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Com oficinas de arte, cursos e uma rádio, a Casa do Rio faz a diferença na vida de mulheres, jovens e agricultores de comunidades do Amazonas


A construção às margens do Rio Tupana, em Careiro Castanho, no Amazonas: a origem da OSC Casa do Rio. Foto: Thiago Cavalli

Por Jullie Pereira, Rede Galápagos, Manaus

Estado com a maior área territorial do Brasil, o Amazonas tem um único acesso rodoviário ao restante do país: a BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, em Rondônia. Quando a estrada foi inaugurada, há 44 anos, a viagem entre as duas capitais podia ser feita em 12 horas. Por falta de manutenção, perdeu seu pavimento e pouco mais de uma década depois, foi interditada. A linha com restos de asfalto e trechos de terra nua se estende por quase 900 quilômetros sobre o solo arenoso da floresta. Ao longo da estrada há 13 municípios, onde vivem cerca de 3 milhões de pessoas. O caminho imaginado por muitos para o desenvolvimento da região hoje é uma via empoeirada, lamacenta e intransitável. Uma licitação lançada em junho deste ano para pavimentar seus primeiros 52 km reacende a discussão acerca dos impactos da chegada do asfalto e gera reflexões sobre a própria noção de progresso.

Entre os municípios sob influência da rodovia estão Careiro Castanho, Borba e Manicoré. Área com altas taxas de desmatamento, criminalidade e evasão escolar, palco de tantos descasos e carências sociais, o lugar tornou-se também o campo de ação de uma iniciativa que, desde 2009, vem transformando a vida de muitos, a Casa do Rio — organização social que realiza projetos de educação e arte em dez localidades. Seus cursos de empreendedorismo, rede de artesanato com venda pela internet, feirinhas locais e escola de agroecologia fazem a diferença na vida de mais de mil jovens, mulheres e agricultores. Um exemplo de sua atuação é o projeto “Meninas e Meninos de Ouro”, que ficou em terceiro lugar na categoria ‘Osc em Ação’ do Prêmio Itaú-Unicef de 2018.Com foco em arte, cidadania e ambiente, o projeto começou oferecendo educação de base para jovens sem acesso à escola formal e depois tornou-se referência com suas oficinas de mídias sociais, fotografia, filmagem e edição de vídeo, grafite, estêncil, jogos, computação, inclusão digital, preparatório para o Enem e reforço escolar, entre outras.

Lousa de trabalho: planejamento em parceria com as comunidades. Foto: Thiago Cavalli

Necessidade, a mãe da invenção
A Casa do Rio foi construída pelo jovem ator mato-grossense Thiago Cavalli, que saiu de São Paulo em 2009 e se instalou às margens do Rio Tupana, em Careiro Castanho, a 120 km de Manaus. A falta de estrutura na rodovia e o pouco interesse em preservar a floresta afetam a vida da população local. A organização está entre as entidades que consideram essenciais os estudos de impacto ambiental para evitar e minimizar danos. “De certa forma, a estrada não consegue resolver a vida das pessoas, ninguém consegue andar de verdade por ela”, diz. “Essa ideia de progresso é muito questionável, não somos contra a pavimentação, mas é que tem muita gente chegando, nunca sabemos quem são. Há muita ocupação ilegal e desordenada”.

Com ou sem asfalto, a carência de recursos é uma realidade com fortes impactos na vida local. Morador recém-chegado e interessado na vida comunitária, em 2010 Thiago se prontificou a ajudar a resolver o problema de cerca de 20 crianças do município que não tinham acesso às aulas, pois a prefeitura alegava falta de vagas nas escolas. Thiago  passou cinco anos disponibilizando atividades de ensino, primeiro em uma casa improvisada, depois em local cedido pela prefeitura. Sempre com uma pedagogia artística e com a participação de artistas convidados, vindos de outros estados, Thiago ajudou as crianças a concluírem seus estudos. “Em 2011, a partir de um anexo numa escola aqui em Careiro, continuamos dando aula e recebendo artistas. Nós criamos jogos ensinando todo o conteúdo do 5º ano sobre um viés da arte, do teatro”, conta.

Multiplicadores de ouro
Essa dinâmica continuou até 2015, quando as crianças precisaram sair do ensino fundamental e se adaptar ao ensino médio. As atividades da Casa do Rio se expandiram e a iniciativa se institucionalizou, tornado-se uma organização da sociedade civil (OSC). “Até então a gente fazia isso com dinheiro próprio, as doações eram na minha conta”, recorda Thiago. “Assim que formalizamos começamos a receber financiamento de outras instituições”. Foi a partir daí que os projetos se estruturaram. O “Meninas e Meninos de Ouro” nasceu dessa expansão e, por meio dele, formou jovens para multiplicarem as experiências das oficinas, levando-as a diferentes comunidades da região. “A arte é capaz de ampliar os horizontes de qualquer coisa. Sempre que começamos algo, começamos pelo campo da arte”. explica Thiago. “Somos uma casa de artistas, temos essa função”.

Thiago Cavalli, criador da Casa do Rio, no Amazonas: “É preciso descolonizar a si mesmo”. Foto: Lia Mandelsberg Monteiro

Resgate e fortalecimento
Os  R$ 130 mil do Prêmio Itaú-Unicef não poderiam ter chegado à Casa do Rio em momento mais oportuno. A OSC já não conseguia mais se sustentar e Thiago conta que chegou a pensar em desistir. “Eu questionava continuar ou não o trabalho porque nunca tive condições de manter”, recorda. “Havia pessoas que gostavam da ideia, apoiavam e queriam vir pra trabalhar, mas nessa época eu fiquei sozinho. Quando veio o apoio do Itaú Social, comecei a pagar as pessoas para trabalharem”. O recurso permitiu organizar o desenvolvimento institucional da OSC pelos cinco anos seguintes. A iniciativa também foi contemplada no Edital Sementes, que concede R$ 20 mil a projetos protagonizados por jovens (leia box sobre a Rádio Floresta).

Desconstruindo a colonização
Uma das preocupações do Thiago em relação ao seu processo de aprendizagem na Amazônia é a perda do olhar de colonizador, que pode interferir negativamente na estruturação de um projeto efetivo para quem vive aqui. “É preciso baixar a bola e entender esse lugar de ouvir, tenho um super cuidado, para que não seja a minha perspectiva. É sempre pela comunidade, entendendo o que eles necessitam, mas é um processo. Descolonizar a si mesmo”, diz.

“Saí de um contexto de megalópole e fui parar numa comunidade sem acesso à internet, sem nada. Eu me despi de um monte de coisas, precisei muito das pessoas. Não sabia o que fazer quando a água  começava a subir, não sabia andar de canoa, nem o que fazer quando eu me perdia no rio. Comecei a aprender que a gente não precisa de tanto”, conta. “Hoje eu sou da Amazônia”.

“Está no ar a Rádio Floresta!”


Durante o isolamento por conta da pandemia, o único projeto da Casa do Rio a continuar seus trabalhos foi a Rádio Floresta, que cumpre seu papel de informar os dados epidemiológicos do município e orientar medidas de prevenção. Uma ação muito importante, principalmente para as comunidades do interior, onde os órgãos do estado não conseguem chegar ou manter contato frequente. A rádio é resultado de um projeto financiado pelo Edital Semenetes, do Itaú Social. Os jovens aprenderam a elaborar pautas, a construir uma grade de programação, receberam mentorias e hoje fazem oito programas que abordam questões de gênero, literatura amazonense e temas com enfoque em direitos humanos.

Huanderson, coordenador da rádio: “Falamos de assuntos que muitas emissoras daqui não podem falar”. Foto: Arquivo pessoal

A Rádio tem transmissão pela internet, na sua página no Facebook e por meio de um aplicativo disponível no sistema Android. Huanderson Silva, de 20 anos, é o coordenador da rádio e recebe uma bolsa para dedicar parte do seu dia ao material dos programas. “Nós podemos falar de assuntos que muitas emissoras daqui não podem falar. Falamos o que tem que ser falado, tratamos de violência contra mulher, sobre abuso, exploração sexual”, conta Huanderson. Durante a pandemia, a dinâmica da rádio mudou. “Fechamos os estúdios e estamos funcionando em home office. Os apresentadores gravam e mandam pra mim, eu edito e publico o programa” diz. Além de amplificar vozes da Amazônia, a rádio é um espaço plural. Um dos seus programas de maior repercussão é o “Café com tucumã”, apresentado pelo jovem Iromar Oliveira, atento à temática LGBTQI+, que todas as manhãs fala sobre diversidade para o povo ribeirinho.

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