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Música e educação

Na Fundação Raimundo Fagner, no Ceará, vivenciar a arte é ter a experiência de uma educação mais ampliada


Crianças e jovens ensaiam para compor uma orquestra e aprendem formação musical na Fundação Raimundo Fagner: estímulo e oportunidade para o desenvolvimento. Foto 1: Antonio Carlos Dias de Oliveira/Fundação Social Raimundo Fagner | Foto 2 : Talita Teixeira/Fundação Social Raimundo Fagner

Por Maggi Krause, Rede Galápagos São Paulo

Quando se é criança, aprender a tocar um instrumento ou treinar a voz para o canto são atividades que trazem desafio e prazer ao mesmo tempo. E têm uma importância ainda maior no dia a dia quando o contexto é um local com poucas oportunidades no sertão do Ceará ou em um bairro violento na periferia de Fortaleza. 

Preocupado em contribuir com a comunidade de Orós, sua cidade de origem, o cantor e compositor Raimundo Fagner iniciou uma fundação com seu nome nos anos 2000. A instituição acolhe as crianças no contraturno da escola, dando acesso a esportes, oficinas de informática, de arte, reforço nos estudos e auxiliando também as famílias, para que a educação fosse contínua e valorizada. “Somos em três irmãos em casa, e sempre foi um benefício receber cestas básicas, material escolar e de higiene. Depois fui para a monitoria, que é remunerada, e isso ajudou na questão financeira lá em casa”, conta Andressa Custódio, 18, educanda da Fundação Raimundo Fagner (FRF) há 11 anos e que hoje é monitora de canto coral em Orós.

Música e cidadania
O Projeto Aprendendo com Arte nasceu em 2003, quando Fagner transformou o sítio de lazer da família, com 10 mil m², em uma sede para atender a uma região de Fortaleza com IDH baixíssimo e grandes problemas sociais. “Naquela ocasião definimos o foco na música e que o instrumento principal seria a flauta doce, de fácil acesso, baixo custo e certa facilidade para aprender”, conta Tereza Cristina Tavares Gondim, coordenadora pedagógica que é a atual diretora da FRF. À flauta se juntaram aulas de violão, canto coral, percussão e atividades complementares de teatro, literatura, história da arte, teoria musical e o reforço escolar. As atividades acontecem em ambas as sedes – Orós e Fortaleza – cada uma com pelo menos 200 educandos. “São educandos e não alunos, porque defendemos a educação integral e o protagonismo dessas crianças e jovens, que ficam conosco entre os sete e os 17 anos, ou seja, temos tempo de orientar para valores e formar cidadãos”, conta Tereza. 

Fagner, O Musical, encenado no Cineteatro São Luiz, em Fortaleza, em 2019: espetáculo em homenagem aos 70 anos do cantor e compositor. Foto: Antonio Carlos Dias de Oliveira/Fundação Social Raimundo Fagner

“É uma tranquilidade para os meus pais saberem que eu vou para a fundação, que estou ocupando minha mente com coisas boas”, diz Luiz Guilherme, de 14 anos, que toca flauta e está na FRF desde 2015. “Minhas tardes viraram uma rotina de ensaios, conheci novas pessoas e aprendi um instrumento que amo.” Resultado de atividades desenvolvidas durante meses, um grande espetáculo musical é levado ao palco nos finais de ano. O projeto envolve os educandos de forma coletiva em etapas de pesquisa, concepção, roteiro, produção e execução. Já foram apresentados O Bumba-Meu-Boi da Fundação, Romeu e Julieta de William Shakespeare, Os Jesuítas e sua Música para a Catequese, A Princesa e o Sapo, entre muitos outros. “Os ensaios são pesados, quase profissionais mesmo. Flauta, violão e coral aprendem suas partituras, depois juntamos todos na orquestra e ensaiamos a música para ela ficar perfeita para a apresentação, que é o ápice do trabalho”, descreve a soprano Andressa. 

Ex-educandos são educadores
Nos espetáculos, conseguir a admiração de toda a comunidade dá aos educandos autoestima, a certeza de que são capazes de realizar os combinados e atingir seus objetivos. “Como diz o educador Jacques Delors, todos nós temos as competências, já nascemos com elas. O que esses meninos e meninas precisam é de estímulo, oportunidade para se desenvolver”, afirma Tereza. Hoje, metade do quadro de educadores do Projeto Aprendendo com Arte é composto por ex-educandos e a grande maioria dos egressos está na universidade, formando-se em áreas como direito, arquitetura, música, enfermagem… rompendo um ciclo de pobreza e de exclusão social. Jefferson Augusto é uma dessas pessoas: com 24 anos, cursa o quinto semestre de geografia, dá aulas de violão na FRF e sonha se formar em música para seguir trabalhando na área.  

Um dos primeiros reconhecimentos pelo sucesso do Projeto Aprendendo com Arte veio com o Prêmio Itaú-UNICEF. Depois de se inscrever pela primeira vez, a FRF não chegou à final, mas a coordenadora foi convidada para uma formação em São Paulo. Tentou novamente e, em 2007, ficou entre os 20 finalistas, mas não ganhou. “Recebemos uma visita e alguns questionamentos da consultora do Itaú-UNICEF me fizeram perceber detalhes importantes para aprimorar a nossa atuação. Para a edição de 2008 não participamos, pois não estávamos prontos. Aí inscrevemos novamente o projeto e ganhamos”, conta Tereza. Foram vencedores nacionais na categoria grande porte, em 2009. Para a conquista na premiação foram considerados pontos como a qualidade técnica e o domínio dos instrumentos musicais, a alegria dos alunos e sua assiduidade, o apoio dos pais e da comunidade e a melhora do desempenho escolar, das relações familiares e da integração social.

“Aura de felicidade”
Embora os resultados artísticos chamem muita atenção, são os avanços sociais e pessoais dos participantes que fazem a diferença nesses 20 anos de FRF, completados no início de abril de 2020. “A fundação está dando a maior alegria da minha vida, pois é um momento de muito envolvimento com pessoas. Quando vejo que espaços que foram feitos para o meu lazer sendo usados pela comunidade, me sinto retribuindo tudo o que me foi dado, e percebo uma aura de felicidade enorme nos orientadores e em quem colabora com o projeto”, comenta Fagner. “Fiquei realmente emocionado ao me apresentar com as crianças em palcos como o Cine São Luiz e o teatro Sérgio de Alencar, onde ganhei meu primeiro festival.”

#LiveDoBem: o cantor arrecadou mais de R$ 36 mil, que foram transformados em cestas básicas distribuídas em Orós. Foto: Talita Teixeira/Fundação Social Raimundo Fagner

Preocupado com a situação das famílias na pandemia, o cantor arrecadou mais de R$ 36 mil Na #LiveDoBem, que foram transformados em cestas básicas distribuídas em Orós. A data comemorativa da FRF precisou ser celebrada no isolamento social e teve direito a convite pelas redes sociais para atuais e ex-educandos compartilharem fotos e vídeos e recontarem 20 anos de histórias (perfil no Instagram https://www.instagram.com/frfagner/ e #frf20anos). As atividades do projeto não pararam e os educadores se organizaram para não deixar ninguém sem tocar um instrumento em casa. “Temos videoaulas com dicas de exercício físico, informática, história da música,” enumera Luiz Guilherme, que desabafa: “Tocar sozinho não é a mesma coisa. A gente tenta matar a saudade pelas lives, mas sinto falta de ensaiar com o pessoal reunido.”