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Ninguém é uma ilha

A emocionante experiência de levar atividades de leitura para crianças na comunidade de Cotijuba, em Belém, no Pará


Com escola, sem professor: crianças ribeirinhas dependem de trator como meio de transporte para estudar. Foto: Arquivo pessoal

Depoimento de Ivam Magalhães da Silva, Bancário, Belém
Para Luís Gustavo Rocha, Rede Galápagos, Goiânia

Não cabem todos os voluntários, no máximo uns dez. Não se pode encher muito o barco, ou a gente corre risco. A Ilha de Cotijuba faz parte do município de Belém, a uma hora e meia de viagem da capital. Já fui até lá umas quatro ou cinco vezes, sempre com o grupo do qual participo há 11 anos, para levar leitura às crianças, brinquedos, comida, roupa… A comunidade fica logo na entrada, isolada do restante da ilha. Os moradores ribeirinhos têm suas casas e criam sua família. São pescadores e só vivem disso.

A escola que tem ali, na verdade, é uma extensão da escola da ilha. Com a falta de professores, no entanto, não há como ocupar a sala de aula. Para ter acesso ao ensino, os estudantes precisam ir até a sede da escola. O que parece coisa à toa, é uma lição complicada na realidade deles. Dentro da ilha, os trajetos são feitos de moto ou em um trator que puxa umas carretinhas com bancos.

A Ilha de Cotijuba é bem grande e o pessoal dessa região, na porta de entrada da ilha, é mais vulnerável. A pandemia afetou as atividades presenciais do Comitê Mobiliza Itaú Belém, mas quando íamos com constância, os meninos ficavam esperando. É emocionante ver a alegria deles quando a gente vai chegando… E fica todo mundo na beira do rio, aguardando. A gente leva pula-pula e eles interagem bastante. Na hora de ir embora, a criançada fica dando tchau enquanto o barco vai tomando distância da ilha.

Ivam e Ivana: pai e filha encampam juntos trabalho voluntário em Belém. Foto: Arquivo pessoal

Não é a única experiência que colecionamos. Digo ‘nós’ porque em todas essas ações eu levo minha filha Ivana, que tem síndrome de down. Ela acha o máximo! Todas as pessoas a conhecem, pessoalmente ou por foto. A Ivana fica bem, sente-se útil e isso me deixa feliz. A parte que ela mais gosta é a distribuição do lanche. Minha filha mais nova, a Isabela, está se formando em medicina e não me acompanha mais por causa dos estudos.

Ainda tenho mais uma filha, a Marina, psicóloga, que mora em Goiânia com o marido. Acho importante o engajamento da família, a gente ir levando quando criança, para sentir como é bom ser voluntário, ver a necessidade das outras pessoas e o quanto podemos ajudá-las. Muito pode ser feito, mas nem tudo. Em um abrigo de crianças para onde levamos o projeto de leitura, cada voluntário se sentava com um grupo para contar histórias e quando estávamos de saída, uma criança pegou na mão da nossa colega e disse: “Tia, me leva que eu vou com você.” Aí dói. Todo mundo chorou por não poder adotar. Apesar de bem tratadas, elas necessitam de uma família e estão lá esperando, sempre na expectativa de que alguém as adote. Naquela vez, voltamos no ônibus cabisbaixos, torcendo para que um dia os sonhos dessas crianças se realizem. Por um lado você fica machucado, se pudesse a gente adotaria todos, mas como não dá para fazer isso, é bom saber que a gente deixa algo para o futuro delas.

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