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Notícias Dez perguntas para

Mais educação e menos fobia

A primeira mulher transexual a tornar-se diretora de escola pública estadual fala sobre ensino, sexualidade e opressão no ambiente escolar


Paula Cruz

Diretora da Escola Estadual Santa Rosa de Lima, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo

Paula Cruz: “Quando alunos me perguntavam se eu era mulher antes de me assumir, eu respondia com uma pergunta: ‘o que você acha?’ Ouvia a resposta de maneira natural. Nunca considerei um desrespeito”. Foto: arquivo pessoal

Por Alecsandra Zapparoli, Rede Galápagos, São Paulo

Antes mesmo de nascer, Paula já era chamada de Paula pelo pai. Afinal, a mulher dele, Beatriz, estava na sexta gestação e, até então, só tinham nascido homens na família Souza Cruz. Eis que veio mais um menino. Aos 9 anos, Paulo foi levado ao psiquiatra por indicação da escola. Diagnóstico: “homossexualismo”, que naquela época era considerado doença pela Organização Mundial da Saúde – só em 1990 deixou de constar na CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde). Começou a tomar medicamentos, o rendimento na escola caiu, o comportamento mudou e dona Beatriz, com a mesma lucidez que preserva hoje aos 90 anos, jogou todos os remédios na privada: “Se for para ter filho gay, terei. Filho louco, não. Filho infeliz, não”. Junto com os remédios não foram o preconceito e as muitas adversidades que iriam surgir a partir dali, mas certamente um novo destino foi traçado para Paula Cruz, 49 anos, a primeira mulher transexual a se tornar diretora na rede estadual de ensino no país.

 Ainda que tímida, a presença de pessoas trans nos espaços educativos incita preconceito e discriminação – calcula-se que há cerca de 80 professoras travestis e transexuais em salas de aula no Brasil (um giz colorido a cada 31.000 brancos, se considerarmos o total de 2,5 milhões docentes no país). A escola pode deixar de ser um espaço de opressão na questão da sexualidade para se tornar um ambiente seguro, livre e educativo para todas as pessoas. É preciso desnaturalizar os padrões heteronormativos para que possamos compreender que a sociedade é plural e que os espaços devem ser preparados para receber todas e todos. A crença de Paula é essa. Por isso ela tem tanto orgulho de ocupar na Escola Estadual Santa Rosa de Lima, em São Paulo, um lugar que historicamente não poderia ser seu.

NNotícias da Educação –  O que a levou ao ambiente escolar? Como decidiu ser professora?

PPaula Cruz – Minha mãe era servente escolar. Depois virou zeladora da Escola Estadual Presidente Kennedy e moramos por uns sete anos lá, durante a minha adolescência e enquanto a nossa casa era construída. Eu gostava de ir para a biblioteca. Nas férias, também ajudava na secretaria, já que a minha caligrafia era boa. Quando decidi ser professora, muitos me desincentivaram, falando que era uma profissão que pagava muito mal. Aos 18 anos comecei a alfabetizar crianças e adultos e em 1989 iniciei a docência. Me formei em pedagogia, fiz pós-graduação em gestão educacional e em docência no ensino superior. Sou diretora há 22 anos, sendo 17 deles na mesma escola, a Santa Rosa Lima, que tem 1.100 alunos do ensino fundamental, 45 professores e 12 funcionários.

NHoje você tem 49 anos e se assumiu trans aos 37. Por que levou tanto tempo? O que a encorajou?

PDemorei por medo. Medo da sociedade. Medo de perder o emprego. Minha mãe tinha medo que eu morresse se assumisse. Mas aí comecei a entrar em um processo de depressão por não ser a Paula. Corri para procurar auxílio médico. Primeiro psiquiátrico e depois fui a um endocrinologista no Hospital das Clínicas e passei a tomar hormônios. Parece mentira, mas boa parte dos meus hormônios já eram do gênero feminino. Não considerei fazer a cirurgia de redesignação sexual porque a fila era enorme. Isso só aconteceria quando eu tivesse uns 60 anos, já que você passa por multiprofissionais e são realizadas pouquíssimas cirurgias do tipo por ano no HC, que é um centro médico muito sério. Tive amigas que fizeram em clínicas particulares e ficaram mutiladas. Também tive o cuidado com meus alunos e pais. Fiquei quatro anos afastada da escola quando fiz a exteriorização. Nesse período, atuei na supervisão de ensino do programa Escola da Família. Não quis chocar os alunos saindo diretor um dia e voltando diretora no outro.

“As pessoas não têm ideia do básico: a diferença entre orientação sexual e identidade de gênero. Falta política pública educacional, com consistência e continuidade”

NO Brasil é um dos países onde mais se matam travestis e transexuais e foi responsável por metade das mortes de transgêneros no mundo. Aqui, pessoas trans tem expectativa de vida de 30 anos de idade, o que é menos da metade da expectativa de vida média na população cisgênero. Dentro deste contexto, o que significa ser trans e estar na direção de uma escola pública?

PÉ uma resistência. É uma luta. Não querem colocar a diversidade no currículo. Hoje temos um currículo heteronormativo. Mas não há nada também que proíba. Se você quiser, pode tratar de temas da sexualidade e gênero nas escolas públicas estaduais de São Paulo. Mas não há uma diretriz única. E falo também em relação à diversidade mais ampla: racial, indígena, deficiência…

NO quanto a religião interfere no preconceito e desrespeito em função da orientação sexual e identidade de gênero de estudantes, professores, gestores?

PA questão não está na religião. Está nas pessoas. Trabalho com professoras evangélicas, adventistas e não tenho nenhum problema porque não imponho absolutamente nada. Eu sou de formação católica, fui coroinha, catequista e hoje sou umbandista, mas todas as religiões valorizam o ser humano. Sou profissional e batalho pelo respeito. Se quero respeito sendo Paula, mulher transexual, negra, professora que mora na periferia, preciso também respeitar.

NO número de estudantes travestis ou transexuais que solicitaram o uso do nome social em escolas cresceu muito nos últimos dois anos. O mesmo acontece ano a ano com os inscritos no ENEM (Exame Nacional de Ensino Médio). A transfobia, entretanto, é o principal motivo de abandono dos estudos para pessoas transexuais e travestis, especialmente no ensino básico.

PAssegurar aos docentes e alunos transgêneros o reconhecimento de seus nomes sociais nas escolas públicas estaduais foi uma grande conquista. Mas embora os estudantes trans possam usar seus nomes sociais nos registros escolares, as redes ainda precisam superar transfobia e promover inclusão, com uma gestão acolhedora. Caso contrário, crianças trans continuarão abandonando o ambiente escolar. Todos precisam estar preparados para receber: do porteiro ao diretor. É uma mudança de cultura.

“O mundo de hoje exige a inserção em outros referenciais do conhecimento: técnicos, como a informática, éticos, como a autonomia sobre o corpo, ou ligados à cidadania, como os direitos humanos, entre outros”

O “irmão gêmeo”, aos 11 anos: “A minha formação de caráter, ética e profissional veio com ele, por isso digo que é um irmão gêmeo que eu usurpei. Paulo construiu um processo e a Paula aprofunda, aprimora, questiona e remodela o processo”. Foto: arquivo pessoal

NHá uma diferença entre o ambiente escolar privado e o público em relação ao preconceito?

PNa escola pública a aceitação é mais fácil porque estão aumentando os casos de crianças e adolescentes trans. De alguma maneira acho que contribui dando visibilidade ao tema. Muitas ex-alunas me procuraram dizendo que a minha história as encorajou. Digo sempre que tive um irmão gêmeo. A minha formação de caráter, ética e profissional veio com ele, por isso digo que é um irmão gêmeo que eu usurpei. Paulo construiu um processo e a Paula aprofunda, aprimora, questiona e remodela o processo.

NAinda há muita desinformação sobre sexualidade. Como mudar isso?

PAs pessoas não têm ideia do básico: a diferença entre orientação sexual e identidade de gênero. Falta política pública educacional, com consistência e continuidade. Pela minha experiência, há escolas que conseguem levar bem o tema, mas a maioria não consegue. Precisa de formação permanente. Não pode tratar do assunto só em junho, quando tem a Parada LGBTQI+.

“A maior discriminação é a negação da existência de pessoas travestis e transexuais”

Com a mãe Beatriz, em 2018, no Palácio dos Bandeirantes: homenagem da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo pela notável participação na categoria Diversidade Sexual e de Gênero. Foto: Arquivo pessoal

NQuais argumentos podem ajudar a trazer os pais para essa discussão?

PAs pessoas estão enfrentando situações novas que o mundo não conhecia antes e que não podem mais ser resolvidos só pela família, pela escola ou por qualquer outra instituição isoladamente. O mundo de hoje exige a inserção em outros referenciais de conhecimento: técnicos, como a informática, éticos, como a autonomia sobre o corpo, ou ligados à cidadania, como os direitos humanos e de consumidor, entre outros. Sendo importante desenvolver a reflexão que se tem sobre os rumos de suas vidas e que propiciem o exercício da autonomia, na qual o cidadão passará de vítima ou de culpado a mais um aliado no movimento de construção por uma escola e um mundo melhor.

NVocê já recebeu muitos prêmios e homenagens pelo seu papel como mulher negra, trans e moradora de uma comunidade pobre. Olhando hoje parece fácil. Quais foram os momentos mais difíceis desta trajetória?

PA maior discriminação é a negação da existência de pessoas travestis e transexuais. A minha trajetória não foi fácil, pois tive que enfrentar os medos que me cercavam porque ser transexual ou travesti no país que mais mata… Os meus medos ainda permanecem, mas o empoderamento ajuda a enfrentar as lutas diárias para a convivência e sobrevivência.

NQuais são as mulheres que a inspiram?

PMinha mãe, daí eu ter incluído Beatriz no meu nome. E também a cantora Whitney Houston e a atriz Ruth de Souza. Mas a mulher que mais mexeu comigo foi a Dercy Gonçalves. Ela sempre foi o que quis ser. Sofreu muito por escancarar o que era, mas não desistiu. Morreu sendo Dercy.