Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca
Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Dez perguntas para

SONIA ROSA – Literatura infantil negroafetiva

Protagonismo negro é o principal foco da escritora em seus contos para as infâncias


Dez perguntas para
Sonia Rosa
Escritora de literatura infantojuvenil, poeta e professora aposentada. Mestre em relações étnico-raciais pelo Cefet/RJ. Autora de Enquanto o almoço não fica pronto…, obra selecionada pelo edital Leia para uma Criança 2021

Sonia Rosa e o livro Enquanto o almoço não fica pronto…, selecionado pelo edital Leia para uma Criança 2021: “As histórias me tocam, me afetam e me tomam. E eu compartilho”. Foto: Arquivo pessoal

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA)

“A vida é igual um livro.” Com essa frase da escritora Carolina Maria de Jesus, a poeta Roberta Estrela D’alva inicia o texto de abertura da música “Rosa do morro”, do rapper Renan Inquérito. O rap conta a história de Dona Rosa, moradora de uma favela brasileira. “A Rosa do morro, a Rosa que é preta.” No fim da música, Roberta volta a citar Carolina ao perguntar: será que a sorte do poeta negro é negra igual a sua pele? A poeta e escritora de literatura infantil Sonia Rosa não é a Rosa do morro que inspirou a música de Renan, mas poderia ser. Negra de pele clara, ela nasceu numa comunidade do Rio de Janeiro, em 1959. Sua mãe, baiana, mudou-se para o Rio aos 16 anos para trabalhar como empregada doméstica na casa da família de um médico e não voltou mais para a Bahia. Em seu lar, adorava contar histórias para Sonia. “Minha experiência com as histórias e minha paixão pela palavra se iniciaram dentro de casa, com a minha mãe.”

Sonia Rosa cresceu e tornou-se professora — e a paixão pelas histórias nunca a abandonou. Durante os 30 anos de sala de aula, contou-as aos seus alunos sempre que pôde. Até que contar deixou de ser suficiente. Ela queria escrever as suas próprias histórias. Começou compondo poesias, até que escreveu O menino Nito, em 1988, que viria a se tornar um premiado livro de literatura infantil, lançado sete anos depois. Em sua primeira obra, a escritora já deixava explícita a principal marca de seu trabalho literário. Hoje, após 26 anos de carreira, essa característica já tem nome e sobrenome: literatura negroafetiva. “Nas minhas histórias, encontram-se muitos personagens negros em protagonismo e muito amor.” Mestre em relações étnico-raciais, Sonia Rosa empresta seu nome a várias bibliotecas por todo o Brasil e já lançou mais de 30 livros infantis e juvenis. 

Seu livro Enquanto o almoço não fica pronto…, ilustrado por Bruna Assis Brasil, conta a história de uma família negra que, em casa, aguarda o momento da refeição. Esse título infantil foi selecionado pelo programa Leia para uma Criança, que em 2020 propôs um edital para que os livros da edição 2021 considerassem a representatividade dos povos negros e indígenas. O segundo título escolhido pelo edital foi Os olhos do jaguar, de Yaguarê Yamã, que tem ilustrações de Rosinha e conta uma história da tradição oral dos povos maraguás e sateré-maués.

Cerca de 1 milhão de exemplares de cada uma das obras selecionadas serão distribuídos gratuitamente a organizações da sociedade civil, bibliotecas comunitárias e órgãos públicos, com foco em municípios com altos índices de vulnerabilidade social. O programa também disponibiliza versões audiovisuais e em braile das obras selecionadas. As instituições interessadas em solicitar os livros podem ter mais informações neste link.

Conversamos com a escritora Sonia Rosa, autora de Enquanto o almoço não fica pronto… e de outras obras com temática racial, sobre o livro selecionado pelo edital Leia para uma Criança e sobre a sua jornada como escritora de literatura infantil.

A capa de Enquanto o almoço não fica pronto…:  “As crianças entendem mais do que podemos imaginar”, diz Sônia. Imagem: reprodução

NNotícias da Educação — Como você teve a ideia da história Enquanto o almoço não fica pronto…?

SSonia Rosa — Adoro cozinhar. Acho algo muito mágico porque coloco ovo, farinha de trigo, leite e, quando bato, isso vira bolo. É mágico! A ideia do livro surgiu de um jeito singelo. Na verdade, é quase um tratado filosófico porque enquanto você faz uma coisa, ou enquanto esta pandemia não passa, ou ainda enquanto o almoço não fica pronto, as outras coisas vão acontecendo. A história se desenvolve nessa perspectiva filosófica de usufruir do tempo. Enquanto se está fazendo a comida, enquanto estamos conversando aqui, o mundo está acontecendo, as crianças estão nascendo, casais estão se desentendendo e outros se entendendo, livros estão sendo rodados, bolos estão sendo feitos… Sou uma pessoa que valoriza muito a alimentação porque sei o que significam um prato cheio e um prato vazio. Para se ter uma ideia, com o meu primeiro direito autoral, do meu Menino Nito, lançado em 1995, comprei um conjunto de panelas. Boas panelas para as melhores comidas.
Cozinhar é a transformação de algo que estava desinteressante em algo não apenas interessante, mas apetitoso, para oferecer e abraçar o paladar de uma pessoa para que ela fique feliz. E enquanto o almoço não fica pronto, a vida vai acontecendo…

NO livro é estruturado em estrofes e alguns trechos são marcados pelas rimas. De que maneira o ritmo influencia o desenvolvimento da narrativa e a contação da história?

SA oralidade é um dos valores civilizatórios afro-brasileiros, assim como a ludicidade e a musicalidade. Bebi na fonte, através dos provérbios, dos brinquedos cantados, das histórias… Esse ritmo não necessariamente é uma rima, mas uma coisa melodiosa, um encadear, um abraço em palavras que vai pegando você… A marca de oralidade está sempre presente nas minhas histórias. Essa cadência dá fluidez ao texto e é boa para contar. Quando acabo de escrever as histórias, escuto. Se percebo que há uma trava em algum momento, troco uma palavra aqui, outra ali, para poder dar esse resultado gostoso. A cadência funciona com crianças pequenas. Elas conseguem absorver e decorar pelo próprio ritmo. Mesmo sem saber ler, a criança vai cantando a história. Não contando, cantando.

“Escrevo para as crianças. Especialmente para as crianças negras. Penso que todas as crianças precisam acessar essas histórias porque isso vai ser bom para elas, para o mundo e para as nossas crianças negras. Escrevo histórias voltadas para as infâncias e digo que todas elas importam.”

NEm seus livros, as marcas da negritude aparecem de maneiras sutis. Em Enquanto o almoço não fica pronto…, por exemplo, há um momento em que a Vovó está trançando seus cabelos. É correto dizer que você escreve seus livros para as crianças negras?

SEscrevo para as crianças. Especialmente para as crianças negras. Penso que todas as crianças precisam acessar essas histórias porque isso vai ser bom para elas, para o mundo e para as nossas crianças negras. Escrevo histórias voltadas para as infâncias e digo que todas elas importam. Tive uma experiência numa escola em Goiânia em que estava falando para uma turma sobre um livro meu, e um menino de uns oito anos me perguntou: “Sonia, nas suas histórias não tem criança branca, não?”. Eu disse que, dentro das minhas histórias, ele vai encontrar personagens brancos, mas poucos. Escolhi isso para os meus livros porque todos os outros livros têm muitos personagens brancos. Então, nos meus, ele vai encontrar, na maioria, personagens negros. Sou bem consciente de como escrevo e por que escrevo. Não por acaso, coloquei a trança da Vovó. Quis dar esse toque sobre a presença da trança na vida da mulher negra, de como isso é identitário e comum. Faz parte de nós.

NO assunto antirracismo deve ser tratado com as crianças desde a primeira infância?

SClaro. As crianças entendem mais do que podemos imaginar. Levar a diversidade para dentro de casa desde cedo fará com que a criança a receba de uma forma natural. Ela vai crescer dentro disso, ampliar o seu conhecimento de mundo e entender que uma pessoa negra não precisa necessariamente estar em espaços subalternizados, no sentido de ser a moça que limpa o banheiro da escola, por exemplo. Mas, se ela não tiver essa experiência, vai ser mais alguém para reproduzir e estranhar quando encontrar uma coordenadora negra, uma professora, uma intelectual… Numa sociedade como a nossa, em que a maioria da população é negra, o estranhamento deveria ocorrer se vamos a um espaço e não encontramos pessoas negras.

Sonia Rosa: “Escrever para crianças não é mais fácil, mas é mais delicioso. É o passaporte para ficar perto delas. Tem coisa melhor do que isso?” Foto: Arquivo pessoal

“O principal desafio é o autor entender que ele não pode escrever para a criança que ele foi. Temos que escrever para essa criança de hoje. Para isso, é preciso que estejamos perto dela, de coração aberto para ouvi-la.”

NEm sua opinião, qual o papel da família na criação de uma criança negra?

SO de fortalecimento dessas identidades. Que a família não duvide da beleza de ser o que é. É importante apresentar essas histórias, bonecas pretas, fortalecer a diversidade, exigir o respeito e a dignidade. Esse não é o primeiro livro em que trago uma família negra. Já havia feito isso em O menino Nito, meu primeiro livro publicado. Zum Zum Zumbiiiiiiii é outro exemplo. É uma história em que a mãe está fazendo bolo e o pai brincando de pião com o filho. É um domingo, então a família está arrumando a mesa, estendendo uma toalha para receber esse bolo. Enquanto ele assa, a mãe está com a criança no colo explicando o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Estou falando dessas famílias negras e desse pertencimento. Não é preciso mentir sobre os preconceitos e dizer que está tudo bem, mas trabalhar o afeto, o fortalecimento das identidades, a união. Fazer a criança ver que não está sozinha, que somos fortes, inteligentes e bonitos. Assim, quando ela ouvir o contrário, estará fortalecida dentro de sua essência. À medida que ela for crescendo, vamos fazendo as pontuações devidas.

NOs seus livros fazem parte de bibliotecas por todo o Brasil. Uma criança do Sul do país provavelmente lerá a sua história de maneira diferente em relação a outra da região Norte. Como fazer uma literatura que converse com crianças oriundas de contextos tão diferentes?

SEscrevo para as infâncias, no plural, e os meus livros têm o particular da diversidade racial presente em protagonismo. Uma criança negra do Sul do país, que não encontre pares em seu entorno, vai se ver representada nos livros que escrevo. A criança branca terá a oportunidade de assistir, entender e tomar ciência desse amor que vivem os personagens nas relações ficcionais criadas por mim e por outros autores dessa linha. Quando ela estiver ao lado de uma criança negra, o estranhamento será menor porque ela já tem essa experiência dentro do livro. O meu desejo é, em última instância, minimizar o racismo que as crianças podem acabar reproduzindo. Trata-se de um compromisso e uma responsabilidade.

“Nunca permitamos que a criança seja silenciada, que não se expresse ou não possa viver plenamente dentro da sala de aula. A criança precisa ser acolhida.”

NSua trajetória profissional tem vivências nas áreas da educação e da literatura infantil. Como as duas áreas, juntas, podem contribuir para o desenvolvimento da criança?

SAtualmente, temos a Lei 10.639 como uma grande aliada no campo da educação, em que temos que trazer as literaturas infantis com respeito às infâncias para formarmos crianças na perspectiva do letramento racial. Minha atuação como educadora sempre valorizou, respeitou e inseriu a criança negra como protagonista. Como escritora, foi preciso entender que o livro infantil também informa. Não que essa seja a sua função precípua. A função da literatura é pensar sobre a vida e a existência e ampliar o seu conhecimento de mundo. Não tem que ensinar nada. Mas, inevitavelmente, aprendemos porque as literaturas, infantis ou não, são um espaço de aprendizagem. Nas literaturas para as infâncias há uma preocupação maior. Daí a atenção dos autores para com o texto e dos ilustradores para com as imagens. Como educadores, não permitamos que nenhuma criança se sinta desconfortável, diminuída ou preterida por causa de uma história ou de uma fala infeliz de uma colega, por exemplo. Nunca permitamos que a criança seja silenciada, que não se expresse ou não possa viver plenamente dentro da sala de aula. A criança precisa ser acolhida. É necessário que os professores tenham uma formação em serviço, pautada na lei. E que a lei seja efetivada para que eles tenham um olhar apurado para entender que o racismo existe, está entre nós e que a escola é um espaço onde o racismo atua de uma forma muito perversa.

NAs novas tecnologias trazem mais possibilidades de produção criativa em termos de interatividade, por exemplo. Ao mesmo tempo, o número de leitores no Brasil vem caindo a cada ano e é perceptível que as crianças começam a mexer em smartphones, tablets e computadores cada vez mais cedo. Você considera as novas tecnologias uma ameaça para a literatura infantil?

SAcredito que elas chegam para somar. Nesta pandemia, estamos percebendo o quanto a tecnologia nos ajudou a não enlouquecer. É a possibilidade que temos de falar com as pessoas e assegurar nossa saúde mental. Sou muito simpática à ideia do livro físico, um objeto que a gente pega, cheira, sente. Mas não acho que a presença do digital seja excludente. São plataformas diferentes, e que se somam. Temos que estar alinhados com a contemporaneidade e entender essas diversidades. Já tenho alguns livros que as editoras, além do papel, lançaram digitalmente. Isso não me afetou. Se vale um recado, acho que podemos falar com a criança que o livro também é muito bom. No livro de literatura infantil, cada página ilustrada é como se fosse uma obra de arte. É muito diferente da experiência do digital. Além disso, a criança já vive no digital para tantas outras coisas. Pelo menos na hora da história, que ela possa fazer isso de uma forma off-line. O livro tem o seu valor. 

NOs autores de livros infantis, em geral, são pessoas adultas que escrevem para crianças. Qual o principal desafio ao produzir para um público de idade tão distante?

SO principal desafio é o autor entender que ele não pode escrever para a criança que ele foi. Temos que escrever para essa criança de hoje. Para isso, é preciso que estejamos perto dela, de coração aberto para ouvi-la. Ela é diferente da criança de dez anos atrás, que, por sua vez, é diferente da criança de vinte ou trinta anos antes. Acho estranho quando a pessoa escreve para crianças e não está entre elas ou não tem experiência com elas. Fica muito difícil. No fim do primeiro ano do meu mestrado, criei um grupo para falar sobre esses saberes e acabei entrando em contato com gente que estava na ativa na educação infantil. No final da história, aquele grupo de estudos se ampliou para um trabalho in loco numa escola-creche aqui no Rio, e estou lá desde o final de 2018. Representa, para mim, a oportunidade de estar num espaço de crianças. Eu, professora aposentada, retornei para entender essa criança de verdade. Estava morrendo de saudade de estar ali no cotidiano, vendo as crianças brincando, aprendendo, lendo. É uma alegria. E tudo isso serve de inspiração para escrever.

NVocê parece gostar muito de escrever para crianças. Em que momento se separa o trabalho do lazer? Você escreve no tempo livre ou prefere estabelecer um horário de trabalho?

SNão tenho essa disciplina. As histórias me tocam, me afetam e me tomam. E eu compartilho. Coloco no papel e, depois, torno público. Escrevi muitas histórias para os meus filhos, quando eram pequenos. Estou com uma história para sair agora que fiz para a minha sobrinha-bisneta. Não tenho uma disciplina de escrita, eu me deixo ser afetada. Por exemplo, escrevi uma história chamada Alice vê. Estive num evento e percebi uma criança de nove meses olhando a festa. Fiquei encantada vendo o olhar dela e criei a história. É desse jeito. Em outra oportunidade, fui a uma comunidade quilombola no Maranhão para participar da inauguração de uma biblioteca. A cerimônia contou com o tambor de crioula como uma apresentação cultural local. Fiquei louca com o tambor. Quando cheguei em casa, escrevi É o tambor de crioula!, sobre essa experiência. Às vezes não é a gente que vai atrás da história, mas a história que vem atrás da gente. Enquanto o almoço não fica pronto…, da mesma forma, é uma coisa que aconteceu, fazia parte do meu cotidiano com os meus filhos. Geralmente acontece assim.