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A Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge usa a arte-educação e uma rádio comunitária para manter o vínculo com 180 crianças e jovens de Alto Paraíso de Goiás


Projeto multicultural para crianças e jovens da rede municipal de educação: brincadeiras tradicionais e resgate de história e cultura. Foto: Alexandre Almeida/Turma Que Faz

Por Natália da Silva, Rede Galápagos, Goiás

A pequena Vila de São Jorge, no município de Alto Paraíso de Goiás, é conhecida como o portal de entrada do exuberante Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Com pouco mais de mil habitantes, a comunidade localizada a 257 km de Brasília é rodeada por cachoeiras e vasta vegetação de cerrado. As origens de seu imenso patrimônio histórico e cultural incluem o povo quilombola kalunga, indígenas das etnias krahô e xavante, além de povos do Alto Xingu. Transformar toda essa riqueza imaterial em um projeto social para crianças e adolescentes é um grande desafio. A organização da sociedade civil (OSC) Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge encarou esse desafio e, em 2003, deu início ao Turma que Faz, que se realiza por meio de atividades educativas, culturais, ambientais, esportivas e artísticas. 

Hoje a iniciativa agrega 180 estudantes de 5 a 18 anos, residentes na região. Com o esforço de mais de 30 colaboradores, entre professores e monitores, a organização vem mantendo acesa a ideia da educação, além da frequência e do entusiasmo dos alunos, mesmo neste contexto de pandemia de Covid-19. “É uma memória que precisa ser afirmada sempre, para que as próximas gerações recebam essas informações e tecnologias sociais acumuladas pelos povos mais antigos”, explica Juliano George Basso, presidente da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge. “O nosso objetivo é trabalhar intergeracionalmente, valorizando nosso patrimônio imaterial, não só da região da Chapada dos Veadeiros, mas de todo o Brasil”. 

Basso conta que tudo começou em 2003, quando a arte-educadora e musicista Dorothy Marques desembarcou em São Jorge para participar do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, outra iniciativa da OSC. Dorothy acumula mais de 30 anos de trabalho envolvendo milhares de professores crianças e jovens. Encantada pela força cultural local, ela mudou-se para a vila e consolidou uma parceria produtiva e mobilizadora, que dura até hoje.

Dorothy Marques, arte-educadora e uma das idealizadoras do Turma que Faz: parceria produtiva e mobilizadora. Foto: Alexandre Almeida/Turma Que Faz

“Lá atrás, a nossa primeira atividade foi uma opereta, com a participação de alunos da rede pública de ensino e seus familiares, utilizando o que é chamado de ‘metodologia Turma que Faz’, uma mistura de arte, meio ambiente, história e ecologia para as crianças da comunidade”, explica o presidente da associação. “Montar um espetáculo dentro do ambiente escolar é muito interessante e produtivo, pois envolve a criança no lúdico, na elaboração e na apresentação daquele teatro. Isso é muito estimulante para os alunos”.

De geração em geração
Jefersom Pereira Barros, 24, participa do Turma que Faz desde os 9. Começou frequentando aulas de pintura, foi crescendo junto com a iniciativa e hoje completa quatro anos como professor no projeto. É grande o envolvimento da comunidade com a iniciativa e todos conhecem alguém que atua ou que já foi contemplado. Este é o caso do irmão mais velho de Jefersom, Hércules Pereira Barros, 30, também ex-aluno e orgulhoso integrante da primeira geração de professores, ou multiplicadores.

“Aos 9 anos achava que era apenas um espaço para brincar, encontrar os amigos. Era divertido e a gente aprendia muito com isso”, recorda Jefersom. “Com o passar do tempo, percebi a importância de cada movimento na manutenção de todas as nossas tradições. Hoje sei quanto esse conhecimento abre portas e nos prepara para enfrentar o mundo”. A metodologia inclusiva e o espaço diversificado favorecem a integração dos estudantes. No Turma que Faz, cada participante pode escolher e se dedicar à atividade de que mais gosta e assim, lá na frente, dar aulas sobre essas atividades preferidas. “Cada um dos participantes se destacou em uma área diferente. No meu caso, percussão, tambor e nas brincadeiras infantis, como biloca, pula corda, amarelinha, futebol, peteca” explica Jefersom. “A gente escolhe o que o coração sente”.  

O Turma que Faz foi contemplado em 2018 no 13º Prêmio Itaú-UNICEF, com o segundo lugar da categoria “Organizações em Ação”. Hoje o Prêmio foi reestruturado e se chama Programa Itaú Social-UNICEF, mas continua realizando formação e fomento financeiro a organizações da sociedade civil (OSCs) que promovem a educação integral e inclusiva de crianças e adolescentes. O Turma que Faz  foi contemplado também pelo Edital FIA (Fundos da Infância e da Adolescência), do Itaú Social. “Iniciativas assim acabam por ativar e melhorar o sistema educacional no Brasil, considerando que houve redução de editais e recursos destinados a estes fins”, diz Juliano Basso. Ele reitera a importância da articulação do projeto junto ao Conselho Municipal da Criança e Adolescente (CMDCA). “O conselho atua como um importante parceiro, pois é por meio dele que conseguimos acessar e operar o edital”.

Imagens produzidas nas aulas de pintura: artes no centro da grade de atividades. Foto: Alexandre Almeida/Turma Que Faz

O som do futuro
Com a pandemia de Covid-19, a organização  precisou se adaptar, já que sua atuação estava fundamentada na presença física das crianças. A ideia que garantiu a permanência do projeto vem de um antigo sonho da comunidade, que há muito tempo desejava ter sua própria emissora de rádio.

“Montamos uma rádio comunitária em abril (Rádio São Jorge FM 87.9), para que os professores pudessem dar aulas” diz o professor Jefersom. O primeiro desafio foi operar a mesa de som da rádio, o que aprenderam graças a um jornalista que trabalha no veículo. “Depois tivemos a ideia de distribuir rádios para todas as crianças, garantindo assim que continuariam tendo acesso à arte e à cultura”.

Cada professor é responsável por um grupo de WhatsApp que reúne aproximadamente 12 crianças. Com o devido acompanhamento dos pais e de uma psicóloga contratada pela OSC, seguem sendo assistidas mesmo no período de isolamento social. Junto com o aparelho de rádio, as famílias receberam o Bordal D’arte”, uma bolsa recheada com gibis, bolinhas de gude, material para bordado, tintas, pincéis e outros materiais lúdicos, que são renovados a cada mês. Atualmente há oficinas de percussão e violão na Rádio Comunitária diariamente, das 10h às 11h, com reprise às 14h. “Percebemos que as famílias têm dado um bom feedback dessas ações, pois conseguimos conciliar as nossas transmissões com as demais atividades escolares das crianças, como provas e trabalhos, relata o professor. 

Com as aulas na rádio, as crianças acabaram se envolvendo mais com as atividades e isso melhorou tanto a relação delas com os familiares dentro de casa quanto o rendimento nos estudos. Ludmilla Pereira Alves, 32, que tem duas filhas participando do Turma que Faz diz que as atividades promovidas por meio da rádio estão motivando as crianças. “Com esses afazeres lúdicos elas saem do tédio e sentem-se mais estimuladas”, relata.  “Aqui é uma vila pequena, nós conhecemos todo mundo e é muito bonito perceber quanta gente já foi tocada por essa ideia”.

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