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Notícias Dez perguntas para

K.K. VERDADE – “Eu acredito no ativismo coletivo”

Para K.K. Verdade, os direitos e os serviços básicos são frutos de uma demanda da comunidade e da pressão que ela pode exercer


K.K. Verdade: do interior do Rio Grande do Sul à liderança de uma das mais importantes fundações do país dedicada a investir recursos no fortalecimento do protagonismo feminino e no enfrentamento à violação dos direitos de meninas e mulheres. Foto: Acervo Fundação Elas

Por Alecsandra Zapparoli, Rede Galápagos, São Paulo

Aos 16 anos, K.K. Verdade fugiu de sua casa em Santana do Livramento, no Interior do Rio Grande do Sul, com poucas certezas sobre si mesma, mas carregou com ela (além de uma pequena mochila) sua indignação com injustiça, um traço de personalidade marcante desde sempre. Estava na adolescência, reconhecendo-se como lésbica, em um contexto muito conservador, onde não havia espaço para diversidade ou diálogo. Resolveu ir para o Rio de Janeiro apostando em uma hollywood tropical, influenciada pelas novelas da época. Desbravou sozinha um Rio não tão lindo como os cenários de Aguinaldo Silva ou de Glória Perez. De um dia para outro, teve de arrumar lugar para trabalhar e dormir. O primeiro emprego como auxiliar de limpeza veio após sete horas numa fila em um restaurante no centro do Rio. Depois foi caixa, estoquista, entre outras funções, todas sem carteira assinada. Assédios dos mais variados tipos eram comuns na sua rotina. Ou seja, a realidade estava mais próxima de A Rainha da Sucata (Silvio de Abreu) do que Em Família (Manoel Carlos). A partir dessa experiência dolorosa resolveu buscar apoio em uma OSC (organização da sociedade civil) de direitos humanos e LGBT. Ali, ampliou seu universo de possibilidades tendo acesso à informação. Ali, aprendeu a exigir os seus direitos. Ali, se empoderou e se tornou ativista para contribuir com a sociedade. 

Hoje, aos 40 anos, formada em gestão pública e doutoranda em ciências sociais, K.K. é coordenadora-executiva do Fundo Elas, organização que há 20 anos apoia o avanço das mulheres no Brasil. Seu trabalho principal é fazer parcerias e mobilizar recursos no país e no mundo para fortalecer projetos que invistam na prevenção de violência contra mulheres, no desenvolvimento da autonomia econômica e na equidade étnica e racial. Com uma dúzia de investidores institucionais e doadores individuais, o Fundo Elas apoia cerca de 90 instituições por ano, por meio de edital, com recursos em torno de 50 mil reais cada. Pelo trabalho e inspiradora trajetória, K.K. Verdade foi uma das convidadas especiais do Seminário Internacional de Avaliação. O evento, neste ano em sua primeira edição on-line, é promovido pelo Itaú Social, Fundação Roberto Marinho, Laudes Foundation, Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV) e Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE). No seminário, realizado nos dias 16 e 17 de setembro, ela participou de um debate sobre o tema “Equidade e avaliação no terceiro setor brasileiro e americano”. É possível acessar a roda de conversa no link no fim desta entrevista.

NNotícias da Educação – Como surgiu o K.K Verdade? E com o perdão do trocadilho, é verdade que o seu sobrenome é Verdade?

KK.K. Verdade – K.K. é para neutralizar o gênero. Acredito que não é necessário investir em marcar o gênero homem ou mulher. Em geral, o sistema quer definir quem é homem ou mulher para conceder direitos em função disso e consequentemente contribui para a desigualdade de gênero. Sim, meu sobrenome é Verdade. Não posso contar lorotas (risos).

NVocê trocou o Rio de Janeiro por Brasília por dez anos. Estar no centro do poder fez diferença na sua carreira?

KSim, poder conviver de perto com os poderes da República e transitar pelo Congresso e também no Supremo e Executivo foi um aprendizado muito gratificante. A política mudou a minha vida, apesar de eu nunca ter sido filiada a partidos políticos. Eu acredito muito na força dos movimentos sociais e no ativismo coletivo, difuso. Não acho que seja uma característica tão importante na política esse personalismo, essa necessidade de buscar uma figura apenas como referência. Eu acredito na busca coletiva. É por isso que estou no ativismo há muito tempo. A primeira OSC que eu frequentei em Brasília foi a Estruturação. Eu me tornei voluntária, auxiliando na limpeza. Passei a frequentar as reuniões, me senti cidadã e achei que poderia contribuir com a sociedade. Ali fundei outra organização com um grupo de mulheres lésbicas, a Coturno de Vênus. Foi a primeira associação lésbica feminista de Brasília, que hoje já tem mais de quinze anos.

NDe que forma você acha que a desigualdade de gênero se manifesta na educação?

KA desigualdade de gênero afeta todas as dimensões da sociedade, da organização social, porque é uma premissa de que as mulheres seriam diferentes, inferiores. O tema da educação é uma das primeiras restrições que nós temos registrada na história do Brasil Colônia. Quando os jesuítas invadem o território que hoje é o Brasil, eles começam a catequizar os índios e a ensinar o idioma para os indígenas, mas fazem uma divisão de gênero que até então não tinha sido identificada nas tribos e na população indígena local. Eles ensinam só os homens. As escolas que passam a existir neste período colonial, localizadas nas vilas e cidades, eram voltadas para o público masculino, visando à formação de uma elite colonial culta e religiosa. Tanto as mulheres brancas, ricas ou não, como as negras escravas e as indígenas não tinham acesso à leitura e à escrita. A primeira restrição começa aí.

NE a questão racial?

KO Brasil tem essa questão de raça porque ele foi desenvolvido economicamente e socialmente por meio da escravidão baseada na cor das pessoas, que foram pessoas sequestradas na África e trazidas para o Brasil, negras. Foram 300 anos de escravidão no Brasil e nós temos muito menos tempo de vida fora dessa lógica de escravidão. Então o Brasil tem o método de organização social que é absolutamente racista. As organizações sociais ainda têm uma tendência racista em função de um sistema escravagista, que só é possível em uma lógica racista. Em qualquer estudo, quando nós pegamos na média da população (200 milhões de pessoas) e traçamos  um risco – e você compara a população branca e a população negra (incluindo na população negra pretos e pardos, como é a classificação do IBGE) – você tem um outro Brasil. Um Brasil branco com IDH comparável a países desenvolvidos e um Brasil de população negra com IDH baixíssimo, comparável aos menos desenvolvidos do planeta. Então a média geral do Brasil não é tão interessante de se ver porque é distorcida. Então, como você faz? Com a dificuldade de gênero no Brasil você tem que pensar em raça, em mulheres negras, e quando você identifica isso, você vê que em termos de mulheres negras na educação, elas não têm os mesmos anos de escolaridade que as mulheres no todo do cálculo. Elas têm menos anos de escolaridade, menos anos que os homens, inclusive. Vai caindo por terra toda essa tese de desenvolvimento. Tem um gap muito grande ainda de desigualdade de gênero e raça na educação no Brasil.

“Investir na mulher é um mecanismo inteligente de desenvolvimento local. Ela não têm renda apenas para si. Vai utilizar na sua família e dentro da comunidade onde vive”

NVocê acredita que essa equidade é só uma questão de políticas públicas ou também de comportamento social?

KPolítica pública é um papel que fica ali escrito. Quem faz a política e transforma em realidade são as pessoas. Se a própria comunidade não pressionar para falar da importância de ter uma UPA (unidade de pronto atendimento) funcionando, um hospital, escolas comunitárias, abrigos, estes serviços acabam fechando. É um exercício necessário da comunidade toda. Os direitos e os serviços básicos para uma sociedade não brotam da bondade de alguém ou de algum representante político. Eles são frutos de uma demanda da comunidade e da pressão que ela pode exercer.

NA crise causada pela Covid-19 ampliou e evidenciou as desigualdades. Como está vendo este momento?

KComo retrocesso, infelizmente. A Covid vem para escancarar o nível de desigualdade brasileira. Essa desigualdade aparece no acesso a serviços de saúde, aos programas de assistência social, a empregos… A pandemia agrava ainda mais um sistema que já é falho. Quem são essas pessoas mais marginalizadas? O que significa ser marginalizado no Brasil? Marginalizado no Brasil significa estar na margem do estado, dos serviços públicos. Quais foram as pessoas que perderam mais empregos? Tem uma multidão de mulheres que perderam o emprego, uma multidão de trabalhadoras domésticas, por exemplo, que ficaram sem renda por um longo período. Isso impacta diretamente em toda a sociedade porque as mulheres não têm renda apenas para si mesmas. Investir nas mulheres ou conseguir renda para as mulheres significa que elas vão utilizar na sua família, dentro da comunidade onde ela vive. Então investir na mulher é um mecanismo inteligente de desenvolvimento local e da comunidade. A pandemia fez com que o estado reduzisse o investimento em outras políticas públicas para poder garantir hospitais e outros programas de distribuição de renda e de insumos para a população mais pobre. E aí começou a faltar tudo. Vimos, por exemplo, a violência doméstica aumentando. As organizações estão de um lado apoiando as iniciativas de doação de recursos, de alimentos, de insumos inevitáveis para o combate aos efeitos da pandemia nas comunidades onde o estado tem dificuldade de chegar. Por outro lado, é importante apoiarmos as organizações que estão justamente naquele exercício de controle social. Elas estão ali para dizer: “O abrigo daqui fechou! Precisamos abrir!” Elas têm que pressionar o município e o estado para voltar a disponibilizar aquele serviço que é indispensável para elas. Então elas também precisam de recursos nesse momento.

NAs organizações atuam melhor nas necessidades emergenciais ou na solidariedade para justiça social?

KOs grupos e organizações liderados por mulheres no Brasil e que trabalham exatamente nessa parte de pressão por política pública, por implementação de algumas legislações —- inclusive já garantidas  —  têm muito pouco acesso a recursos. O Brasil tem uma super solidariedade para apoiar coisas de emergência, mas quando é para trabalhar com essa outra parte de direitos e de políticas públicas, nós ainda não temos esse hábito. Nós ainda não desenvolvemos essa importância de trabalharmos algo que é um legado que fica, inclusive para as próximas gerações. E não é só a população que não tem essa cultura, as empresas e as fundações ainda não têm essa cultura. Mas mesmo sem recursos, as mulheres não têm outra possibilidade que não seja exigir os direitos que estão sendo reduzidos.

“Quanto mais os atores da filantropia por justiça social no Brasil investirem em avaliação e em mapear os obstáculos e a reprodução de desigualdade, melhores serão os resultados dos projetos”

NA Elas lançou o edital de 2020 que é focado em organizações lideradas por mulheres. Qual é a importância de ações como essa, especialmente nesse caso, para a capacitação profissional desses grupos?

KA importância é enorme porque há muita burocracia para acessar os recursos disponíveis para a justiça social, que são escassos. As organizações têm que apresentar uma série de comprovações, de experiências e de registros que são onerosos em termos de complexidade e de recursos. Fizemos um edital flexível (a organização não precisa ter um projeto) para ampliar o acesso aos grupos que estão com dificuldade de receber recursos. Fizemos isso especialmente por conta da pandemia. Se para uma organização como o Fundo Elas, que tem 20 anos de atuação no campo, é difícil saber exatamente o melhor caminho a ser tomado, nós precisamos confiar nesse conhecimento local de movimentos liderados por mulheres, que também tem um monte de incertezas. Então ampliamos a nossa perspectiva de confiança, respeitando o histórico de cada uma.

NComo conseguimos avaliar se os investimentos de projetos de políticas públicas aumentam ou diminuem com as desigualdades de gênero?  

KEu acho que uma coisa importante para o campo da filantropia nacional refletir é sobre como não reproduzir a desigualdade que nós estamos enfrentando, seja ela de gênero, de raça ou social. Às vezes, podemos reproduzir essas desigualdades como um financiador. Para começo de conversa, o lugar de apoiador da sociedade civil já te coloca em um lugar de poder desigual, nesse relacionamento entre um apoiador e uma fundação que financie um grupo que está ali. O processo de avaliação para o fundo Elas tem que ser sempre de contribuir com o nosso aprendizado e aprimoramento como instituição, para que consigamos fazer duas operações básicas. A primeira é de mobilizar recursos para os direitos das mulheres e direitos humanos. O segundo é de apoio, distribuição desses recursos de justiça social e apoio para organizações lideradas por mulheres. Quando fazemos avaliação dos grupos que apoiamos, somos parte desse objeto a ser avaliado. Quanto mais os atores da filantropia por justiça social no Brasil investirem em avaliação e em mapear os obstáculos e, digamos assim, a reprodução de desigualdade que estamos sujeitos, melhores serão os resultados dos projetos, mais diversas serão as ideias que conseguiremos financiar, e certamente terá um impacto futuramente de transformação social. Vão ser muito mais potentes, sustentáveis e inclusivos.

NA sua trajetória é inspiradora, cheia de avanços. Você conseguiu avançar na sua questão familiar, que diz tanto sobre a mulher que é hoje?

KHouve muitos avanços sim! Depois que eu me conheci, depois que entrei nessa jornada de viver a vida, de autoconhecimento também, aí sim, reconquistei o meu pai e a minha mãe. Hoje nós convivemos e nos damos super bem, eles me apoiam, me acolheram de forma absoluta e incontestável. E são orgulhosos do fato de terem uma filha lésbica e ativista e que ainda leva muito a sério o tema de justiça e política.