Fizemos um trabalho de formiguinha, produzimos, gravamos e editamos material e, durante um mês, colocamos o programa no ar, um teste. O trabalho chamou atenção das escolas e a adesão começou a ser muito maior do que imaginávamos: escolas municipais, escolas de outras diretorias de ensino, a ETEC Luiz Pires Barbosa, da cidade de Cândido Mota, a quase 500 quilômetros de distância da capital, a escola Sérgio Leça Teixeira, de Franca, professores que não estavam nem atrelados diretamente às escolas mas contribuíram com conteúdos e sugestões. Tivemos de conversar com mais rádios comunitárias para retransmitir o programa. Isto nunca foi sequer cogitado quando iniciamos. Vamos buscar mais escolas. A união dessas pessoas em torno da ideia é fundamental para o sucesso do projeto.

NPor que rádio?

FDe todos os recursos disponíveis, o rádio é o mais acessível – você consegue um rádio pequeno, simples, por R$ 20,00. E é um artigo que possui uma carga afetiva para quem tem mais de 40 anos, então não seria surpresa se algumas famílias tivessem um ou mais rádios em casa, o que ajuda nas doações. Mais fácil doar um rádio do que um computador. Arrecadamos e redistribuímos aparelhos para as famílias que não tinham nenhum canal de comunicação e interação com a escola.

“Tão preocupante quanto o isolamento social que estamos vivendo é o isolamento emocional a que muitas crianças estão sendo submetidas”

NQual foi a maior dificuldade para levar conteúdo educativo para a rádio?

FNunca tivemos a pretensão de ensinar pelo rádio. A ideia era falar diretamente com o aluno. Foi importante ouvir das escolas quais eram as demandas. A minha maior preocupação, num primeiro momento, não é o quanto a criança sabe de locução adverbial, mas como está a cabeça daquele aluno que ia para a escola pensando primeiro na merenda. E aquela que no início do ano se cortava e tinha na escola, talvez, o único lugar onde conseguia sorrir e brincar? Primeiro levamos a mensagem de que eles não estavam sozinhos, passamos a ouvir psicólogos no programa, conversar diretamente com eles. Vez ou outra eu relembrava um tópico da aula de história, aquela que todos pareceram entender, para dar um afago na autoestima. Tão preocupante quanto o isolamento social que estamos vivendo é o isolamento emocional a que muitas crianças estão sendo submetidas. O distanciamento afetou uma relação de confiança que vinha sendo construída há muito tempo entre este aluno e a escola. Não é um problema que deva ser subestimado.

NA educação é prioridade na realidade destas famílias?

FA educação talvez seja o único caminho para quebrar um círculo vicioso que parece não ter fim. Mas não é prioridade para todos e eu não os julgo por isso. Eu os entendo. No ápice do meu privilégio talvez seja muito cômodo apontar a falta de interesse do aluno e a sua preguiça como os vilões de um cenário tão complicado como esse. Mas eu nunca precisei dizer para meu filho que hoje ele não vai comer. Não posso sequer mensurar essa dor. Quando isso acontece, não é questão de prioridade, mas de sobrevivência.

NVocê passou a leiloar parte da sua biblioteca pessoal para comprar cestas básicas. Como se deu isso?

FO atual cenário escancarou não só um problema de saúde pública, mas deixou em carne viva as desigualdades sociais. Pessoas que não tinham mantimentos ou que estavam prestes a serem despejadas. Não parei pra pensar. Foi intuitivo. E os livros acabaram por me servir duas vezes, quando os li e quando eles ajudaram alguém a sair momentaneamente do sufoco. Eu rifo livros a R$ 10,00 o número e muita gente se dispõe a ajudar. Com um livro consigo cerca de R$ 1 000,00, o que dá para umas dez cestas básicas e ajudar a pagar parte de alguns aluguéis.

“A  educação com uma abordagem mais humana e acolhedora precisa, definitivamente, ser uma política de Estado”

NQual é o formato do programa? Como aferir o engajamento dos alunos?

FAgora o formato já é pensado com base nas respostas e na receptividade que tivemos no primeiro mês no ar. Há quadros que tratam do mundo do trabalho, do aspecto socioemocional, sempre recebendo os profissionais da área, professores são convidados a pincelar a conversa com conteúdos do currículo. Eu produzo um quadro onde professores e alunos estrangeiros falam sobre lembranças afetivas relacionadas à escola e aos conteúdos. E há um espaço em que conversamos com pessoas que exercem uma influência no cenário cultural. Ouvimos, por exemplo, Alberto Benett, chargista da Folha de S.Paulo, e a impressão que tivemos era que estávamos conversando com um de nossos alunos. Trazer pessoas que normalmente não seriam acessíveis para falar diretamente com estes jovens, eu acho que tem um simbolismo muito, muito forte. Outro episódio legal: uma professora, a Simone Conconi, da EMEI Pe Manoel da Nóbrega, de Itaquera, aceitou participar e sugeriu ler livros infantis — uma prática que ela já fazia de forma espontânea em suas redes sociais. Estreamos com o livro “Espera, Moleque”, da Luciene Tognetta, e a própria autora fez questão de autorizar. As leituras serão compartilhadas pelo nosso canal do Youtube com intérprete de Libras. E assim, vamos aumentando o alcance do projeto. Os alunos também nos pedem para gravar depoimentos sobre como eles estão passando. Vou até a casa de muitos. Além de terem espaço para falar sobre o que estão pensando a respeito deste período, mostram o que estão fazendo, o que pode inspirar tantos outros. A resposta dos alunos, pais e professores tem sido surpreendente. Não medimos pelo número de curtidas, o que não faria sentido porque buscamos atingir alunos que não tem acesso a essas plataformas, mas eles nos procuram para cobrar participação e sugerir pautas.

NVocê tem um filho de 11 anos e dá aulas para crianças na mesma idade. O quanto a desigualdade social influencia na educação?

FSurreal! Passo na sala às 7h30 e meu filho está conversando em videoaula com a professora em inglês. É absolutamente desconfortável. Mas é isso que não me deixa ficar numa zona de conforto. Não está certo. E eu não estou fazendo caridade, repito isso sempre. É direito de todo aluno ter uma educação de qualidade, e o quadro que se apresenta hoje é este: não basta oferecer educação de qualidade, mas propiciar aos alunos condições, ainda que mínimas, de usufruí-la.

NSe tivesse a caneta do ministro da Educação nas mãos, começaria por onde?

FAh, eu não acho que seja capacitado a me colocar no papel de ministro. Torço para um país onde educação de qualidade seja acessível para todos. A  educação com uma abordagem mais humana e acolhedora precisa, definitivamente, ser uma política de Estado.

NO quanto a sua formação influenciou no homem que é hoje?

FEu não tinha amigos, apenas na época de provas, isso na infância e na adolescência. Falava sozinho, tropeçava a cada dez passos, apanhava na escola, sempre fui retraído até dentro de casa. Quando estava no pátio ou andava de ônibus com minha mãe eu não sabia ao certo o que acontecia comigo, mas sempre me procurava nas pessoas que eu não conhecia. “Seria assim se eu tivesse amigos”, “seria assim se eu não apanhasse na escola”. Acho que desde pequeno já tinha decorado as minhas dores e medos e isso me ajudou a reconhecer isso nos outros e a fazer pelo outro o que eu gostaria que tivessem feito por mim.

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