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Professora conta sobre o aprendizado de novas metodologias para atrair o interesse de alunos no curso Mediação de Leitura para Juventudes, do Polo


Lais Freitas, professora em Embu-Guaçu (SP), apaixonada por literatura: “O acesso à leitura e à cultura pode mudar vidas”. Foto: Arquivo pessoal

Por Alexandre Raith, Rede Galápagos, São Paulo (SP)
Depoimento de Lais Freitas, professora na Escola João Paulo II, na cidade de Embu-Guaçu (SP)

Não fui uma ávida leitora quando jovem e não me recordo de jovens na minha época de estudo que fossem. Mas na faculdade eu me apaixonei pela literatura brasileira. Hoje, com 25 anos, sou formada em letras e curso uma segunda graduação, em pedagogia. Trabalho na Escola João Paulo II, em Embu-Guaçu (SP), onde sou professora de língua portuguesa, inglês e literatura. Embu-Guaçu é conhecida por ser uma cidade-dormitório, de onde muitos trabalhadores precisam se deslocar para trabalhar; e os estudantes, para cursar uma faculdade. Equipamentos culturais são escassos e o acesso a eles também. Infelizmente agora não acontecem práticas ativas como já tivemos aqui. Eram saraus, apresentações de teatro, balé e exposições, linguagens e experiências que direta ou indiretamente influenciaram minha formação e minha didática. Digo isso não como quem enfatiza uma carência, mas como quem identifica uma potencialidade.

Tenho o sonho de desenvolver um projeto de slam, aquela engajadora atividade com poesia falada, junto com um sarau entre escolas públicas e privadas aqui da região. Essa ideia nasceu ao longo do curso Mediação de Leitura para Juventudes, que realizei no Polo, ambiente de formação do Itaú Social. Quis aprender novas metodologias para trabalhar a leitura, para alcançar um público que não tem maior interesse. O que me chamou a atenção foi a singularidade com que tratam a leitura, mostrando sua relação com a história de vida das pessoas. Dessa forma, o curso me ajudou a enxergar o valor da leitura para além das necessidades específicas dos vestibulares. O conteúdo me arrebatou, pois desenvolvi um pouco mais minha percepção com relação às necessidades reais dos alunos. E trabalho para que eles reconheçam a leitura como elemento promotor de cidadania e de reflexão sobre o ser no mundo. Como é, aliás, a proposta do curso.

Sempre estudei em escola pública e diria que fui muito privilegiada. Foram boas escolas localizadas aqui mesmo na região e com ótimos professores. Recordo que no ensino fundamental I tive o meu primeiro contato com o teatro. No fundamental II e no médio, com os museus. Tinha um bom acesso aos livros, mas eles ainda não haviam me instigado tanto. Quando prestei o Enem, consegui uma nota razoável, que me possibilitou concorrer para duas vagas. Aconselhada pelos meus pais, eu deveria pensar em uma área em que não faltasse trabalho. Pensamos em medicina veterinária, pois sempre amei os animais, e em ser professora. Foi então que aconteceu a escolha: letras! Eu era a única que queria ser professora, enquanto os meus colegas queriam fazer direito, engenharia, odontologia…

Quando consegui minhas primeiras turmas, ainda com 19 anos, o diretor da escola teve receio, pois eu iria trabalhar em uma escola na periferia. Será que eu daria conta? Não fazia ideia da experiência que me esperava. Foi quando aprendi a importância de ensinar a sonhar, a imaginar. Entrei em outras escolas e em cada uma aprendi algo. Tive experiência com diferentes alunos e com suas necessidades e singularidades. Antes de mais nada, o professor é chamado a enxergar, a amar, a ensinar a sonhar, a imaginar… Sonhamos e criamos com os alunos, por meio de projetos, aulas, leitura. E aqui estou hoje. Uma professora que ama a sua profissão, engajada e consciente do potencial da educação para a transformação social. Quero me especializar em psicopedagogia, para que possa compreender melhor as diferentes formas do aprender.

Foi no meu primeiro emprego, em uma escola estadual, na periferia, onde tudo começou de fato. Vi como o acesso à leitura e à cultura pode mudar vidas, pois me deparei com muitos jovens que não sonhavam, que não tinham perspectiva de vida, e o não sonhar é uma das maiores pobrezas. Comecei com um projeto de levar o livro para a sala de aula; e os alunos, à biblioteca. Tínhamos um bom acervo, mas a biblioteca parecia mais uma sala de reuniões. Então, procurei aproximar mais as oportunidades do acervo ao dia a dia dos alunos. Peguei uma vistosa pasta, grande e azul, e ali armazenava os títulos mais interessantes que encontrava. Contava trechos dessas obras para instigá-los e, assim, fazia o controle dos empréstimos dos livros. Não sei se essa ação mudou algo, mas eles conseguiram viajar por um tempo, saíram do lugar por meio das histórias. Nas aulas de língua portuguesa sempre procuro as notícias do dia e partilho letras de canções, eventos culturais, livros. Além disso, busco ser dinâmica nas atividades. Tento mostrar a eles que são importantes, únicos, capazes e que podem mudar realidades. Creio que todo encontro gera mudança e é isso que temos semeado juntos. 

Por isso é tão importante, neste momento, termos recursos como o curso Mediação de Leitura para Juventudes. Foi rica a experiência das dez horas desse curso autoformativo. Mas eu não parei nos textos apresentados nas aulas. Aproveitei todo o material de apoio e os links extras, procurei os projetos citados e a cada passo ia me interessando cada vez mais. Minha primeira iniciativa com os meus alunos, para começar a entendê-los melhor, foi usar o questionário disponibilizado no curso. Depois, abri espaço para que pudéssemos abordar gêneros que fugiam dos clássicos, mas que deveriam ser aproveitados e valorizados. O curso também nos fez perceber que muitas vezes fechamos os  olhos para o novo e que precisamos nos abrir para novos formatos de leitura e a novos gêneros de escrita.

Lais, de volta à sala de aula: os alunos como protagonistas. Foto: Arquivo pessoal.

Retornamos às aulas de forma híbrida no início de agosto. Algumas  permanecem remotas, como as de redação e de reforço escolar. A volta ao modo presencial foi um novo desafio, devido ao medo em relação à pandemia e às adaptações necessárias. É um novo parágrafo que começamos a escrever, um recomeço na convivência; tivemos que reaprender a ler livros e pessoas. E mais uma vez o curso me permitiu aplicar agora o que lá atrás me abriu a mente. Para os estudantes esse período de pandemia também aprofundou novos desejos de leitura, incluindo mais escritores nacionais, mangás, fanfics, sem contar o acesso à literatura por meio de filmes, vídeos e resenhas. Com isso, além de leitores os alunos passaram a ser protagonistas e escritores, fato que precisa ser valorizado e explorado.

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