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Escola de acolhimento

Uma rede de apoios envolve crianças haitianas, venezuelanas e com deficiência e suas famílias no cotidiano da EM Waldir Garcia, em Manaus


EM Prof. Waldir Garcia, em Manaus: crianças do Haiti, da Venezuela e brasileiras aprendem juntas. Foto: Arquivo EM Prof. Waldir Garcia

Por Maggi Krause, Rede Galápagos São Paulo

Antes de qualquer inovação, existe um grande problema. “Perdíamos as crianças para os sinais de trânsito”, declara a diretora Lúcia Cristina Santos, da Escola Municipal Prof. Waldir Garcia, em Manaus, que tem turmas do 1º ao 5º ano. A pobreza as empurrava a pedir dinheiro na rua – teve ano em que contabilizaram 40 evasões. Situada às margens de um igarapé, a escola passou de 500 estudantes para 200 entre 2010 e 2015, quando uma uma obra de saneamento removeu famílias e suas casas de palafitas e deixou a Waldir Garcia ilhada em meio à lama.

Ao mesmo tempo, a proximidade com a Pastoral do Migrante, na Paróquia São Geraldo, fez da escola a primeira a matricular haitianos em Manaus. “Também aceitou os venezuelanos antes mesmo de seus pais tirarem documentos”, relata Rosana Nascimento, coordenadora de projetos na Pastoral, que engloba abrigo de passagem, creche e centro de documentação. Ela explica que haitianos, por conta do terremoto de 2010, recebiam visto humanitário. Os venezuelanos, por sua vez, podem ser considerados refugiados, por temerem perseguições em seu país, ou imigrantes, em busca de melhores condições econômicas. “Como não há políticas públicas para eles, na prática as dificuldades que enfrentam são as mesmas”, diz Rosana.

Na escola, as matrículas ocorrem em vários momentos do ano, pois a diretora Lúcia desburocratizou o processo: “As crianças chegam assustadas e aqui encontram quem fale a língua delas e as trate com respeito.” A necessidade de se comunicar com as famílias impulsionou o estudo de espanhol, francês e crioulo haitiano entre professores e funcionários. Dentre os 227 alunos matriculados em 2020, 50 são estrangeiros e 16 têm algum tipo de deficiência.

A comunicação em várias línguas é reforçada em cada um dos espaços da escola: placas em português, inglês, espanhol, francês e crioulo haitiano. Foto: Nidiacris Ribeiro / Trupe Filmes

Abraçar a educação integral mudou tudo 
Práticas inovadoras entraram no espaço escolar após a parceria com o Coletivo Escola Família Amazonas (CEFA) – um grupo de pais de escolas particulares interessados em inserir na rede pública de Manaus a educação integral, baseada em princípios democráticos e na autonomia dos educadores. Em 2015, o coletivo conseguiu apoio da SME e organizou um seminário com educadores transformadores. Entre eles, José Pacheco, do Projeto Âncora, escola em Cotia (SP) que encoraja autonomia na aprendizagem, e Braz Nogueira, ex-diretor da escola Campos Salles, em Heliópolis, São Paulo. Além disso, em uma rodada de visitas a escolas públicas, o CEFA chegou à Waldir Garcia e se encantou com a quadra coberta, o quintal com telhado chapéu de palha e os laboratórios. “Foi um encontro necessário e urgente. A equipe da escola, ao conhecer os princípios da educação integral, logo se engajou na proposta. Ao mesmo tempo conseguiu junto à SME ampliar o horário de funcionamento para atender os pais que precisavam trabalhar e não tinham com quem deixar as crianças”, relembra Ceane Andrade Simões, atuante no CEFA, professora da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e especialista em formação de professores.

Também foi feito um trabalho para conhecer experiências de escolas que se abriram para a comunidade na periferia, como é o caso da Amorim Lima e da Campos Salles, em São Paulo. A gestão participativa foi implantada por meio de assembleias.

A diretora Lúcia Cristina Santos é quem promove a gestão democrática: envolvimento da equipe, busca por parcerias e incentivo ao diálogo com a comunidade no entorno da escola. Foto: Nidiacris Ribeiro / Trupe Filmes

A aprendizagem acontece em atividades em volta de mesas redondas ou nas oficinas de teatro, dança, esportes e música. “Criamos roteiros de estudos que respeitam o tempo e ritmo de cada criança e começamos a trabalhar a inclusão e a equidade para todos”, relata a diretora Lúcia, que além de atrair as crianças, passou a escutar mais as famílias e montar uma rede de apoios para suprir suas necessidades.  

Reconhecimento por ser pluriétnica e inclusiva
Da parceria com o CEFA também nasceu o projeto de tutoria. Cada criança escolhe um tutor, que a acompanha até o final do 5º ano: pode ser uma professora, um funcionário de apoio ou famílias, com quem se reúnem uma vez por semana para conversar sobre seus projetos de vida e de estudos. Batizada de “Redes de Aprendizagens” e inscrita na 12ª edição do Prêmio Itaú-Unicef (atual Programa Itaú Social UNICEF), a iniciativa foi vencedora regional na categoria microporte em 2017, representando o Norte na cerimônia em São Paulo. A verba da premiação rendeu um laboratório de Ciências, um telecentro, equipamentos e mobiliário, entre outros.

Para o CEFA, viabilizou a realização do 2º Seminário Mudar a escola, melhorar a educação: Transformar vidas, que reuniu 600 participantes.

Mudar a escola, melhorar a educação:Transformar vidas: segundo seminário reuniu 600 pessoas em 2019. Foto: Izabela Aleixo / CEFA

Também em 2017, a Waldir Garcia foi reconhecida como a primeira Escola Transformadora do Norte do Brasil, pela organização internacional Ashoka e pelo Instituto Alana. A gestão inovadora dentro da rede pública de ensino chamou a atenção das universidades Estadual e Federal do Amazonas, que oferecem oficinas, palestras e estagiários para a escola. A troca de saberes de sua comunidade pluriétnica só enriqueceu as aprendizagens (mesmo sem ser orientada para avaliações externas, em 2019 alcançou 7,5 no Ideb, a média do município foi 5,9). Atividades coletivas como mutirões, grupos de responsabilidade e projetos envolvem os familiares. “No ‘Temperos do Saber’, as venezuelanas ensinaram a fazer arepas [prato de massa de pão à base de milho, popular na Venezuela, Colômbia e Panamá] e contar sobre sua trajetória de vida. E conhecemos mais da história do Haiti junto com a receita da Sopa da Liberdade”, descreve Lúcia. 

Yenin Rodrigues Pernalete veio da Venezuela matriculou a filha Valentina no 1º ano da Waldir Garcia. “Para mim, educação de qualidade é resultado de trabalho colaborativo, em que pais, mães, alunos, funcionários e professores se aliam para formar um indivíduo respeitoso com seus iguais e que se reconhece como parte do entorno”, disse ela durante uma assembleia pela internet. Yenin relata que o mesmo cuidado dado aos estrangeiros se estende às crianças com deficiência. A inclusão é um valor e um norte. Não à toa o título do projeto que Lúcia inscreveu como gestora no Prêmio Educador Nota 10 desse ano é “Acolher para todos envolver e aprender”. Ela foi eleita uma das dez vencedoras, elogiada pelo trabalho intersetorial. Além do CEFA e da Pastoral do Migrante, Lúcia conta com a colaboração da Unidade Básica de Saúde (UBS), do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) e da Unimed da região. “Criamos uma rede de apoio em que um não solta a mão do outro. Saber que estamos juntos nos dá força e nos motiva a seguir adiante”.

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Foto: Arquivo EM Prof. Waldir Garcia