Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca
Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Boas lições

Jovens, potentes e fazendo ciência

Iniciativa aproxima a ciência de dados do cotidiano de estudantes e os estimula a perceber e discutir a própria realidade a partir de estatísticas


Visita à Escola Politécnica da UFBA, em março de 2019: a atividade nasceu para integrar meninas no aprendizado de ciência. Foto: Arquivo Ciência de Dados na Educação Pública

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA)

Aproximadamente 20% da população de Salvador tinha entre 20 e 29 anos em 2010. Naquele momento, mais da metade dos habitantes da capital baiana se declaravam católicos, e um quinto se dizia evangélico. Enquanto isso, a quantidade de estudantes do ensino médio da rede pública era quatro vezes maior que a da rede privada da cidade. Apresentadas dessa forma, essas informações podem soar aleatórias. Entretanto, elas são resultado de cruzamentos de dados do Censo 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em todo o país, e servem como base para o repasse de verbas e o planejamento e aplicação de políticas públicas.

A ciência de dados se dedica a interpretar esses números e entender como eles impactam o cotidiano das pessoas. Após os estudos, são desenvolvidas soluções para questões relacionadas a mobilidade urbana, segurança pública ou acessibilidade, por exemplo. Os problemas chegam com muito mais força às periferias das cidades brasileiras. De acordo com dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o Brasil tem a oitava distribuição de renda mais desigual do mundo. Com isso, as populações de baixa renda sofrem com o transporte público, a violência urbana e a falta de rampas e elevadores, para ficar em alguns exemplos.

As faculdades e universidades se empenham diariamente em encontrar soluções. Porém, a maior parte das pessoas que tinham acesso ao ensino superior e, portanto, ao desenvolvimento das soluções desses problemas, não vivia nas periferias das cidades. Em 2003, seis em cada dez estudantes do ensino superior brasileiro estavam entre os 20% mais ricos da população.

Com base nessa realidade, políticas públicas foram implantadas ao longo dos anos seguintes, e hoje o perfil dos estudantes nas universidades já é um pouco diferente. De acordo com a V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos (as) Graduandos (as) das IFES, realizada em 2018, 70,2% desse público possui renda familiar per capita de até um salário mínimo e meio.

As instituições particulares representam três quartos do ensino superior no Brasil e também passaram por políticas de inclusão. De 2009 a 2018, o percentual de matrículas na rede privada com algum tipo de financiamento ou bolsa saltou de 23% para 46,8%, de acordo com o Censo da Educação Superior 2018, do Ministério da Educação. Só o tempo mostrará o real efeito dessas mudanças. Mas iniciativas como a apresentada a seguir têm resultados que podem ser percebidos a curto prazo.

Transformando exceção em regra
A maceioense Karla Esquerre é doutora em engenharia química, pós-doutora em engenharia socioambiental e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Apaixonada pela ciência de dados, ela contrariou pelo menos duas estatísticas ao longo de sua trajetória. Primeiro, tendo ingressado no ensino superior após um ensino básico todo cursado em escolas públicas. Nos anos 1990, isso passava longe de ser a regra. Ser uma mulher na área da engenharia também é fazer parte de uma minoria. Em 2018, vinte anos após a graduação de Karla, somente 37,4% dos concluintes de graduação nas engenharias eram do público feminino.

A professora Karla Esquerre, da Universidade Federal da Bahia, criadora da iniciativa Meninas na Ciência de Dados, hoje Ciência de Dados na Educação Pública: “Quando trazemos números e estatísticas, os jovens entendem que a cidade pode mudar, e que esse processo de mudança pode ser liderado por vários atores, inclusive eles mesmos”. Foto: Arquivo pessoal

Com toda essa bagagem, ela e o seu grupo de pesquisa, o GAMMA, tiveram a ideia do Meninas na Ciência de Dados, em 2019. Foram contempladas com um edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que tinha o objetivo de atrair meninas para a área das ciências exatas. Em 2020, a iniciativa passou a contar com o apoio do Itaú Social, que, segundo Karla, permitiu a ampliação do público, com a inclusão de mais meninas e de meninos, e da equipe, com a complementação da bolsa de incentivo. Assim, a iniciativa agora se chama Ciência de Dados na Educação Pública.

A professora Karla, coordenadora da proposta, conta que os jovens, muitas vezes, não são apresentados às possibilidades das tecnologias e não percebem quanto elas podem beneficiar a cidade em que vivem. “Quando nos acostumamos a viver numa realidade, não entendemos que ela pode ser diferente”, afirma. E continua: “Quando trazemos números e estatísticas, notamos mudanças históricas na cidade. E aí eles entendem que a cidade pode mudar, e que esse processo de mudança pode ser liderado por vários atores, inclusive eles mesmos”.

Atualmente, cinco escolas de Salvador são contempladas com o projeto. O público-alvo do Ciência de Dados na Educação Pública é o ensino fundamental 2. Ao ser apresentada nas escolas, a iniciativa era rejeitada pelos estudantes, num momento inicial, por causa da imediata associação à matemática, disciplina que geralmente não é a preferida desse público de estudantes. Aos poucos, os alunos vão entendendo e se interessando pelo estudo dos números. Uma das estratégias mais efetivas é relacionar a ciência de dados às mais diversas áreas, abrindo, assim, um leque de possibilidades. Numa dinâmica realizada em uma das escolas, Karla pediu que os alunos adivinhassem a sua profissão. “Eu fui tudo, menos engenheira”, lembra. Para a professora, essa atividade é interessante para que eles percebam que existem outras possibilidades.

Roda de conversa com as estudantes em encontro pré-pandemia: troca de experiências e percepções sobre a cidade, a comunidade e sobre elas mesmas. Foto: Arquivo Ciência de Dados na Educação Pública

As ações já beneficiaram mais de mil estudantes, com feiras de ciências, vídeos curtos, treinamentos e capacitações. Atualmente, 30 alunos e alunas bolsistas têm encontros “de conteúdo e de retomada”, que acontecem às terças e quintas, com duração média de uma hora e quinze minutos. Em razão da pandemia, as reuniões têm acontecido em formato de videoconferência.

Computador e dispositivos móveis também serão a ferramenta pelas quais a sociedade poderá acessar uma das atividades desenvolvidas pelos estudantes. O site (Re)conhecendo Salvador reunirá dados e estatísticas históricas da cidade nas suas mais diversas áreas, como os do primeiro parágrafo desta matéria. O conteúdo é baseado em perguntas feitas pelos próprios estudantes a respeito da capital baiana. Uma contribuição para a cidade que é, da concepção à publicação, fruto da educação pública: o layout e a programação do site estão sendo desenvolvidos por estudantes da UFBA, das empresas juniores de belas artes e de computação, respectivamente. A expectativa é de que o (Re)conhecendo Salvador esteja disponível no início do segundo semestre de 2021. O projeto foi  apresentado no Congresso Virtual UFBA 2021, com uma boa mostra das áreas e dados em estudo.

Trabalhar com alunos de escola pública evidencia a realidade da desigualdade social brasileira. Nos encontros, os estudantes debatem e projetam novidades, mas alguns não têm o acesso ideal a itens tecnológicos considerados básicos, como uma boa qualidade de conexão à internet ou de equipamentos, por exemplo.

“É muito desafiador trabalhar tecnologia com um público de estudantes que têm dificuldade no acesso a ela. Eles assistem às aulas utilizando o celular, que muitas vezes é partilhado com outros membros da família, e alguns poucos têm computadores”, lamenta Karla, que realiza um acompanhamento próximo dos alunos.

Thalita Sena, graduanda no bacharelado interdisciplinar de ciência e tecnologia, apresenta resultados do trabalho feito com estudantes da rede pública de ensino de Salvador: a realidade social é discutida a partir de números, mapas e gráficos. Imagem: Vídeo do Congresso Virtual UFBA 2021

Acreditar
“Ir à UFBA aos 12 anos era maravilhoso. A gente se achava muito”, lembra Carollyne Dourado, aos risos. Hoje dois anos mais velha, ela está no 8º ano do ensino fundamental e, graças ao Ciência de Dados na Educação Pública, sabe que pretende ser programadora. Quando ela começou a ter aulas na Escola Politécnica da UFBA, a iniciativa ainda se chamava Meninas na Ciência de Dados.

Além dos ensinamentos relacionados à tecnologia, Carollyne teve aulas de ciências humanas, que abordaram temas como gênero e raça. Segundo ela, essa combinação de conteúdos foi importante para que contextualizasse o que aprendia nos encontros a partir da sua realidade. “Mesmo aos 12 anos, muitas meninas já pensam que têm que ter uma vida de doméstica, ou ser mães, porque isso é ensinado a nós, desde pequenas. O projeto sempre mostrou que podemos ser mães, cuidar da casa, mas também podemos ser cientistas ou o que a gente quiser”, observa.

Karin de Souza se refere ao Ciência de Dados na Educação Pública de maneira empolgada, ao definir a sua experiência como “magnífica” e dizer que ficou “totalmente fascinada” com o conteúdo e a metodologia. A estudante de 16 anos está no último ano do ensino fundamental, prestes a ingressar no ensino médio. Pretende ser engenheira ou cientista, como a professora Karla Esquerre. Karin relata que “entre as coisas de que mais gosto estão a coleta de dados e as análises que fazemos sobre eles. Com as professoras fica tudo tão fácil de entender que dá até prazer estudar mais”.

Nuvem de palavras obtida diante da pergunta “O que você mudaria na sociedade, se fosse cientista?”: anseio pelo protagonismo social por parte dos jovens estudantes. Imagem: Arquivo Ciência de Dados na Educação Pública

Esses estudantes mostram que têm vontade de mudar o mundo ao redor, como na nuvem de palavras gerada com base nas respostas deles à pergunta “O que você mudaria na sociedade, se fosse cientista?”. Iniciativas como o Ciência de Dados na Educação Pública os incentivam no caminho de pensar soluções. Apenas por meio do investimento em educação básica, um dado persistente e negativo poderá ser, enfim, alterado. De acordo com a Síntese de Indicadores Sociais, publicada pelo IBGE em 2018, somente 36% dos estudantes da rede pública ingressam no ensino superior, contra 79% dos oriundos de instituições privadas. Karin e Carollyne, alunas da Escola Municipal Cidade de Jequié, já até sabem o que pretendem cursar. Isso foi possível porque alguém acreditou nelas e lhes contou quanto podem conquistar.

Saiba mais

Leia mais