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Literatura de quem e para quem?

Escolha de autores e temáticas negra e indígena, assim como distribuição voltada para estudantes com mais alta vulnerabilidade social são algumas premissas do programa Leia para uma criança


Os alunos José Matheus Rodrigues Silva e Pedro Ivo Rodrigues Silva recebem kit com livros: ação do programa Leia para uma criança com a secretaria municipal de Assaré (CE). Foto: O Canto da Patativa

Por Afonso Capelas Jr., Rede Galápagos

Na cidade de Assaré, sertão do Ceará, a 470 quilômetros de Fortaleza, há uma instituição chamada O Canto da Patativa, que cuida de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Um dia essa entidade inscreveu-se no programa Leia para uma criança, do Itaú Social, para receber livros infantis a fim de incentivar a leitura entre as crianças e os jovens assistidos e as suas famílias. Alguns meses depois, a organização recebeu centenas de exemplares de livros que foram utilizados em práticas de leitura. Assim foi também em Suzano, no interior paulista, onde a Secretaria Municipal de Educação havia feito o mesmo: estabeleceu, em fevereiro de 2019, uma parceria com o Itaú Social por meio do programa Melhoria na Educação e recebeu milhares de kits de livros para distribuir nas escolas da rede de educação infantil de ensino e em mais 20 creches comunitárias. Em 2020 chegaram mais kits de leitura, para alegria das crianças e das famílias.

Desde 2010 o programa Leia para uma criança tem contemplado estudantes matriculados nas redes públicas de municípios considerados vulneráveis do ponto de vista socioeconômico, além de bibliotecas e organizações da sociedade civil (OSCs). Em 2020, o programa propôs um edital, para os livros da edição 2021, que considerasse a representatividade dos povos afro-brasileiros e indígenas, tão importantes para a formação leitora de crianças brasileiras. Levar em conta os dados sobre a desigualdade social brasileira e saber para qual criança ou família se deve priorizar a entrega dos livros é um dos focos do programa Leia para uma Criança — e um dos pilares de sua distribuição focalizada. A partir de 2021, a distribuição do material foi direcionado exclusivamente para instituições como escolas e creches públicas, OSCs e demais equipamentos públicos que garantem os direitos de crianças de zero a seis anos.

Representatividade e identidade
Em 2021 os livros trazem literatura indígena e negra com os títulos Os olhos do jaguar, de Yaguarê Yamã, com ilustrações de Rosinha, e Enquanto o almoço não fica pronto…, de Sonia Rosa, ilustrado por Bruna Assis Brasil. Priorizando narrativas que dialogam com as realidades de crianças vulneráveis, incluindo noções de representatividade e de identidade, relevantes na primeira infância, o edital reflete o aprendizado que o programa Leia para uma criança vem amadurecendo nos últimos anos. Sua construção se deu a partir da interação com vozes representativas nessa temática.

Em 2020 o Instituto O Canto da Patativa, em Assaré, recebeu 448 kits de leitura para crianças. “Esses pacotinhos do saber, como chamamos os kits, são fundamentais pois valorizam a autonomia intelectual e social motivando e desafiando as crianças à capacidade de transformar e compreender o contexto em que vivem”, conta Kelly Rodrigues, presidente da instituição. O Canto da Patativa foi criado em 2004 em Assaré, cidade do interior cearense com altos índices de vulnerabilidade entre crianças e adolescentes. Hoje o instituto atende anualmente 517 jovens matriculados na rede municipal de ensino. O instituto foi reconhecido com vários prêmios — inclusive o Prêmio Brasil Carinhoso, da Unesco. “Nosso projeto tem alcançado os seus objetivos, mas ainda há muitos jovens que vivem em situação de risco socioeconômico, por isso continuamos nossos trabalhos, mesmo sem muitos recursos financeiros, ainda mais agora com os impactos da pandemia”, diz Kelly. 

“Alegria radiante”
Os jovens atendidos pelo instituto de Assaré receberam dois títulos do kit enviado pelo Itaú Social: A visita, da escritora alemã Antje Damm, e Com que roupa irei à festa do rei?, de Tino Freitas. O primeiro conta a história de Elise, uma senhora solitária e amedrontada cuja vida recupera as cores com a ajuda do menino Emil e seu aviãozinho de papel. Já o segundo livro foi inspirado na famosa história de Hans Christian Andersen A roupa nova do rei. “A leitura abre portas para um mundo mágico, de possibilidades e fantasias. O hábito auxilia a criança a desenvolver sentimentos, imaginação e emoções de maneira significativa. Com tantos atrativos no dia a dia, especialmente com o avanço da tecnologia, é recorrente a falta de curiosidade em pegar um livro para ler. Mas isso não significa que esse hábito não possa e não deva ser incentivado”, acredita a presidente da organização. Ela enfatiza a importância de ler com e para as crianças. “É um momento de extrema conexão entre a criança e o adulto. Além do conteúdo transmitido há troca de olhares e contato afetivo importantes desde os primeiros anos de vida, mesmo que os pequenos ainda não compreendam o significado das palavras.”

A reação das crianças assareenses ao receber os kits de leitura do Itaú Social foi estimulante, de acordo com Kelly Rodrigues: “A alegria era radiante. Recebemos os mais sinceros e belos sorrisos naqueles rostinhos, pois dessa vez eles estavam levando para casa aquele ‘pacotinho do saber’. Havia muito tempo eles nos pediam para levar para casa algum livro do acervo da nossa sala de leitura, mas a quantidade ainda era reduzida em relação ao número de crianças beneficiárias”.

Crianças durante contação de histórias em Assaré (CE): “A leitura abre portas para um mundo mágico, de possibilidades e fantasias”, destaca Kelly Rodrigues, presidente da organização social O Canto da Patativa. Foto: O Canto da Patativa

Parceria com as famílias
Em Suzano, na região metropolitana de São Paulo, a receptividade das crianças não foi diferente na rede de ensino infantil municipal, inclusive com a presença dos pais em sessões de contação de histórias. Eles foram orientados pelos professores sobre o uso e as vivências que deveriam ser valorizados na leitura dos livros para suas crianças. Na primeira remessa, no final de 2019, a Secretaria Municipal de Educação recebeu 17 mil kits literários com edições exclusivas de Leo e a baleia, de Benji Davies, e O tupi que você fala, de Claudio Fragata. Os livros foram distribuídos no ano letivo de 2020 para mais de 14.300 alunos de zero a seis anos de todas as escolas e creches municipais. “As famílias foram grandes parceiras na pandemia. A partir de suas possibilidades e orientadas pelo professor, foram criados ambientes acolhedores para que a criança ouvisse a história e mergulhasse nela criando um momento mágico para todos, família e crianças, por meio da contação de histórias”, descreve Maria Lucia Garijo, assistente técnica de educação infantil da Secretaria Municipal de Educação de Suzano. Na Creche Comunitária São José Núcleo I o enredo do livro do autor Claudio Fragata, O tupi que você fala, foi contado por uma auxiliar de desenvolvimento infantil caracterizada como indígena. “A performance profissional dela nos deixou muito felizes”, relembra Maria Lucia.

Na Escola Municipal José Braz Neto os livros foram entregues às famílias em clima de alegria. Mayara Zavanela, mãe do pequeno aluno Lorenzo, disse que o menino gostou muito da história do livro Leo e a baleia. “Ele diz que é a história do peixinho da vovó. Lorenzo gosta muito de animais e se diverte com toda história que trate do tema.” Em 2020 a Secretaria de Educação de Suzano também recebeu os livros A visita e Com que roupa irei à festa do rei?. “As crianças receberam os livros de braços abertos e o trabalho de orientação dos professores rendeu bons frutos”, afirma a assistente técnica Maria Lucia Garijo. “Isso é duplamente positivo nestes tempos em que o recolhimento e a empatia são palavras-chaves para tornar a pandemia menos dolorosa.”

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