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Polo de desenvolvimento educacional

Formação de diretores escolares é tema de debate

Por Luana Dalmolin

A atuação do diretor escolar tem sido apontada como um dos fatores que influencia diretamente o desempenho acadêmico dos alunos, atrás apenas da eficácia do professor. Esse posicionamento é respaldado por várias pesquisas e pela observação de reformas educacionais que alcançaram bom desempenho.

Ao mesmo tempo em que o gestor escolar é identificado como figura essencial, muitos países enfrentam um déficit de profissionais para o exercício da atividade, por um lado porque o número de diretores aposentados tende a aumentar, e por outro, potenciais candidatos hesitam em concorrer ao cargo devido ao conjunto complexo de responsabilidades da função, perspectivas de carreira limitadas, falta de apoio, incentivos e formação adequada.

Diante desse cenário, a Fundação Itaú Social escolheu a formação de lideranças para a gestão escolar como tema para o primeiro Ciclo de Debates Gestão Educacional do ano. Para o vice-presidente da Fundação Itaú Social, Antonio Matias, o debate vem ao encontro da necessidade de se buscar soluções sistêmicas e sustentáveis para a seleção, a formação e o acompanhamento contínuo de diretores escolares. “O gestor escolar é fundamental para o sucesso de iniciativas que buscam a melhoria da qualidade e a promoção da equidade educacional”, ressalta.

Estiveram presentes a presidente da Academia de Lideranças de Nova York, Irma Zardoya, a especialista em educação e diretora executiva da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), Maria Helena Guimarães de Castro, a secretária de Educação do Município de Ferraz de Vasconcelos, Roseli Mori, a diretora da EMEF Sara Tineue, Ana Paula Tavares da Silva Torres, e a gerente de projetos da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, Teca Pontual.

A principal experiência apresentada foi a da Academia de Lideranças de Nova York, que desde 2003 oferece formação a professores que desejam atuar como diretores nas escolas mais vulneráveis da rede pública, por meio do Programa para Diretores Aspirantes, que tem duração de 18 meses. Os participantes cumprem inicialmente um curso intensivo de seis semanas, seguido de uma residência de um ano com diretores mentores treinados pela própria academia, nos moldes usados na formação de futuros médicos. Além disso, eles contam com o apoio de um tutor no primeiro ano como diretores. Em contrapartida, assinam um contrato, por meio do qual se comprometem a permanecer no cargo por cinco anos.

A instituição que se tornou referência nos EUA já formou um em cada seis diretores de escolas públicas da cidade, que atendem mais de 119 mil estudantes. Além de Nova York, a academia atua junto a outras redes públicas, incluindo a coordenação de um recém-criado consórcio entre seis cidades, com o foco em aprimorar seus modelos de identificação, recrutamento, formação e apoio contínuo de gestores escolares. Em Los Angeles, a instituição iniciou um trabalho com os órgãos regionais da rede pública com o foco na formação de supervisores pedagógicos.

A presidente da organização atribui o sucesso da iniciativa, que contou com um investimento inicial de 84 milhões de dólares de entidades filantrópicas e empresários, a um processo de seleção rígido e à formação voltada para a prática. “Os aspirantes a diretores são treinados em um cenário que simula uma escola, onde eles têm que resolver problemas, tomar decisões e trabalhar em equipe durante as aulas para entender como eles poderão ajudar os professores e os alunos a melhorarem seu desempenho”, explica.

A avaliação de impacto do Programa para Diretores Aspirantes, que foi realizada pelo Instituto de Políticas Sociais e Educacionais da Universidade de Nova York, apontou que houve uma melhora significativa no desempenho dos estudantes. As escolas lideradas por egressos da academia reduziram pela metade a lacuna de desempenho inicial em inglês que havia entre os alunos quando comparadas a escolas do mesmo nível que não são lideradas por ex-alunos do programa.

Para Irma, o modelo da academia é replicável. “Os desafios do sistema educacional não mudam tanto de um país para o outro. É preciso identificar as especificidades, os desafios e as demandas das famílias e da comunidade do entorno das unidades escolares, de forma a desenhar um programa de formação de lideranças que atenda essas expectativas”, diz.

Em relação ao financiamento da organização, a especialista esclarece que atualmente a academia conta basicamente com recursos provenientes da Secretaria de Educação de Nova York. “Embora o valor do investimento seja alto é possível adaptar o programa de formação. Algumas redes contratam os nossos serviços para auxiliá-las na estruturação de outros formatos, com seis meses de residência, ao invés de um ano, por exemplo”.

Outras questões abordadas ao longo do debate, como o processo de seleção de diretores, a rotina e a autonomia conferida a esses profissionais podem ser conferidas nos links abaixo.

Processo de seleção

Outro ponto bastante discutido no debate foi o processo de seleção dos diretores. Embora ao longo dos últimos anos um número cada vez maior de sistemas educacionais brasileiros tenha incluído em seus processos algumas estratégias como cursos de certificação e especialização e planos de trabalho com metas e avaliação, em muitos municípios a seleção assume um caráter político, conforme pontuou a diretora executiva da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), Maria Helena Guimarães de Castro Maria Helena. “No Brasil, critérios políticos e burocráticos predominam sobre outros como o perfil e a capacidade de liderança. Este é um dos maiores desafios que nós enfrentamos”.

O município do Rio de Janeiro é uma das redes que está buscando alternativas de aprimoramento e ampliação das estratégias voltadas para o desenvolvimento de lideranças para a gestão escolar. “Nós temos um processo de certificação que incluí uma formação a distância de 40 horas e uma prova na qual o candidato tem que apresentar um plano de gestão a uma banca formada por profissionais da educação, como técnicos das secretarias. Eles só podem concorrer a uma vaga nas escolas com a certificação em mãos.”, conta a gerente de projetos da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, Teca Pontual. De acordo com a gestora, as oportunidades de formação serão ampliadas neste ano com a recém-criada Escola de Formação Paulo Freire.

O processo de seleção é visto como um passo fundamental na Academia de Lideranças de Nova York. A primeira etapa consiste no preenchimento de uma ficha e na produção de uma dissertação. Os aprovados seguem para a segunda fase, sendo convocados para uma dinâmica em grupo e, por último, os melhores candidatos são convidados para uma entrevista individual, momento em que são abordadas questões pedagógicas. Eles também apresentam seus portfólios e trabalhos acadêmicos. “Nós desenhamos uma matriz de liderança, que funciona como norte neste processo, além de guiar o nosso trabalho. Ou seja, definimos quais são as habilidades e competências fundamentais para que um líder seja eficiente”, explica a presidente da instituição, Irma Zardoya. Neste ano, a academia formará 26 profissionais.

Mais autonomia, menos burocracia

Atrair e reter líderes eficazes, especialmente em escolas inseridas em comunidades vulneráveis não é tarefa simples. Segundo Irma Zardoya, presidente da Academia de Lideranças de Nova York, garantir a autonomia dos diretores é um dos fatores que contribuem para isso. “O diretor precisa ter o respaldo para fazer as mudanças que julgar necessárias em sua unidade, tanto nos aspectos pedagógicos quanto administrativos”, afirma.

Outro ponto que deve ser considerado é a diminuição de tarefas burocráticas a cargo dos diretores. Em Nova York, foram adotadas metas anuais com o intuito de diminuir este tipo de atividade, conforme explica a especialista. “Alguns diretores usam parte de seu orçamento para contratar um auxiliar administrativo, ou então delegam parte desse trabalho para os vice-diretores, com o intuito de acompanhar mais de perto os professores e a rotina em sala de aula”, pontua.

No Brasil, este também é um desafio nas redes de ensino. Um estudo realizado pelo Sinesp, sindicato de diretores da rede municipal de São Paulo, em 2009, com 373 gestores, apontou que a principal queixa é o excesso de burocracia. Desses, 53% se queixaram que gastam mais tempo com papéis e formulários do que com atividades pedagógicas, como reuniões com os professores.