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Polo de desenvolvimento educacional

Formação impacta no ensino da leitura e escrita

O desabafo da professora Cátia Melo da Silva Silveira, uma das finalistas no gênero poesia da edição 2008 da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, indica a importância da formação de docentes nos resultados em sala de aula e na satisfação dos professores. Ela conta que estava decidida a mudar de profissão antes de participar do programa de formação da Olimpíada. “Eu me sentia frustrada porque não conseguia ver resultados concretos em sala de aula. Descobrir uma nova forma de trabalhar foi um despertar, posso assegurar que redescobri o prazer em sala de aula”.

Professora da rede municipal em Rio Pardo, RS, Cátia faz parte de um universo de 130.650 professores que participaram das ações de formação da Olimpíada, uma iniciativa da Fundação Itaú Social em parceria com o Ministério da Educação, com o objetivo de ampliar as competências de leitura e escrita entre alunos de diferentes níveis de escolaridade a partir da formação de professores. A Olimpíada, iniciada em 2008 tem como base o Programa Escrevendo o Futuro, que foi rebatizado ao ser transformado em política pública pelo governo federal.

Durante todo o processo de mobilização para a Olimpíada, professores da rede pública vivenciam uma metodologia de ensino da língua, com base em um material preparado por especialistas na área de educação, o Caderno do Professor, que traz o passo-a-passo da sequência didática focada no trabalho com gêneros textuais. “O primeiro contato que tive com uma sequência didática foi por meio do programa Escrevendo o Futuro, em 2006. Até então, o trabalho era solto, não havia um direcionamento, o que impactava negativamente no rendimento dos alunos”, conta a professora de Macapá, Iza Cristina de Souza Xerfan, uma das vencedoras no gênero poesia da primeira edição do programa.

Depoimentos de participantes da edição de 2008 mostram que a Olimpíada gerou uma mudança de postura em sala de aula, a partir do contato com uma metodologia de ensino da língua portuguesa que privilegia a construção do conhecimento com a participação ativa dos alunos.

A professora Cátia ressalta a importância de valorizar o repertório do aluno no processo de aprendizagem. Para ela, quanto mais próximo da realidade do estudante, maior o envolvimento. “Embora a sequência didática seja a mesma para todas as turmas, o trabalho em sala de aula precisa ser personalizado. Ou seja, é preciso levar em consideração as diferentes realidades. Quando trabalhei com a produção de memórias literárias, propus um resgate de histórias do bairro, por meio de fotografias, conversas com moradores antigos, familiares. A iniciativa acabou também por promover a integração da comunidade com a escola”.

Desafios

Segundo a professora Adriana de Sá Costa, professora da rede municipal de Campina Grande, PB, um dos desafios é sair da zona de conforto. “Mudar a metodologia em sala de aula requer esforço do professor. Para desenvolver o trabalho, é preciso ampliar o repertório, ler textos variados, estar em constante formação e aperfeiçoamento. Os resultados são gratificantes, mas é preciso dedicação”, avalia a docente, que além de finalista em 2008 no gênero memórias literárias, foi semifinalista em 2004 no gênero poesia e repetiu a dose em 2006 no gênero artigo de opinião.

Convencer os alunos a trabalhar sob outra perspectiva, especialmente em salas de aula numerosas, como é a realidade da maior parte das escolas da rede pública, é outro desafio a transpor. “Introduzir a prática da reescrita foi complicado, pois os alunos não estavam habituados a este exercício em sala de aula. Antes de ter contato com a didática proposta pela Olimpíada, a produção de textos não estava associada a um processo de aprendizagem, por isso é natural a reação de estranhamento dos alunos”, relata Helder Barbosa Pianco, professor da rede estadual em São José do Egito, PE.

A partir dos depoimentos dos professores, é possível identificar que a produção de texto era encarada como simples instrumento de avaliação dos alunos. Para a professora Cátia Melo da Silveira, “a produção de textos era usada apenas como forma de testar os conhecimentos dos alunos”. No entanto, ela relata uma mudança de foco. “A partir da análise dos textos dos alunos, eu consigo identificar as lacunas e os elementos que eu preciso trazer para a sala de aula para melhorar a produção deles”.

Formação presencial

Em 2009, o investimento em formação continuou. Mais de 30 professores universitários, todos especialistas em Língua Portuguesa, orientaram por volta de 1.600 pessoas, entre elas 114 professores finalistas da edição 2008 da Olimpíada. As formações presenciais ocorreram em dois encontros, nos meses de setembro e outubro do ano passado, em todo o Brasil.

Na opinião de Jaqueline Suzana Martin, que participou da formação em São Paulo, durante os encontros é possível aprofundar o entendimento dos gêneros textuais, além de ser “uma oportunidade para os professores compartilharem suas experiências”.

O objetivo é formar novos professores para multiplicar, entre seus pares, a sequência didática da Olimpíada, mas também promover intercâmbio de vivências em sala de aula, reunindo docentes de diferentes realidades.

O trabalho de multiplicação já começou para a maior parte dos professores, como é o caso de Joana D’Arc Gonçalves Silva, de Aliança, PE. No final do ano passado, ela esteve à frente da formação de 30 escolas da rede estadual, pertencentes à Gerência Regional de Educação Mata Norte. Professores e responsáveis pedagógicos tiveram contato com a sequência didática da Olimpíada, por meio do Caderno do Professor. As escolas do município de Aliança, onde a professora atua, participaram da primeira etapa da formação também no final de 2009. O segundo encontro está programado para a terceira semana de março e deverá fechar os trabalhos de multiplicação com 18 escolas do município. “Levar a proposta didática da Olimpíada para outros colegas com a propriedade de quem participou, testou a metodologia em sala de aula e tem a convicção de que funciona tem um impacto muito positivo nos professores”, avalia.

No Amapá, o processo de multiplicação ganhou nova dimensão, a partir do apoio da secretaria estadual de educação. A experiência é contada por Iza Batista de Souza Xerfan. A professora, que participou da formação presencial em Macapá, integra a Comissão Interestadual do Amapá, da qual fazem parte mais três semifinalistas da primeira edição da Olimpíada e técnicos da secretaria de educação. A comissão atua em conjunto com 34 professores do Amapá que também participaram da formação presencial em 2009 e possui uma meta ousada: disseminar a metodologia de ensino da língua proposta pela Olimpíada para 100% das escolas do estado. “Sentimos a necessidade de reunir esforços para garantir que a multiplicação pudesse atingir todas as escolas, especialmente as de difícil acesso. Para isso, contamos com o apoio da secretaria de educação que entende a formação de professores como meio para avançar na qualidade do ensino público”, esclarece. Apenas em Macapá, a Comissão já atuou em mais de 300 escolas que passaram pelo processo de formação.