Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca
Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Que tal você fazer também?

Novos professores para uma nova realidade

Professora da rede municipal em Nova Laranjeiras (PR) fala sobre a importância das formações para docentes durante a pandemia e relata a experiência de ter feito um curso do Polo


Miriam Thomé Pereira Pavlak, que fez o curso Convivência: impactos do isolamento nas redes de proteção: “Muitas crianças sofreram agressões durante o isolamento nas mais variadas esferas”. Foto: Arquivo pessoal

Por Ana Luísa Pereira, Rede Galápagos, Curitiba (PR). Jornalista, mãe de três filhos e pesquisadora pela luta antirracista na comunicação

Depoimento de Miriam Thomé Pereira Pavlak, pedagoga, especialista em educação escolar indígena, com cursos nas áreas de tradução e interpretação de Libras e educação inclusiva. Trabalhou por quatro anos na aldeia Rio das Cobras, das etnias kaingangue e guarani, localizada na região de Laranjeiras do Sul (PR). É professora do 5º ano da escola da Escola Municipal Osvaldino da Silva, em Nova Laranjeiras (PR) – e cursista do Polo.

Por muito tempo fui daquelas professoras que só estudavam porque era obrigatório. Minha história, assim como a de muitas mulheres, esteve entrelaçada com casamento, filhos, e por 16 anos fiquei sem estudar, me dedicando à família. Quando meu filho mais novo cresceu, quis voltar ao mercado de trabalho. Segui os passos da minha mãe e procurei a educação porque me pareceu que era o caminho mais fácil. Com essa ideia de comodidade, acabei me tornando uma professora feliz numa zona de conforto. No entanto, de um tempo pra cá, principalmente durante a pandemia, comecei a perceber a importância de a gente se atualizar. Vivemos na educação um momento muito difícil para todos. No meu ponto de vista, pode ser um tempo irrecuperável para muitas crianças. No município em que eu atuo, com pouco mais de 11 mil habitantes, trabalho com uma turma de 18 alunos, na maioria filhos de trabalhadores em fazendas, chácaras. Muitos pais não sabem realizar uma conta simples, o que significa que não só a criança não está acompanhando os conteúdos através das atividades que enviamos, como está involuindo em alguns aspectos. Isso é muito triste. Agora, com o retorno das aulas no formato híbrido, também não sabemos como será a aprendizagem dos alunos e como será o nosso trabalho em sala de aula. Isso tudo fez com que eu começasse a me preocupar ainda mais com a qualidade daquilo que posso ensinar às crianças. Afinal, o meu papel também é essencial nesse retorno.

Assim, mudei meu olhar sobre a formação. Comecei a me interessar por cursos on-line, que são o ideal para mim. Na cidade de Laranjeiras do Sul, onde moro, não temos muitas instituições oferecendo cursos, somente aqueles ofertados anualmente pela secretaria.  Pra mim fez toda a diferença a possibilidade de ver os vídeos, ouvir os áudios e ler os textos enquanto tomo meu chimarrão. Foi uma descoberta muito positiva. Por muitos anos, estive desinteressada pelo desenvolvimento profissional. Comecei minha trajetória na educação infantil, atuando desde berçários até o pré, e, pelo menos nos locais em que trabalhei, acreditava-se muito que essa etapa da educação tinha um apelo mais assistencialista do que educacional. Os pais achavam que a escola era um lugar a que as crianças iam para comer e dormir enquanto eles trabalhavam. Fiquei, por muitos anos, desestimulada com a sala de aula, porque a educação infantil é a base para a formação do indivíduo e, quando se atua em uma instituição que não acredita nessa etapa, a gente fica meio de mãos atadas. Hoje trabalho com o fundamental I e me encontro muito mais dedicada e interessada. Muitos dos cursos que fiz durante a pandemia me trouxeram novos questionamentos.

A professora Miriam: “Não só as crianças passarão por uma nova adaptação — nós da escola também”. Foto: Arquivo pessoal

Um desses cursos é o “Convivência: impactos do isolamento nas redes de proteção”, que fica dentro do percurso de Proteção Social no Polo, ambiente de formação do Itaú Social. Cheguei até ele com minhas pesquisas na internet. Durante o curso, uma das coisas que as coordenadoras disseram e que me fizeram refletir muito foi a necessidade de oferecermos novas ferramentas e novos métodos de aprendizagem. Isso ficou na minha cabeça: novos métodos. O tempo está passando, a realidade está mudando, e a gente não pode ficar parada. Principalmente quem está longe das capitais, atuando em cidades pequenas. Um dos pontos que vêm mexendo comigo é a questão do ensino híbrido, como vai funcionar e como nós, professores, teremos que lidar com isso, além da situação emocional em que a criança vai voltar pra sala de aula. A gente sabe que a pandemia trouxe uma convivência entre as famílias como nunca ocorreu tão intensamente. Isso pode ser bom, mas também pode ser muito ruim. Muitas crianças sofreram agressões durante o isolamento nas mais variadas esferas — sexuais, físicas, verbais —, além de ficarem sozinhas em casa, sem atenção nenhuma. Afinal, nesse sentido, a escola possui um papel muito importante. Eu mesma já fiz uma denúncia ao Conselho Tutelar sobre uma aluna minha que vinha sendo abusada pelo seu padrasto.

Pensando na complexidade disso foi que decidi fazer o curso do Polo. O conteúdo fala bastante sobre o acolhimento às crianças nessa volta, e sobre como a pandemia impactou e ainda vai impactar esse processo de aprendizagem. Isso vai ser fundamental para esse retorno. Afinal, não só as crianças passarão por uma nova adaptação — nós da escola também. O bacana desse curso, além das reflexões, é que é rápido e, em duas horas, as coordenadoras fazem muitos apontamentos, em uma linguagem muito boa de acompanhar. Acho que o maior diferencial, além da quantidade de cursos que podemos fazer e que são dedicados à educação, é a facilidade de mexer na plataforma. Enquanto as pessoas não tiverem essa virada de pensamento, as coisas não vão melhorar. Sei que perdi muito tempo sem formação, mas agora quero recuperar isso. Estimulo as pessoas a fazerem o mesmo. Eu segui os passos da minha mãe, que também era professora e atuou a vida toda em sala de aula, e hoje tenho orgulho da minha escolha e de tudo o que estou construindo.

Saiba mais

Leia mais