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Fase decisiva para recuperar as perdas na educação

Confira o artigo dos superintendentes do Itaú Social, Itaú Educação e Trabalho e Instituto Unibanco, publicado no jornal Valor Econômico nesta terça-feira, dia 28 de setembro


Por: Ana Inoue, Angela Dannemann e Ricardo Henriques*

Estamos vivendo neste segundo semestre de 2021, pela primeira vez durante a pandemia, um momento de mais esperança na educação pública brasileira. Finalmente as escolas abriram as portas para a retomada gradual do ensino presencial, depois de um período marcado por perdas, incertezas e, principalmente, pelo aprofundamento das desigualdades. Agora temos de nos unir em torno de estratégias que acelerem a recuperação da aprendizagem para que nossas crianças, adolescentes e jovens possam ter oportunidades de um futuro mais próspero, apesar da crise que ainda estão vivenciando.

A pandemia interrompeu os avanços em curso no Brasil. Enquanto escolas de países como Alemanha, Reino Unido e França ficaram apenas três meses fechadas, o Brasil é um dos países que por mais tempo funcionou apenas com o ensino remoto: 13 meses. O resultado disso é a perda de aprendizagem e o aumento no risco de abandono e evasão. O gap educacional será sentido ao longo de décadas na economia, podendo levar a uma perda de renda futura dos jovens de até R$ 40 mil por indivíduo, de acordo com levantamento do Instituto Unibanco e Insper. O mesmo estudo aponta que, durante a pandemia, os alunos do 3º ano do Ensino Médio, por exemplo, tiveram uma perda de aprendizagem estimada em 74%.

O cenário delineado por pesquisa do Datafolha, realizada a pedido do Itaú Social, Fundação Lemann e BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), também trouxe números preocupantes em relação à alfabetização. Os responsáveis disseram que os estudantes matriculados nos três primeiros anos do Ensino Fundamental não aprenderam nada de novo (29%) ou desaprenderam o que já sabiam (22%).

Ao entrar nesta nova fase da educação na pandemia, precisamos estabelecer um pacto nacional em prol da equidade, considerando todas as perdas dos grupos mais vulneráveis. Enquanto no Brasil 40% dos estudantes não estão evoluindo nos estudos, estão desmotivados e podem desistir da escola, esse índice é ainda maior quando falamos de negros (43% versus 35% para brancos); matriculados em área rural (51% versus 39% urbana); localizados na região Nordeste (50% versus 31% região Sul) e escolas de baixo nível socioeconômico (43% versus 33% escolas com alto nível).

Apesar de assustadores, os impactos poderiam ter sido piores se não fossem os esforços das redes de ensino para a continuidade do aprendizado. É preciso destacar o importante papel de professores, o maior vínculo entre alunos e escola, que buscaram se adequar às novas tecnologias para propor atividades que prendessem a atenção dos estudantes.

Por falar em tecnologia, este foi o principal legado da pandemia e que seguirá sendo a base das estratégias para recuperação das aprendizagens. O ensino híbrido é uma realidade hoje e no futuro. Governos estaduais estão planejando ampliar atividades de ensino remoto e já aperfeiçoaram suas plataformas. De acordo com o IEAD (Índice de Ensino a Distância), elaborado pela Rede de Pesquisa Solidária, os estados tiveram uma nota de 2,7 em 2020 e 5,2 neste ano. É evidente que estados mais ricos tiveram programas de ensino remoto mais ambiciosos. Sem uma estratégia coordenada pela esfera federal, o socorro fiscal a estados mais pobres ficou prejudicado, o que poderia ter evitado o crescimento de desigualdades regionais.

A mesma fragilidade ocorre nas redes municipais. Estudo do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) mostrou que as escolas municipais tiveram piores condições no ensino híbrido. Enquanto 72,8% das escolas estaduais ofereceram aulas ao vivo, por exemplo, apenas 31,9% das redes municipais fizeram uso deste recurso. Por isso, é urgente articular a implementação de políticas públicas de acesso à internet para a educação. Uma destas políticas recentes, aprovada pela lei 14.172/21, encontra dificuldades na liberação de R$ 3,5 bilhões para contratação de serviços de internet e compra de equipamentos (celulares e tablets) para as redes.

Além da conectividade, há outras estratégias fundamentais para a retomada, como a busca ativa escolar, considerada como prioridade por 60% das redes municipais, segundo o último levantamento da Undime (União dos Dirigentes Municipais de Educação). Ela tem como objetivo apoiar os governos na identificação de crianças e adolescentes fora da escola, rematriculá-los e acompanhá-los para garantir a permanência do vínculo escolar. Temos ainda que continuar apoiando os gestores escolares e professores em estratégias de flexibilização curricular, na formação dos profissionais e nas avaliações diagnósticas dos estudantes, apoiando o acolhimento pós-retorno, o planejamento de estratégias de recuperação e a aceleração de aprendizagens. 

Temos que destacar ainda que, mesmo com o avanço da vacinação, a  pandemia não acabou. É imprescindível manter protocolos de segurança com o uso correto de máscaras, priorização de ambientes bem ventilados, limites de distanciamento e rotinas de higienização. Medidas, que devem ser continuamente discutidas pela comunidade escolar. Nesse sentido, governos precisam garantir as condições de implementação desses protocolos nas escolas, tanto com recursos financeiros e técnicos, quanto pela articulação com os órgãos de saúde. Parceiros no território do entorno da escola, como organizações sociais e equipamentos públicos de cultura e esporte, podem ser aliados nesse processo, permitindo ainda oferecer uma educação integral, que contemple as necessidades cognitivas, mas também físicas, sociais e emocionais dos estudantes.

Ao passo que as escolas garantam um ambiente sanitário seguro,  é preciso se preocupar com o acolhimento dos profissionais da educação, dos estudantes e das famílias, que passaram por uma alta sobrecarga psicológica, porém, trarão na bagagem descobertas pessoais e aprendizados além de qualquer currículo escolar. Este segundo semestre será determinante para o Brasil como um todo e não podemos mais adiar o processo de recuperação das perdas de aprendizagem. Os impactos da pandemia foram cruéis, mas não irreversíveis, desde que todos nós ajamos coletivamente.


*Ana Inoue, superintendente do Itaú Educação e Trabalho; Angela Dannemann, superintendente do Itaú Social e Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco

*Originalmente publicado no jornal Valor Econômico