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Estudar Vale a Pena completa dez anos

Voluntários do Itaú Unibanco já visitaram 57 mil estudantes do ensino médio noturno em escolas públicas para contar como a educação transformou suas vidas


A sala de aula como lugar para conversar sobre perspectivas de futuro, em foto pré-pandemia: diálogo entre 8.000 voluntários e 57 mil estudantes. Foto: Lucas Ismael/ EVP – Divulgação

Por Cley Scholz, Rede Galápagos, São Paulo

Mais da metade dos brasileiros de 25 anos ou mais não completou o ensino médio, segundo o capítulo sobre educação da Pesquisa Nacional de Domicílios (PNAD Contínua), divulgado em julho de 2020 pelo IBGE. Os dados confirmam que o maior índice de abandono dos bancos escolares se dá a partir dos 15 anos, na entrada do ensino médio. Nessa idade, 14,1% deixam os estudos e têm, assim, reduzidas as suas chances de uma inserção mais qualificada no mercado de trabalho. O porcentual chega a 18% para pessoas com 19 anos ou mais.

O principal motivo da evasão é a necessidade de trabalhar, apontada por 39,1%. Depois vem a falta de interesse, citada por 29,2%, o que evidencia a necessidade de medidas que incentivem a permanência dos jovens na escola.

Foi justamente com o foco nessa questão que o Instituto Unibanco criou, em 2010, o projeto Estudar Vale a Pena, como parte do Programa Voluntários Itaú Unibanco. A iniciativa envolve a participação de colaboradores do conglomerado e convidados em uma mobilização destinada a sensibilizar jovens sobre a importância de prosseguir com os estudos. A ação é direcionada aos estudantes do ensino médio da rede pública no período noturno, período no qual o problema da evasão é mais acentuado. Em visitas às escolas, os voluntários compartilham com os estudantes suas trajetórias de vida e os fazem refletir, por meio de jogos e dinâmicas de grupo, sobre suas expectativas em relação ao futuro e sobre a importância dos estudos na formação pessoal e profissional.

Recursos lúdicos e parcerias
O projeto é realizado em parceria com as secretarias estaduais da educação. Entre 2010 e 2019, o projeto formou quase 8.000 voluntários e beneficiou 57 mil estudantes de ensino médio em mais de 350 escolas do estado de São Paulo. Só em 2019, 851 voluntários visitaram 50 escolas  públicas para motivar 5.164 estudantes do período noturno. A partir de 2016, o projeto foi estendido para o Espírito Santo, com cerca de 30 voluntários atendendo em média 140 jovens por ano. Em edições anteriores, o programa passou pelo Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará e Goiás. Cada turma é visitada duas vezes por voluntários que buscam demonstrar aos jovens a importância de continuar estudando. O objetivo é conscientizar os adolescentes sobre a relação entre nível de escolaridade e oportunidades de escolha e realização profissional. 

O projeto conta com recursos lúdicos desenvolvidos pela equipe para promover a interação com os jovens, como um jogo de tabuleiro que relaciona escolhas pessoais e possíveis consequências. Um guia preparado especialmente para o programa orienta o jovem sobre possibilidades após o ensino médio. Um jogo de cartas batizado de Super Triunfo (inspirado no jogo Super Trunfo) ajuda a refletir sobre profissões, escolaridade e renda. Frequentemente atualizado, o jogo inclui profissões relativamente novas como motorista de aplicativo, designer de games e empresário de e-commerce. Cada profissão é representada por um personagem, com características físicas e faixas etárias diversas.

Jogo de tabuleiro ajuda a valorizar a dedicação à aprendizagem, em registro feito no ano passado: escolaridade como oportunidade. Foto: Lucas Ismael/ EVP – Divulgação

Encontros que abrem a mente
Os voluntários relatam momentos de grande emoção nessa troca de experiências em sala de aula. O bancário aposentado José Fernando Alves Pinto, 56 anos, que deixou o Itaú Unibanco em 2019, após 37 anos de trabalho, já visitou dezenas de escolas desde que entrou no projeto, em 2011. O dia mais marcante foi quando voltou à Escola Estadual Professor Andronico de Mello, na Vila Sônia, em São Paulo, onde cursou o ensino médio. “Foi um momento muito emocionante”, lembra o voluntário, que estudava a noite para poder trabalhar. Ele também não se esquece do dia em que visitou uma escola no município de Carapicuíba, na Grande São Paulo, em 2012. Seis anos depois, um dos integrantes da sua equipe recebeu uma mensagem de uma ex-aluna daquela escola relatando que estava cursando veterinária na Universidade Federal do Rio Grande (FURG). “Ela disse que aqueles encontros lhe abriram a mente e que ela passou a se dedicar mais aos estudos”, lembra ele. “Aquela sementinha que plantamos deu resultado”.

Mesmo tendo deixado a função de gestor de equipe de tecnologia do banco, José Fernando pretende continuar fazendo parte do Comitê de Mobilização de Voluntários. “É muito gratificante poder contribuir com jovens que enfrentam as mesmas dificuldades pelas quais passamos na juventude, e poder partilhar com eles o relato da nossa experiência para superar os obstáculos”.

Romário Manoel dos Santos, de 26 anos, que trabalhou na área de engenharia do Itaú Unibanco em 2017 e 2018, também não pensa em deixar a equipe de voluntários. “Eu me sinto no dever de contribuir”, conta o engenheiro elétrico formado pelo Mackenzie, em São Paulo, graças a uma bolsa de estudos conquistada pela sua boa nota no Enem. Nascido em Serra Talhada (PE), ele cursou o ensino fundamental e médio em escolas públicas e se sente realizado em poder relatar sua experiência de vida a jovens com histórias parecidas com a dele.

“O voluntário não é professor, não está ali para ensinar, mas sim para falar sobre a própria experiência e sobre como o estudo pode mudar a vida das pessoas”, diz ele. “Quando a gente conta nossa história, os estudantes se colocam na mesma condição e percebem que é possível sonhar e realizar sonhos; alguns vivem numa realidade tão difícil que nem sonhar conseguem”.

Atividade durante encontro do Estudar Vale a Pena, em foto feita antes da pandemia: mobilização para evitar a evasão escolar. Foto: Lucas Ismael/ EVP – Divulgação

Novos cenários, novas estratégias
O surto de Covid-19 no início de 2020 tornou inviável a continuidade do Estudar Vale a Pena, diante da impossibilidade de atividades presenciais. Os esforços do Instituto Unibanco concentraram-se em ações emergenciais de ajuda humanitária, além da manutenção de atividades como o Projeto Jovem de Futuro, no qual tem parceria com seis secretarias estaduais de educação (Goiás, Ceará, Rio Grande Norte, Piauí, Minas Gerais e Espírito Santo) com um alcance de mais de 1,2 milhões de estudantes e o Observatório de Educação, um amplo acervo de conteúdos sobre o tema.

“Estamos em um momento de planejar estratégias para retomar o projeto, mas será necessário refletir sobre como poderá ser a ação do voluntariado em 2021, respeitando os protocolos de saúde e as possibilidades de nossos parceiros e voluntários dentro das prioridades pedagógicas das redes de educação parceiras do Estudar Vale a Pena”, comenta Kenny Bastos, analista de projetos sócio-educacionais do Instituto Unibanco. Sociólogo e mestre em educação, Bastos considera que o projeto Estudar Vale a Pena ganha ainda mais importância diante do quadro de desigualdades na educação evidenciado pela pandemia.

“As dinâmicas de grupo com os estudantes foram planejadas para aplicação presencial”, explica Bastos. “Teriam o efeito prejudicado se fossem aplicadas virtualmente,  tendo em vista as dificuldades de acesso à internet por parte do nosso público-alvo”. Ele lembra que o jovem que estuda a noite em escola pública em geral têm menor renda, maior defasagem idade-série e menor disponibilidade para participar de atividades extra-classe.

O próximo passo para planejar a retomada do programa deve ser a consulta institucional às secretarias de educação sobre como a mobilização dos voluntários pode contribuir para atenuar os efeitos da crise e reduzir a evasão escolar. E buscar caminhos viáveis no atual cenário. “O projeto Estudar Vale a Pena sempre teve uma ótima capacidade de mobilizar voluntários, esperamos que em breve possamos reunir nosso grupo e colaborar com a escolas públicas de forma segura para todos”, diz Kenny Bastos.

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