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Boas lições

Laços fortes pela educação

Quando a escola, a família e a comunidade se aproximam, quem ganha são os estudantes. Esse é o tema de uma das tecnologias educacionais implementadas no município de Paulista, em Pernambuco, e disponível para todo o país


Judite Dultra, co-coordenadora da Tecnologia pela Avante, e a consultora Sonia Bandeira conversam com as famílias das crianças da creche Tio Roberto sobre a relação entre escola e família. Foto: @ Arquivo SME de Paulista

Por Maggi Krause, Rede Galápagos, São Paulo

15 de maio de 2020 — Dia da Família. Na #Família Conectada, da Secretaria Municipal de Educação de Paulista, município da região metropolitana do Recife, PE, começaram a pipocar fotos. “Soltamos uma moldura virtual e convidamos a colocar uma imagem da família no Instagram. Foi um sucesso, com adesão acima do esperado! Resolvemos propor atividades virtuais e até os encontros por esse canal de comunicação”, conta Valdenize Honório, a Val, então responsável pela articulação comunitária na secretaria.

O momento que ela descreve aconteceu em plena pandemia, mas o estreitamento das relações entre as famílias e a educação municipal já fazia parte das estratégias desde 2018. “Era como se no início houvesse uma muralha de separação entre comunidade e escola e esse muro fosse ficando mais baixinho; já dava para enxergar de um lado para o outro.” O projeto evoluiu de Escola de Pais para Escola da Família e, por causa do fechamento das unidades escolares, tornou-se #Família Conectada. As antigas reuniões de pais que tratavam de informes gerais, disciplina e avaliações deram lugar à proposta de escuta das famílias. No modo virtual, a participação só cresceu, reunindo de 80 a 120 pessoas pelo Google Meets.

O Projeto Escola da Família encontrou terreno fértil, nesses tempos pandêmicos, para fomentar o diálogo, o acolhimento, a solidariedade e a integração. O número de famílias engajadas, o teor dos diálogos, as conexões estabelecidas e as ações desencadeadas são aspectos que dimensionam o alcance e a efetividade da iniciativa.

Trecho do artigo “Diálogo e acolhimento: o Projeto Escola da Família e a construção de novas relações comunitárias no contexto pandêmico”, publicado na Revista do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

No meio desse caminho, a disposição da secretaria para a temática ganhou fôlego com a chegada da Avante, organização da sociedade civil (OSC) que trabalha com educação e mobilização social. “Estávamos fazendo de um jeito intuitivo a aproximação com a comunidade e eles trouxeram mais qualidade, nos levaram a organizar o trabalho, planejar ações, quantificar, qualificar, apresentar dados aos gestores e à sociedade”, explica Val. A Avante foi convidada pelo Itaú Social para construir a tecnologia educacional Fortalecimento da Relação Escola, Família e Comunidade, disponível no site Melhoria da Educação. “Quanto mais próximos e em sintonia essas três estiverem, mais a criança será beneficiada. A escola precisa ter abertura e buscar essa parceria, com uma atitude de escuta para entender as circunstâncias da família e reconhecer os esforços das famílias para educar seus filhos”, comenta Sonia Dias, coordenadora de implementação municipal do Itaú Social. 

O primeiro seminário presencial, que apresentou as intenções do Melhoria da Educação com essa tecnologia educacional, em 2019, lotou o auditório de uma faculdade com representantes da rede municipal de educação, famílias, vereadores e lideranças locais. “Dali dava para medir o interesse das pessoas. Nos encontros mensais na secretaria de Paulista cada vez havia mais servidores. Vieram os que atendiam crianças com deficiência, cuidavam de transporte, alimentação… era um pessoal entusiasmado, cada um trazendo boas contribuições de sua área”, ressalta Ana Luiza Buratto, vice-presidente da Avante.

A organização considerou estratégico fazer um diagnóstico amplo sobre as famílias, mas não havia dados suficientes sobre elas. A secretaria mobilizou as escolas e, com muitos questionários preenchidos, conseguiu um panorama das condições socioeconômicas e a visão das famílias sobre a escola. “A tecnologia também teve outro ponto-chave: ela deu voz aos estudantes”, conta Emanuel Souto, secretário executivo em Paulista entre 2017 e 2020, responsável pelas políticas pedagógicas e pelo desenvolvimento educacional. Nos encontros promovidos, eles se queixaram de forma contundente. “Em resumo, ouvimos dos estudantes o seguinte: ‘Somos os últimos a ser consultados’.” 

As informações levaram a secretaria a traçar políticas prioritárias. A orientação imediata para as escolas foi abrir canais de escuta para toda a comunidade. Em segundo lugar, criaram uma secretaria interativa, aberta para conversar com famílias e estudantes. Por último, incentivaram a organização de grêmios nos anos finais do ensino fundamental. A acolhida aos estudantes foi acrescentada na tecnologia educacional pela Avante. Quem acessar a tecnologia perceberá que a formação dos técnicos da secretaria é estratégica e a cereja do bolo são os encontros para estimular a participação de famílias e estudantes. No meio disso é preciso ter um plano de ação que leve as escolas a construir condições de mobilização social. “Ter uma comunidade participativa na escola é ainda mais importante em lugares violentos e vulneráveis, onde todos se beneficiam se um ajudar o outro”, resume Ana Luiza.

Envolvida e em defesa da escola pública

“Eu caio e ressurjo das cinzas, mas, quando me levanto, sou uma onça!”, assim Daniela Castilhos, mãe de Lucas (12 anos) e Esther (10 anos), descreve sua atitude diante das adversidades. Uma delas — a demissão do marido e um período sem renda que a levou até a entrar no Bolsa Família — resultou na decisão de transferir os filhos da escola particular para a pública. “Comecei a entender e a interagir mais com a realidade da escola pública, das famílias, a compreender as atitudes”, diz ela, que sempre fez trabalho voluntário para crianças e adolescentes e está no final da graduação em serviço social. O marido voltou ao antigo emprego em 2020, mas ela manteve as crianças na Escola Municipal Edison Gomes do Rego, em Paulista, PE. Foi lá que a professora Jacilene, especialista em educação especial, percebeu as potencialidades de Lucas, que tem déficit de atenção e hiperatividade, e o colocou para falar sobre planetas em frente à turma. “Ele estava repetindo o terceiro ano, que já tinha cursado na particular, e foi graças a essa professora que, em seis meses, meu filho aprendeu a ler”, conta Daniela, que encontrou na educação pública profissionais com mestrado ou especialização. Segundo ela, falta um trabalho com a autoestima de alunos e de pais da escola pública, que, em vez de se envergonharem, deveriam se orgulhar. “Aquele discurso habitual, que é dizer ‘estudei na escola pública, mas consegui vencer’, que enfoca o esforço pessoal, é péssimo, só desmerece a instituição.” Daniela participa ativamente como conselheira no Edison Gomes (leia no texto sua atuação para manter a escola no prédio reformado em 2021)

Estreitar as relações favorece a aprendizagem
O estudo Caminhos do Direito de Aprender, do UNICEF, publicado em 2010, analisou redes municipais que conseguiram crescimento expressivo no Ideb, de tamanhos diferentes e em vários estados. Um ponto em comum entre elas era a comunidade educativa, em que todos colaboravam para viabilizar e favorecer a aprendizagem dos estudantes. “Estreitar a relação entre escola e comunidade ainda é desafiador, pois existem entraves por parte da escola. Mas, se a gestão compartilha com a família o compromisso e a responsabilidade de aprendizagem, as decisões conjuntas só fortalecem a educação”, diz a professora Léa Ribeiro, que até o final de 2020 era coordenadora de articulação comunitária e apoio discente na secretaria de Paulista. Segundo ela, a escola se fecha por medo de mostrar a realidade ou de ter os pais participando e organiza reuniões cheias de “pedagogês”, em que os familiares se intimidam e têm receio de dar opinião. Ana Luiza, da Avante, nota que ainda há uma visão dos educadores que desqualifica as famílias, consideradas desestruturadas e com pouco estudo. “A maior parte delas é matrifocal. Essa é uma característica brasileira e nordestina forte e que ainda gera preconceito.” Essa visão diminuiu durante a pandemia, pois a escola teve que chegar até as famílias e tomar consciência das diferentes realidades e vulnerabilidades.

“Cada vez mais precisamos entender que, se colaborarmos, ganharemos força como sociedade civil”, diz Daniela Castilhos, eleita uma das integrantes do conselho escolar da Escola Municipal Edison Gomes do Rego, em Paulista (leia mais sobre a relação dessa mãe com a escola no quadro a seguir). A escola, que atende mais de 500 crianças do primeiro ao quinto ano, mudou para um prédio grande e acessível no início de 2020. Desde que matriculou os filhos na educação pública, Daniela participa das reuniões de pais e dos encontros e conversa com as gestoras e a secretária da escola, com quem estabeleceu vínculos de respeito e amizade.

Formação conduzida pela Avante com gestores e supervisores da rede de Paulista sobre a relação escola, família e comunidade e a relevância da participação e da mobilização social Foto: Arquivo SME de Paulista

Em 2021, a mudança na administração municipal trouxe ameaças à escola. Alegando razões financeiras, o novo comando da prefeitura pretendia realocar para o edifício reformado da Edison Gomes um batalhão da radiopatrulha militar e mudar a escola para uma casa adaptada. Daniela se uniu a outras três mães e foi à Secretaria de Educação. Sua luta pela defesa dos direitos de crianças e adolescentes a levou a uma reunião no Tribunal de Contas, à qual compareceram também representantes do sindicato dos professores. “Recorri ao ECA, aos direitos dos cidadãos e à lei orçamentária e falei que após a pandemia as crianças não teriam estímulo para voltar para a escola se ela estivesse em uma casa adaptada. A prefeitura percebeu que não iríamos desistir”, relembra. A mobilização surtiu efeito: a escola permaneceu no prédio reformado.

Valdenize Honório, a Val, que foi responsável pela articulação comunitária na secretaria no início do programa Escola da Família: semente que está dando frutos. Foto: imagem de vídeo do site Melhoria da Educação

Quem está feliz com a atuação dos pais de Paulista é Val, que hoje chefia o departamento de gestão escolar da Secretaria Municipal de Educação de Olinda. “Acompanho pelas redes sociais e vi que estão organizados, cobram da secretaria e outros órgãos quando veem desatendidas as necessidades dos estudantes.”

Ela diz que instrumentalizar as famílias para reclamar por direitos não era intenção direta do projeto. “Mas é inevitável; enxergo isso como uma semente plantada pelo programa Escola da Família.” Escrito com Emanuel e com Léa, a educadora assina um artigo sobre o projeto, publicado na Revista do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em que eles contam a evolução e os desdobramentos da experiência.

Léa lamenta que as mudanças na política municipal (a gestão muda a cada quatro anos) ameacem a continuidade das ações na educação. Diante disso, só resta torcer para que as famílias e os educadores não abandonem as esferas de diálogo construídas com tanto esforço. Ana Luiza, da Avante, tem uma lente apurada sobre a situação. “Nosso trabalho é convocar vontades, emoções, fazer as pessoas se juntarem, visando mudanças, mas somos instituições que passam; quem fica são os cidadãos.”

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