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Matemática não é só fazer conta

Professor de matemática há 15 anos, Auricelio descobriu recentemente novas maneiras de encantar os estudantes


Professor Auricelio: desde 2006, tem estudantes medalhistas ou certificados com menção honrosa na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). Foto: Arquivo pessoal

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA)
Depoimento de Auricelio Carneiro de Morais, natural de Caicó (RN), professor de 300 estudantes em São João do Sabugi (RN), licenciado em matemática e em química, mestre em ensino da matemática — e cursista do Polo

Meus alunos, como a maioria dos brasileiros, não têm a matemática entre as disciplinas prediletas. Atualmente, são 300, entre os ensinos fundamental 2 e médio. Minha missão é mostrar a eles que a matemática pode ser legal, se mudarmos a maneira como olhamos para ela. Aprendi isso logo cedo, quando cursava o terceiro ano do ensino fundamental 1. Fui reprovado em matemática porque não conseguia aprender a dividir. Minha mãe, então, contratou uma professora para me oferecer reforço escolar, o que fez com que eu, finalmente, entendesse a divisão.

Foi uma virada de chave. Percebi que, na verdade, eu até levava jeito com os números. Dali em diante, passei a ajudar os colegas que apresentavam dificuldades e tomei gosto pela arte de ensinar. Cursei uma licenciatura em matemática e outra em química e, no último dia 1º de setembro, completei 15 anos como educador. Atualmente, trabalho no município de São João do Sabugi, vizinho a Caicó, onde nasci. Ambos estão localizados no Rio Grande do Norte, perto da divisa com a Paraíba.

Aqui no interior, não sofremos com questões relacionadas à violência, como assaltos. Nosso principal gargalo são os problemas socioeconômicos. Muitos dos meus alunos, por exemplo, precisam trabalhar para ajudar em casa e faltam à escola, ou mesmo desistem. Outros vêm cansados e não conseguem se concentrar na aula. Não acho que a educação, sozinha, possa reverter esse quadro. Mas ela é um ponto crucial para a mudança.

O grande problema com a matemática continua sendo o domínio das quatro operações básicas. Elas são o alicerce para todos os assuntos tratados nos anos posteriores. Quando vou explicar a função exponencial, preciso que os alunos tenham conhecimento prévio de potenciação, que, por sua vez, exige um bom entendimento da multiplicação. Se não dominam esses conteúdos, tenho que revisar cada um deles antes de apresentar-lhes um novo. Para as turmas do primeiro ano do ensino médio, a coordenação da escola em que trabalho e eu desenvolvemos a estratégia de usar os dois primeiros meses letivos apenas para revisar assuntos do fundamental 2. Isso melhorou o rendimento das turmas.

Uma boa noção das quatro operações é fundamental para situações cotidianas, o que torna mais fácil trabalhar os conteúdos com os alunos do ensino fundamental. Os temas das aulas para esse público, como a porcentagem, têm maior aplicabilidade no dia a dia. As perguntas “para que preciso saber isso?” e “onde vou usar isso na minha vida?” são mais comuns no ensino médio, fase em que os conteúdos matemáticos são mais abstratos.

O ensino médio é a etapa imediatamente anterior ao ensino superior. Mais um motivo para garantir o entendimento das quatro operações, visto que cerca de 60% da prova de exatas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é composta de questões de matemática básica. Esse também é um momento delicado na vida dos alunos. Precisam lidar com a pressão de escolher um curso e ingressar na faculdade, mas muitos deles duvidam da própria capacidade. É preciso trabalhar a autoestima, e ter essa sensibilidade é papel do educador.

Estou sempre atento às novidades na área da educação. Assino uma revista digital para me manter informado sobre o que está sendo discutido. Foi por ela que fiquei sabendo do Polo, plataforma do Itaú Social que oferece uma série de cursos gratuitos para profissionais da educação. Duas características me chamaram a atenção, logo de cara. Os cursos são gratuitos e eu poderia fazê-los no meu tempo. Para mim, que trabalho todos os dias, pela manhã e pela tarde, poder montar o meu próprio cronograma é fundamental.

Eu me inscrevi no curso Conhecendo as Mentalidades Matemáticas, em que fui incentivado a pensar sobre a importância do erro para a aprendizagem. É importante entender que o erro não deve ser visto numa lógica punitivista, mas faz parte do processo do desenvolvimento do estudante. Tão importante quanto compreender é deixar isso claro para ele, de modo que se sinta confortável. Gostei de conhecer essa metodologia, que nos estimula a apresentar a matemática de uma maneira mais aberta, visual e criativa.

Quando eu estava ensinando fração, por exemplo, utilizava fórmulas e algoritmos prontos. Eu tinha alguma dificuldade para explicar que se tenho duas frações de mesmo numerador, a maior delas é a que possui o menor denominador — 4/7 é maior que 4/10. Ao dizer isso, eu podia ver interrogações nos rostos que me olhavam. Após esse primeiro curso no Polo, entendi e comprovei, na prática, que é muito mais efetivo explicar essa mesma regra desenhando pizzas no quadro e dividindo-as em sete e em dez fatias.

Resolvi fazer um segundo curso, o Pensando Matematicamente. Achei esse menos teórico que o primeiro. Fiquei sabendo, por exemplo, que no site da metodologia é possível baixar atividades com conteúdos desde o primeiro ano do ensino fundamental 1 até o ensino médio. Encontrei de tudo por lá: álgebra, geometria, conjuntos numéricos… Estou utilizando alguns, como o exercício do losango, em que o aluno é estimulado a dar quatro soluções para o mesmo problema. Não são aquelas atividades que podem ser facilmente respondidas com uma fórmula pronta. O estudante precisa pensar numa estratégia. Isso o faz sentir-se desafiado.

Na sala de aula, esse tipo de abordagem se mostra bastante efetivo. Eles estão percebendo que existe mais de uma maneira de solucionar as questões e que, às vezes, seu colega conseguiu resolver de uma forma mais fácil. Sinto que, aos poucos, estou desconstruindo a ideia de que a matemática é difícil e que só alguns têm uma espécie de dom para aprendê-la. Quando pergunto a eles o que é a matemática, eles dão a mesma definição que eu dava antes de fazer os cursos: “É uma disciplina que cuida dos números”. Hoje, digo a eles que é uma ciência que trata de padrões. E os padrões estão na natureza. Cabe a nós decifrá-los. Agora essa diferença é nítida para mim. Matemática não é necessariamente sobre fazer conta. Muitas vezes, um desenho ou uma frase vão dar uma resposta convincente.

Já fiz a minha inscrição para um terceiro curso: Mentalidades Matemáticas na Sala de Aula. Enquanto houver cursos no Polo, estarei fazendo. Eles estão mudando para melhor a minha relação com a matemática e o meu trabalho como educador. Quando entrei no mestrado, achei que teria acesso a materiais voltados para o dia a dia da sala de aula, mas não foi bem isso o que encontrei. Agora, estou onde queria. Tornei-me um professor que não apenas passa o assunto e corrige a atividade. Quero acompanhar o desenvolvimento de meus estudantes, sem dar resultados prontos. Eles são capazes de deduzir e chegar às respostas por conta própria.