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Formação em matemática para virar o jogo

Para melhorar os índices de aprendizagem da disciplina, tecnologia educacional propõe boas estratégias de ensino e fortalece o coordenador pedagógico como formador dentro da escola


O aluno Richard Custódio Afonso, da Escola Maestro Heitor Villa Lobos, de Itapevi, ganha medalha pelo segundo lugar no 2º Campeonato Anual de Jogos Matemáticos, na Universidade de São Paulo (USP), em 2019: nova postura e mais ganhos no aprendizado. Foto: Arquivo pessoal

Por Maggi Krause, Rede Galápagos, São Paulo

“Eu era de um jeito e hoje eu sou de outro. Agora consigo fazer qualquer coisa, professora!” As afirmações foram feitas por Richard Custódio Afonso, que em 2019 cursava o quinto ano da Escola Maestro Heitor Villa Lobos, em Itapevi (SP). Richard era considerado um aluno indisciplinado e tinha um discurso pronto: “Ele dizia que não era inteligente, que não sabia fazer as contas”, relata a professora Edjane Pereira da Costa Mello. Sua mudança de postura veio na esteira da formação que a professora recebeu da Comunidade Educativa Cedac. Edjane o incentivou com jogos de contagem, como o mancala. O menino experimentou, foi conseguindo resolver, conquistou confiança e autonomia. Participou de um campeonato na escola, depois em uma etapa municipal e terminou com medalha e diploma de segundo lugar em um torneio de jogos de matemática — o Jogomat, na Universidade de São Paulo (USP). 

A equipe docente da rede municipal não vinha promovendo muitas inovações nos métodos de ensino, mas isso mudou. “As formadoras da CE Cedac vieram mostrar a didática e o respeito ao conhecimento prévio do aluno. E tinha muito professor achando que a criança não saberia fazer a interpretação de um problema por não ler com fluência, ou por ainda não saber multiplicação no segundo ano”, diz Telma Cristina de Moraes Guimarães, supervisora na rede municipal de Itapevi. Para comprovar que “os alunos dariam conta, sim” de analisar um problema com um número alto (já que a turma só costumava trabalhar com números até mil), uma formadora da CE Cedac resolveu ousar em uma das escolas. Propôs dar uma aula e mostrar qual seria a resposta das crianças. “Elas arrasaram na atividade, que era de antecipação de números a partir de alguns agrupamentos, e eu filmei tudo, para na sequência mostrar à outras professoras”, diz Simone Azevedo, da equipe pedagógica da CE Cedac. 

Verificar que a estratégia dava certo fez diferença no processo de formação e mostrou aos professores a potencialidade dos estudantes, em vez de focar nas suas dificuldades. “Tive que rever e reformular minha maneira de ver essa disciplina. E passei a me questionar se eu estava levando propostas realmente interessantes aos alunos. Muitos reclamavam e eu falei: ‘Agora a gente vai fazer amizade com a matemática’”, relembra a professora Edjane. Ela passou a propor as atividades de forma mais leve e dar autonomia para a turma. A formação da CE Cedac ensinou a valorizar o que o estudante pensa e como mostrar aos outros o seu raciocínio, fazendo todos avançarem.

  • Richard, então aluno do quinto ano da Heitor Villa Lobos, em sua participação no torneio Jogomat, na USP, com a professora polivalente Edjane Mello. Fotos: Arquivo pessoal

Na rede de Itapevi, coordenadores pedagógicos e professores de 17 escolas atuaram como multiplicadores do conhecimento. Toda essa movimentação aconteceu os anos de 2018 e 2019, após a reestruturação do Programa Melhoria da Educação, que investia então na construção de tecnologias educacionais, entre elas a de Formação. Formação em Matemática nos Anos Iniciais, disponível no site Melhoria da Educação. “O objetivo é apoiar as equipes das secretarias no desenvolvimento do trabalho com a matemática”, explica Sonia Dias, coordenadora de implementação municipal do Itaú Social. “A formação dos profissionais é organizada em relação ao conteúdo curricular — dividido nas cinco unidades temáticas definidas pela BNCC —, às estratégias de ensino e ao contexto das salas de aula.” Para ela, a tecnologia deve funcionar como uma bússola, um guia de como implementar ações de formação na rede, de forma customizável, para as secretarias usarem levando em conta suas características e recursos.

Interação é a chave para a aprendizagem

A educadora Cristina Liuti, que atuou como coordenadora pedagógica na rede de Itapevi durante a formação do Melhoria da Educação, explica como a mudança da didática em sala de aula fez efeito.

“Matemática sempre foi uma disciplina que me causou inquietação, pois o Ideb da escola apontava índices baixos de aprendizagem. Eu percebia que os professores estavam comprometidos, pesquisavam bastante, mas não sanavam as dificuldades. Acho que isso vem um pouco do senso comum. Eles achavam que tinham que ensinar para a criança aprender do mesmo modo que eles aprenderam — e esse era um dos motivos dos resultados insatisfatórios. A aprendizagem das crianças não acontecia. Aí passamos por uma formação muito dinâmica, em que a diferença não estava nas atividades, mas sim na maneira de conduzi-las, na didática em sala de aula. Buscar a interação dos alunos com o conteúdo, dar espaço para pensarem e tentarem resolver os problemas do seu jeito fez com que muitas crianças participassem, se sentissem desafiadas e até confiantes para ensinar os colegas. Os avanços logo foram perceptíveis. A CE Cedac nos fez ver também o benefício de compartilhar as práticas entre os professores, o que não era habitual na escola. Como coordenadora, aprendi que não preciso fazer o horário de trabalho pedagógico coletivo sozinha, que posso dividir essa função, pedindo que as professoras multiplicadoras apresentem suas práticas e eu complemento com a parte teórica.”

No site do programa Melhoria da Educação, a tecnologia valoriza os saberes prévios do professor e reforça sua confiança na capacidade dos alunos. “Consideramos o professor um profissional produtor de conhecimento, que traz sua experiência, e buscamos dialogar com ele no percurso proposto”, ressalta Tereza Perez, diretora executiva da CE Cedac. Ela explica que os comportamentos observáveis, de Jean Piaget, orientam o caminho a seguir. “É preciso saber enxergar e reconhecer as pistas que indicam o que a criança está pensando e quais são seus processos de aprendizagem.” 

A professora Alexandra dos Santos Suzano, do Orlando Villas Boas Centro Municipal de Educação Básica, em Itapevi, comprovou a diferença na prática. “Eu tinha alunos que gostavam muito de matemática, outros que detestavam e uma parcela indiferente. A partir do momento em que comecei a interagir, a colocar desafios para eles, incentivá-los a trazer ideias e resoluções, tudo foi mudando. Chegaram a dizer: ‘Nossa, professora, achava que isso era difícil, mas é tão legal’”, conta. Agora, oferecer uma variedade maior de problemas, ver a satisfação e os caminhos possíveis para resolução trilhados pelos alunos colocou mais sentido e deixou mais movimentada sua sala de aula.

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