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Identidade, conquistas e orgulho

Projeto Ita Legal Saber Disseminar – indicado na campanha do I.R. Cidadão – usa educomunicação para conscientizar adolescentes sobre os seus direitos


Jovens descobrem novas perspectivas no Ceará: nesta foto, feita antes da pandemia, excursão para visitar a capital. Foto: Ita Legal/Divulgação

Por Cley Scholz, Rede Galápagos, São Paulo

No litoral do Ceará, no vale do Rio Acaraú, 204 quilômetros ao norte de Fortaleza, há um paraíso ao qual os povos originários da etnia tremembé deram o nome de Itarema, ou “pedra cheirosa”. Hoje a pequena cidade de Itarema tem 40 mil habitantes e vive principalmente da pesca e da agricultura. A paisagem vem mudando com a chegada de grandes torres de energia eólica e o colorido cada vez mais frequente dos esportes que aproveitam a ventania na beira das praias ao sul de Jericoacoara. Outra mudança importante nos últimos três anos pode ser notada em conversas com adolescentes do município que, hoje, tira do vento energia suficiente para abastecer três cidades do seu porte. Jovens que antes negavam sua identidade indígena hoje sentem orgulho de sua cultura e história.

João Nicolas dos Santos Holanda, de 17 anos demonstra consciência da sua identidade indígena e se mostra disposto a transformar sua própria história. Ele tem se dedicado aos estudos e sonha em ser designer gráfico. Aprendeu muito sobre os seus direitos de cidadão e indígena em um projeto de educomunicação – que utiliza recursos de mídias para a produção de conteúdos educativos –, chamado Ita Legal Saber e Disseminar. “Aprendemos coisas do mundo moderno, como mexer em celular, editar fotos e vídeos e como funciona o mundo da comunicação”, descreve.

A proposta do Ita Legal é estimular a formação de coletivos de adolescentes para ampliar os seus conhecimentos sobre seus próprios direitos, cultura e identidade. O grande interesse dos jovens participantes vem do método utilizado: eles aprendem diferentes técnicas de comunicação – de histórias em quadrinhos e fotonovelas a cartazes e vídeos nas redes sociais – para falar sobre direitos da infância e do adolescente.

Paralelamente, em tempos pré-pandemia ampliavam seus horizontes exercitando a convivência em grupo. Realizavam atividades agora suspensas por tempo indeterminado, como excursões a museus de Fortaleza, visitas a casas de farinha, entrevistas com artesãos da comunidade ou ações em favor do meio ambiente, entre muitas outras.

Desafio na pandemia: ferramentas de mídia para estimular o uso de máscaras. Imagem: Ita Legal/Divulgação

Novo ânimo
A adolescente Francisca Fernanda de Souza, atendida em outro núcleo do projeto, em um assentamento agrário, conta que antes de conhecer o Ita Legal ela frequentava a escola pela manhã e passava as tardes sem fazer nada, quando não estava ajudando seus pais na horta ou em afazeres domésticos. Francisca não possui celular, mas tem acesso à internet e usa o Instagram e o Facebook para postar vídeos que faz com os amigos. “Hoje somos um grupo unido; tenho vários amigos que eu nem conhecia mesmo morando na mesma comunidade”. Ela sonha ser policial ou psicóloga, mas antes disso espera sensibilizar as autoridades para conseguir uma praça na sua comunidade. Seu vizinho Francisco Juesley de Sousa Silva comenta que o Ita Legal lhe deu novo ânimo. “Eu era meio apartado das pessoas, mas conheci muita gente, fiz amizades, viajamos juntos”. Entre as maiores lições, ele diz ter aprendido a enfrentar o bullying e o preconceito, dois exemplos de temas propostos pelos monitores.

Um sonho antigo
Tudo começou por iniciativa da psicóloga Francis Helen Freire de Souza, especialista em gestão com atuação nas áreas de assistência social e direitos humanos. Há dez anos atuando na região do vale do Acaraú, ela conta que percebeu em Itarema um grande potencial para o desenvolvimento de uma iniciativa voltada a adolescentes, especialmente os filhos de pescadores e agricultores assentados.

Ex-integrante do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente, Francis colaborou com a Secretaria Municipal de Proteção Social e Cidadania e com o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente de Itarema para a elaboração de um projeto de educomunicação. Fazer algo que pudesse atrair e ocupar os adolescentes com atividades pedagógicas e culturais era um sonho antigo dos atores na área de políticas para a juventude no município. Isso começou a se tornar realidade quando o Conselho de Direitos da Criança e do Adolescente tomou conhecimento do Edital Fundos da Infância e da Adolescência. Criado pelo Itaú Social, o edital é destinado a selecionar e apoiar ações consideradas prioritárias pelos Conselhos dos Direitos da Criança e do Adolescente.

O nome escolhido – Ita Legal Saber Disseminar – tem o sentido de ser atrativo para os jovens atendidos e também de ensinar noções legais sobre a condição e os direitos constitucionais das crianças e adolescentes. A intenção era desenvolver atividades capazes de socializar informações e disseminá-las de forma interessante, utilizando recursos de mídia. A iniciativa atende 200 adolescentes de famílias de baixa renda, por meio de oficinas de educomunicação nas quais eles produzem conteúdo relacionados à garantia dos direitos de crianças e adolescentes. Sempre há jovens na fila de espera e a prioridade é para os que estão em situação mais vulnerável. As produções dos adolescentes são divulgadas por meio de boletins on-line e impressos, vídeo-reportagens, fanzines, spots radiofônicos, vinhetas, exposições fotográficas, programas de rádio e revistas em quadrinhos.

Com a chegada da pandemia, em março, as atividades presenciais foram prejudicadas, mas as ferramentas de comunicação usadas desde a primeira edição do projeto, em 2019, foram fundamentais para a divulgação de campanhas de esclarecimento sobre o vírus nas escolas e nas comunidades. Uma das campanhas tinha por tema: “Quem usa máscara é herói”. Os monitores enviam desafios para que os jovens produzam vídeos com mensagens para a coletividade. Em tempos de distanciamento social, os jovens que não têm acesso à internet em casa recebem apostilas com atividades educativas que buscam despertar o interesse para temas variados e desenvolver potencialidades. “As ferramentas de mídia nas quais eles se exercitaram passaram a ser essenciais na pandemia”, comenta Francis.

I.R. Cidadão
No Instagram, os vídeos do Ita Legal mostram o resultado de alguns dos desafios propostos, como as homenagens no Dia dos Pais e Dia das Mães, ou comentários sobre a rotina nas comunidades. Um dos jovens mostra como cultivar diferentes espécies em uma horta, enquanto outros explicam como produzir mudas de mamão, bananas e alimentos saudáveis sem o uso de agrotóxicos. Muitos adolescentes precisaram superar o desafio de vencer a timidez diante de uma câmera ou microfone, enquanto outros demonstraram certo talento para as transmissões midiáticas.

“Os debates sobre direitos, acesso à cultura e fortalecimento de vínculos fazem uma diferença muito grande para eles”, comenta Francis. Ela lembra que o Itaú Social está presente em cinco dos sete municípios do Vale do Acaraú, e que as diversas organizações trocam informações e métodos de trabalho. No ano de 2019 a iniciativa recebeu incentivo de R$ 335,9 mil por meio do edital do Itaú Social.

Campanha contra o trabalho infantil: problema que ainda é uma realidade na região. Imagem: Ita Legal/Divulgação

Este ano o orçamento foi de R$ 237,4 mil. Além disso, o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente busca apoio da comunidade, por meio de campanhas para estimular o direcionamento de parte do Imposto de Renda devido de cidadãos e empresas. A campanha no ano passado alcançou doações de cerca de R$ 10 mil.

Vídeos na rede
“Estávamos planejando um grande encontro dos jovens da região para ampliar nossa agência de comunicação e chegar a todas as escolas, mas por enquanto esse plano terá de esperar até que haja condições seguras para a saúde de todos”, comenta a idealizadora da organização. Mesmo com todas as restrições, as mensagens dos jovens de Itarema ultrapassam todas as fronteiras e se espalham nas redes sociais. Entre as vitórias comemoradas pela equipe está a percepção de que os jovens indígenas ou moradores de assentamentos se mostram confiantes e orgulhosos ao falar sobre suas conquistas nos vídeos que produzem para as redes.

Não é pouca coisa, considerando o massacre que a cultura indígena vem sofrendo desde a chegada dos portugueses à região. Em 1759, o Marquês de Pombal proibiu o idioma nativo nas escolas justificando que para dominar um povo era necessário dominar sua língua. Um decreto do governador da Província do Ceará, de 1863, declarou os tremembés “não existentes”. Os jovens descendentes de indígenas de Itarema comprovam sua existência com boas mensagens nas redes sociais, e sentem muito orgulho disso.

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