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Ensinando a melhorar

A educadora Fabiana Silva, de Coruripe, Alagoas, criou um projeto que fez sua cidade tornar-se referência nacional em ensino público


Fabiana Silva: reconhecimento do Prêmio Espírito Público pelo conjunto do trabalho como articuladora de ensino, incluindo a melhoria das notas do Ideb das escolas de Coruripe, Alagoas. Foto: Lucas Landau/Divulgação/Prêmio Espírito Público

Por Fernanda Santana, Rede Galápagos, Salvador

Quando começou a estudar na Escola Municipal Santa Sofia, na zona rural de Coruripe, litoral-sul de Alagoas, Fabiana Silva Rocha, 40, precisava dividir até a cadeira. Era 1997. Não havia espaço para abrigar os alunos, que se apinhavam em quatro salas, nem lanche e, às vezes, sequer aula. O problema era vivido não só naquela escola, mas em todas da região. Três em cada dez alunos, desestimulados, largavam os estudos e, precocemente, iniciavam o trabalho nas plantações de cana de açúcar. “É impressionante ver o quanto o ensino mudou”, diz Fabiana. A aluna que tinha de compartilhar até o assento para poder estudar hoje é articuladora de ensino da Secretaria Municipal de Educação (Semed). Pelo seu trabalho para melhorar os indicadores escolares locais, ela ganhou o prêmio Espírito Público de 2019, dedicado a reconhecer pessoas que transformam setores do serviço público.

A atual Escola Municipal Santa Sofia, no distrito de Corta-Cana, onde mora Fabiana, em quase nada lembra a do passado. Agora tem 13 salas, oferece atividades extracurriculares, como esportes, uma quadra poliesportiva e os alunos deixaram de abandonar os estudos. Segundo a Semed, a evasão escolar é quase nula na cidade. “Aqui nós contamos com poucas escolas particulares, porque não há muita adesão a elas. Tenho orgulho por trabalhar para melhorar a educação pública e também me orgulho de dizer que minha filha estuda em escola pública”, diz Fabiana, cuja filha Lavínia, 8 anos, estuda na mesma unidade onde ela passou parte da infância. A trajetória de Fabiana na educação começou aos 19, quando, inspirada pela irmã, tornou-se professora do ensino infantil. A escola onde trabalhava ficava num povoado chamado Botafogo. “Comecei a ver que poderia contribuir não só dentro da sala de aula”, lembra. Aos 23, assumiu o cargo de coordenadora da escola. Seu desejo era colocar em prática ideias que pudessem melhorar a educação.

Modelo de referência
O município de Coruripe, onde vivem mais de 52 mil pessoas, é dividido entre a parte central, mais turística, e a rural, onde predominam a agricultura e a pesca. Fabiana sabia por experiência própria que normalmente os alunos, principalmente na zona rural, não se sentiam atraídos pelos estudos. O trabalho parecia mais atrativo num contexto em que mesmo as crianças trabalham para ajudar a família. Seus principais desafios eram motivar os estudantes, por meio de uma nova proposta educacional, e melhorar a estrutura das escolas. Em 2017, convidada para o cargo de articuladora e gerente de ensino, devido ao seu trabalho como diretora de uma escola que já despontava com bons rendimentos, ela idealizou o plano que colocaria Coruripe numa posição de destaque no ensino básico público: o “Ideb, juntos nós podemos ir além”, composto por ações que alavancaram o rendimento dos alunos e contribuíram para a premiação de Fabiana no Espírito Público. O prêmio, que tem o patrocínio do Itaú Social e de outras instituições, considerou o conjunto da obra de Fabiana, também idealizadora de outros projetos que se inter-relacionam. Um deles, o “Meu Primeiro Livro”, criado naquele mesmo ano, colocou em prática uma ideia que, havia muito, Fabiana nutria e exercitava: pôr o aluno como foco principal da estratégia de ensino.

Reunião com professores da rede pública: encontro periódico para trocar experiências e discutir as dificuldades dos alunos. Foto: Acervo Pessoal/Fabiana Silva

Foi implantada uma agenda permanente de monitoramento de cada uma das 17 escolas municipais, com relatórios de rendimento, visitas semanais para identificar problemas e soluções e um elo entre elas para que cada uma contribuísse com as demais, compartilhando suas experiências positivas. Assim foram sendo traçados planos para mudar a realidade nas unidades com notas mais baixas no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). As escolas municipais também começaram a instituir gincanas pedagógicas, intensivos e revisões de conteúdos que os professores registravam como problemáticos para a maioria dos estudantes. A troca de experiências se intensificou e foi adotado um modelo de reuniões mensais para contabilizar o que havia dado certo e errado ao longo do período.

Naquele mesmo ano, os resultados surgiram. O município teve nota 8,5 no Ideb de 2017. A Escola de Educação Básica Vereador José Wilson, a melhor entre todas de ensino para os anos iniciais (até o 5º ano) avaliadas pelo indicador, alcançou 9,9. Foi recordista nacional, diante de uma média nacional que ficou em 5,8. Em abril de 2019, a Semed de Coruripe foi convidada a enviar representantes para o município de Gararu, em Pernambuco, interessado em replicar o modelo que se tornou referência mesmo fora de Alagoas. “Fizemos com que os alunos fossem colocados no centro do próprio aprendizado. As ações são feitas com base no que a gente avalia que funciona pensando neles. É algo em que eu própria acredito e estamos alinhados nisso”, diz Fabiana. Sua área de atuação integra o Conisul – Consórcio Intermunicipal do Sul do Estado de Alagoas, participante do programa Melhoria da Educação, do Itaú Social, que proporciona formação continuada para gestores educacionais nos eixos pedagógico e administrativo-financeiro. 

Aprendizagens da quarentena
Os alunos com mais dificuldades passaram a ser acompanhados por um segmento do “Ideb, juntos nós podemos ir além”, chamado “Laboratórios de Aprendizagem”. No contraturno, aulas de reforço. Em maio de 2018, os alunos da rede municipal foram incentivados a escrever textos em variados gêneros, depois reunidos no livro homônimo ao projeto “Meu Primeiro Livro”. Na noite de autógrafos, em dezembro daquele ano, educadores, pais e alunos se emocionaram. A estudante da Escola Vereador José Wilson, Maria Clara Lessa, 12, foi uma das escritoras. “Por ter participado, eu me apaixonei ainda mais pela leitura, o que me ajudou na escrita e na aprendizagem”, conta. Em setembro do ano passado, Maria viajou a Brasília acompanhada de duas colegas e representantes da educação de Coruripe. Lá, foram homenageados, junto a outras 20 instituições de ensino, como destaques da educação fundamental.

Durante a pandemia, as atividades presenciais foram suspensas. Mas as aulas remotas começaram rapidamente e a previsão é que em dezembro de 2020 sejam completados os 200 dias letivos na rede municipal. Pelo menos 80% dos estudantes têm acompanhado as aulas on-line. Os que não têm computador recebem o material escolar em casa, junto a um cronograma elaborado pelos professores. Uma vez realizadas as atividades, os pais entregam nas escolas e depois as recebem corrigidas. Em agosto, Fabiana pensou em adaptar para as circunstâncias da pandemia a atividade narrativa de “Meu Primeiro Livro”, agora com o título de “Aprendizagens da Quarentena”. “Além de sabermos que há várias histórias a contar, vamos poder acompanhar um pouco como está o aspecto emocional dos alunos”.

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