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Na onda da educação

O Projeto Ondas beneficia centenas de crianças com reforço escolar, alimentação, aulas de ética — e, é claro, com prática de surfe


Jojó de Olivença: “Sem perceber, a criança começa a se interessar pelos estudos e aos poucos compreende a diferença que a educação pode fazer no seu futuro”. Foto: Projeto Onda/Divulgação

Depoimento de Jojó de Olivença, bicampeão brasileiro de surfe e criador da OSC Projeto Ondas
Por Luciana Vicária, Rede Galápagos, São Paulo

Meu nome é Jocélio de Jesus, sou bicampeão brasileiro de surfe e há 20 anos resolvi encarar uma nova onda, um desafio bem maior do que aterrissar de um aéreo, pegar um tubo ou realizar um 360 completo. Qualquer manobra radical parece fácil quando a gente está diante do desafio de proteger crianças da violência social, dos abusos e das drogas  —  e dar a elas a oportunidade de sonhar com um futuro melhor. 

Deixe eu me apresentar de novo: sou conhecido como Jojó de Olivença. Jojó de Jocélio mesmo, meu primeiro nome; e Olivença porque é o nome da cidade baiana onde me consagrei no esporte. Tenho 53 anos e ainda pego onda no Guarujá, litoral de São Paulo. Pego onda em todos os sentidos. No mar, na categoria master, e também na educação. Sou criador do Projeto Ondas, uma iniciativa que já beneficiou mais de 500 crianças de 6 a 12 anos que moram na região. A gente acolhe, apoia com reforço escolar, alimenta, oferece aulas de ética e cidadania.

Nossa estratégia é simples. A gente usa o esporte como vitrine. As crianças se interessam pelas pranchas, pelas roupas de neoprene, querem aprender manobras com nossos instrutores. E assim a gente vai se aproximando e abrindo novos caminhos. O surfe é a nossa linguagem para o aprendizado e também uma das atividades que acontecem aqui. Mas não é a única. A gente fala das fases da lua com a desculpa de entender o tamanho das ondas, de importância histórica de algumas cidades a partir de destinos consagrados do circuito mundial de surfe. Até a produção de textos é trabalhada em torno do tema.

Sem perceber, a criança começa a se interessar pelos estudos e aos poucos compreende a diferença que a educação pode fazer no seu futuro. Nossos meninos e meninas têm o apoio de uma equipe que inclui pedagogos, psicólogos, assistentes sociais e professores de educação física. Eles são muito entrosados e trocam informações sobre as crianças e suas famílias. Em alguns casos, agem em conflitos familiares. Em outros, apoiam financeiramente uma família mais necessitada. Sem perder de vista a criança.

Agora, na pandemia, fizemos uma campanha e arrecadamos fundos para ajudar a maior parte dos nossos meninos e meninas. Nossa sede física, como eu disse, fica no Guarujá, uma cidade do litoral paulista com uma alta predominância de famílias vivendo em situação de pobreza, segundo dados da prefeitura municipal. 

Mas para chegar aqui eu ralei bastante. Passei a infância pescando, jogando futebol na praia e observando a turma que vinha de longe surfar. Tirava uma graninha como guardador de carros e de vez em quando vendia artesanato para ajudar minha mãe. Aos 11 anos experimentei pegar onda em pedaços de isopor, até que um colega me emprestou uma prancha de verdade. Eu me superei, venci torneios, viajei o mundo, ganhei algum dinheiro e ampliei meus horizontes. Em 1999, quando comecei a dar aulas de surfe no Guarujá, não pude deixar de notar as crianças que vagavam pela faixa de areia à procura de latinhas de alumínio. Eles paravam na nossa tenda e perguntavam quanto custava para fazer uma aula. Eu fui um desses meninos um dia e não podia fechar os olhos para essa realidade. Então, eu precisava dizer sim a eles. Não existe nada mais triste do que uma criança que perdeu a capacidade de sonhar.

Juntos, vamos encontrando os caminhos para que essas crianças sigam seguras e com dignidade. A nossa base é a educação e o respeito. A gente não precisa dizer muitas coisas. Elas sentem que a equipe se importa e se dedica muito. Daí é um ciclo positivo. Elas passam a se importar com suas vidas também e voltam a sonhar e acreditar. A gente sente um imenso prazer em vê-las seguindo em frente, protagonistas de suas vidas, sem abandonar os estudos e fazendo o bem para os que mais precisam. Eu ensino para meus pequenos surfistas que o mundo não cabe numa prancha, mas a prancha pode trilhar um futuro gigante para eles, do tamanho do sonho de cada um. 

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