Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca
Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Dez perguntas para

IONIT ZILBERMAN – “Este é um livro cheio de pequenos enigmas”

Por meio da complementaridade entre texto e ilustração, a literatura infantil pode trazer várias possibilidades de leitura, tanto para adultos quanto para crianças


Dez perguntas para:
Ionit Zilberman
Ilustradora, artista visual e coautora do livro Com que roupa irei para a festa do rei?

Traços e cores: “Cada livro é um laboratório e o mais legal é o processo artesanal de mexer nos materiais”. Foto: Ionit Zilberman

Por Lívia Piccolo, Rede Galápagos, São Paulo. Dramaturga, redatora da Maternews e mãe de Raul, de quatro anos

Ionit Zilberman é ilustradora e artista visual. Ilustrou mais de 50 livros infantis e trabalha com referências de várias linguagens, da ilustração ao cinema, passando pela música e por suas memórias de infância. A artista gosta de explorar diversos materiais e buscar soluções que fujam da obviedade. “Procuro esse equilíbrio entre mostrar e esconder.” O seu trabalho com Tino Freitas no livro Com que roupa irei para a festa do rei?, editado pela Editora do Brasil, é um exemplo da complementaridade criativa entre texto e imagem, na qual as diversas camadas de interpretação podem ser exploradas por leitores de diferentes idades.

Com que roupa irei para a festa do rei? foi escolhido para integrar a coleção de livros do programa Leia para uma Criança, do Itaú Social. O outro livro selecionado em 2020 foi A visita, de Antje Damm. Ambos os títulos foram enviados, em formato impresso, gratuitamente a quem fez o pedido no site — e também podem ser acessadas, de modo digital, versões audiovisuais, com múltiplos recursos de acessibilidade. Conversamos com Ionit sobre a importância da ilustração na literatura infantil e sobre seu processo de criação.

NNotícias da Educação – Com que roupa irei para a festa do rei? revisita um conto clássico de Hans Christian Andersen. O que mais te chamou a atenção na releitura de Tino Freitas?

IIonit Zilberman Essa é uma história que combina muito com os tempos atuais. Quando a li pela primeira vez me chamou a atenção seu aspecto político, a imagem do rei e o que existe por trás dela. Muitas vezes vemos algo que não existe, que não é. E talvez por isso, na capa, temos o verso. Você abre o livro e no verso da capa já vê a costura, o que tem por trás da roupa, o manto que veste a história. Claro, a história tem muita coisa. Mas o mais forte, para mim, é essa verdade encoberta.

NNo livro você conta que essa foi sua primeira experiência pintando tecidos. As roupas são um componente fundamental na história. Como surgiu a ideia de trabalhar efetivamente com o tecido e quais foram os desafios?

IO tecido veio por causa do personagem do alfaiate, e ele começa a partir de um certo ponto da história. No início as ilustrações são em papel, e quando entra o alfaiate, entra o tecido. E senti esse processo como pintar em uma tela. Primeiro tem que passar uma camada de gesso porque o tecido absorve a tinta. O gesso é o que dá o suporte para a tinta, para que ela não seja absorvida pelo tecido. São muitas camadas e demora para secar, tem um tempo dilatado. Eu pendurava os tecidos no varal para eles secarem. Levou bastante tempo e fui aprendendo enquanto fazia. Em geral, levo dois meses por livro. No primeiro mês eu esboço, penso como vai ser a narrativa, procuro referências, desenho e envio para o escritor e o editor. No mês seguinte começo efetivamente o trabalho de pintura. 

Os personagens, agora na trama do tecido: “Senti esse processo como pintar em uma tela”. Foto: Ionit Zilberman

NO tamanho das ilustrações, da tipografia e da página é decidido em diálogo com o escritor e a editora?

IIsso varia. Muitas vezes o projeto já vem pronto, mas é raro. Atualmente sou eu que decido onde o texto fica na página. Costumo desenhar a página considerando o texto. Nesse, especificamente, eu não escolhi a fonte. Eu desenhei a página e depois os últimos acertos foram feitos na editora; então o projeto gráfico, dessa vez, foi meu. Isso porque não tem como pensar a página desconsiderando o texto; tem que fazer tudo junto. Já penso onde o texto ficará na página e o espaço que tenho para ocupar com a imagem. E a ideia não é ocupar a página toda: tem algumas páginas mais cheias e outras mais vazias. Eu quis muito que aparecesse a textura do tecido. O leitor vai percebendo a textura do tecido até a cena final, que é toda pintada, com o jabuti no rio com os livros. O Tino fez alguns pedidos e procurei seguir o que achei que fazia sentido. Justamente porque surgem ideias no processo; ele imagina algumas coisas e eu outras. Então procurei contemplar o desejo dele e colocar também o que me veio. Ele pediu por exemplo três páginas que fossem só de imagens, que a história continuasse através das imagens. O que é superlegal! O Tino tem larga experiência e esse texto tem muita brecha para a ilustração. Não é um texto que descreve tudo; ele não diz quais são os bichos. Ele pediu bichos da fauna brasileira, mas fui eu que decidi quais. Assim é mais legal, dá para imaginar muito mais. Se o texto já vem superdescrito, não tenho muito espaço para imaginar.

“Até a última página o rei existe na imaginação do leitor. Ele está presente fora do quadro. Procuro esse limite, esse equilíbrio entre mostrar e esconder”

NComo surgiu a ideia de colocar o rei de costas?  

IO rei é o personagem principal, mas ele não aparece ao longo do livro, só no final. Acho muito impressionante como algumas coisas podem estar presentes sem a imagem. O texto está falando dele, ele está lá, mas a imagem pode transmitir outras coisas. Ele aparece só no final, e mesmo assim você não o vê inteiramente. Se todos os personagens são bichos, o rei também é bicho, mas qual bicho? Normalmente você pensaria em um leão, um animal desse tipo. Pensei justamente em um bicho que ninguém relaciona com rei, um rato. Mas eu tinha que enganar, ou seja, mostrar o rei mas sem mostrar quem ele é. É uma imagem que engana, essa é a ideia. Esse é um livro cheio de charadas e pequenos enigmas. Assim como as cartas. Nas páginas 6 e 7 o texto fala da proposta do rei, ou seja, quem fosse fantasiado igual a ele ganharia o prêmio. Na hora eu pensei no jogo da memória, em que o objetivo é tirar duas cartas iguais. O rei estava propondo duas roupas iguais. Então me veio essa imagem das cartas repetidas. O livro está cheio desses pequenos detalhes. Na primeira página, quando se fala do arauto, eu coloquei o coelho da Alice. O Tino traz muitas referências no texto, então aproveitei e pensei em usar a mesma tática nas ilustrações. A imagem de Brasília foi algo que surgiu no meio do trabalho, quando eu estava olhando castelos. No começo era castelo. E aí pensei: mas por que não trazer para nosso contexto, para os dias de hoje? Em 2017 estávamos muito mobilizados pela política. Perguntei para o editor e o Tino o que eles achavam de trocar a palavra castelo por palácio. Eles toparam e eu coloquei o Palácio da Alvorada.

No varal: tecidos secam antes de ser fotografados para as páginas do livro. Foto: Ionit Zilberman

NComo ilustrar e, ao mesmo tempo, deixar espaço para a criança completar e imaginar?

INo filme Janela da alma tem uma fala do diretor Wim Wenders que eu acho maravilhosa e serve de guia para o meu trabalho. Ele fala do enquadramento e das coisas que ficam fora da cena. O que fica de fora muitas vezes é mais importante do que aquilo que está dentro. Isso tem a ver com o que falamos sobre o rei. O rei não aparece, mas a gente não se dá conta disso. Esse personagem tem uma presença sem a imagem. É uma presença através da ausência. O leitor vai imaginar esse rei. Até a última página o rei existe na imaginação do leitor. Ele está presente fora do quadro. Procuro esse limite, esse equilíbrio entre mostrar e esconder. Não dá para ficar óbvio e mostrar tudo, tampouco ficar inalcançável. Tem que achar a medida.

“Muitas vezes enxergo coisas no livro depois dele já finalizado. Eu olho e percebo: ‘Nossa, tem mais isso!”

NQuando texto e imagem encontram o equilíbrio?  

INão sei se tenho uma resposta. Tem muita coisa que é intuitiva para mim, sem um parâmetro exato na forma. Tem uma sensação de que “é isso, está pronto”. Muitas escolhas não são totalmente conscientes. Algumas ideias vão surgindo e só depois eu percebo: “Nossa, fiz essa escolha sem saber tudo sobre ela e agora vejo o sentido completo”. Muitas vezes enxergo coisas no livro depois dele já finalizado. Eu olho e percebo: “Nossa, tem mais isso!”. 

NQuais são suas principais referências?

ITem o Wim Wenders, de quem eu já falei. Aliás, o cinema é uma referência bem importante para mim. Tem alguns ilustradores de quem gosto muito, o que não significa que meu trabalho se pareça com o deles; gosto da Jutta Bauer e do Oliver Jeffers. A música também me inspira. Minha mãe costurava e também fazia roupinhas de bebê em uma máquina de tricô que parece um tear bem grande. Ela trabalhava em casa e meu passatempo era desenhar. Eu usava fones de ouvido bem grandões e dizia que desenhava as músicas. Não me lembro, mas me contam que eu falava isso. É engraçado como algumas coisas se mantêm. Hoje desenho sempre ouvindo música.

A capa, de Raquel Matsushita: uma pergunta convida o leitor a entrar na história. Imagem: Reprodução

NComo artista plástica e ilustradora, habituada a manipular diversos materiais, como você enxerga a crescente virtualização da infância? Crianças estão mexendo menos na terra, nas tintas, na água…

IAcho complicado. Não só para as crianças, mas para os adultos também. Parece que estamos vivendo a vida no Instagram, no Facebook. Eu fico muito incomodada quando vou almoçar com alguém e a pessoa está lá olhando o celular. Você deixa de estar presente na vida real para estar em outro lugar que é quase lugar nenhum. Estamos vivendo uma overdose. Na quarentena isso ficou muito forte: aulas no computador, tudo através do computador. Eu espero que chegue uma hora em que a gente perceba que precisamos das coisas, das pessoas, dos materiais. Existem outras ferramentas que eu poderia usar e que inclusive tornariam meu trabalho mais rápido. O iPad tem um programa que é ótimo, em que dá para escolher os pincéis, as tintas, o papel. É incrível, só que eu gosto demais da matéria. A melhor parte do processo, para mim, é pegar na tinta. Adoro pensar, conceber, esboçar, mas o grande prazer é mexer nos materiais, experimentar. Eu já pintei madeira, por exemplo, sem nunca ter pintado antes. Tenho uma curiosidade para saber como o material funciona. Cada livro é um laboratório, e esse processo artesanal é fundamental. Acho que não damos conta de um mundo totalmente virtual e estamos em um limite. Precisamos dos materiais.

NAlgumas pesquisas dizem que a mãe ou outra figura feminina desempenham um papel fundamental na criação do hábito de leitura. Quem despertou seu interesse pelas histórias?

INo meu caso não foi minha mãe, foi minha irmã. Essa é uma história que adoro contar. Eu saí de Israel quando tinha seis anos, mas minhas irmãs mais velhas ficaram lá. Em Israel todo mundo serve no Exército, é obrigatório. As mulheres fazem dois anos e os homens, três. Quando minha mãe se casou de novo e eles resolveram vir para o Brasil, eu era pequena e vim junto. Minhas irmãs mais velhas ficaram lá. A mais nova entre as três me mandava fitas cassete contando uma história. Ela enviava o livro e junto a fita com a voz dela contando. Ela conseguiu se fazer presente através das histórias. Meu amor pelas histórias e livros vem daí. Ainda tenho alguns desses livros e fitas. Meu laço com as histórias começa ali. Eu lembro da minha mãe o tempo todo trabalhando, ela tinha quatro filhas. Minhas irmãs eram mais presentes.

A pequena Ionit: brincando com fantasias. Foto: Arquivo pessoal

NO que não pode faltar em um bom livro infantil?

IAcho que não pode faltar esse espaço para a imaginação de que estávamos falando. Acho complicado quando as ilustrações repetem o texto. A Jutta Bauer ensina isso muito bem nos livros dela, por exemplo em O anjo da guarda do vovô. O texto conta uma história e a ilustração conta outra. Tem coisas que só funcionam quando o texto e a imagem estão juntos. Essa complementaridade para mim é fundamental. Além disso, acho primordial que um livro tenha muitas possibilidades de leitura. Se eu conseguir fazer isso com meu trabalho, saio satisfeita. No Com que roupa irei para a festa do rei? teve uma troca muito bacana entre a gente; para mim foi uma experiência incrível. Em geral eu prefiro quando me entregam o texto e dizem “pode ilustrar”, quando me deixam sozinha. Mas o Tino é especial e superentende que texto e ilustração são complementares. E teve abertura para inclusive mexer no texto. Conversamos muito. Acho que o livro alcançou um lugar que não seria possível sem essa troca entre autor, ilustrador e editor. 

Saiba mais

Leia mais