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Polo de desenvolvimento educacional

Em busca da educação brasileira de qualidade

Pesquisas demonstram que o desenvolvimento econômico de um país possui relação direta com sua capacidade de formação de capital humano, que só alcança escala quando atrelado à oferta de boa educação pública. No entanto, há imensos desafios na área, como diminuir as taxas de evasão e repetência, aumentar a média de anos de estudo da população – que ainda é inferior à dos países desenvolvidos -, e obter resultados de aprendizagem de estudantes que indiquem uma educação de qualidade.

Para o vice-presidente da Fundação Itaú Social, Antonio Matias, é fundamental envolver todos os setores da sociedade nessa discussão. “Sem esse empenho, não conseguiremos superar os problemas”, defende. Por esse motivo, a Fundação Itaú Social organizou o seminário Educação e Desenvolvimento, no último dia 24, em São Paulo, para debater o tema. O professor norte-americano Eric Hanushek, doutorado no MIT, membro da Academia Nacional para Educação e professor de Economia e Educação do Centro de Estudos Hoover Institution na Stanford University foi convidado para expor seus estudos sobre desenvolvimento econômico combinado com fatores educacionais.

Elemento determinante

Hanushek iniciou sua participação explicando que aborda as mesmas questões que traz para o debate brasileiro em palestras que faz nos Estados Unidos. “Assim como aqui, temos muito que melhorar em educação”, explica. Para o especialista, o investimento em capital humano é o que faz a diferença quando o assunto é o desenvolvimento de uma nação. No entanto, injetar dinheiro na escola sem se preocupar com o que crianças e adolescentes estão aprendendo não é efetivo.

Ele também considera essencial que os políticos e as pessoas da sociedade entendam que o sucesso de qualquer reforma educacional depende de tempo. “Em média, são necessários de 10 a 30 anos, afinal o impacto só pode ser medido quando os indivíduos chegam ao mercado de trabalho”, afirma. Outro ponto ressaltado por ele foi a relação entre distribuição de renda e conhecimento. “Se estamos preocupados com a distribuição de renda, devemos também nos atentar em como o conhecimento está sendo distribuído”, alerta. “Quem sabe mais ganha mais e isso impacta diretamente no crescimento econômico.”

Quando perguntado sobre o que faz diferença na educação, Hanushek conta que o elemento determinante para a aprendizagem escolar é o professor. “A família e a renda contam sim, mas ter um bom mestre no período de três a cinco anos pode compensar, por exemplo, a defasagem de crianças oriundas de famílias com menos condições sociais e econômicas”, explica. Sobre o perfil do bom professor, as pesquisas não conseguem isolar as variáveis responsáveis pela atuação desse profissional. “O rendimento escolar dos alunos não está relacionado ao nível de diplomas do educador, ou ao valor salarial dos docentes, ou aos anos de experiência da equipe e à certificação dos profissionais”, diz.

Para detectar o bom profissional, basta acompanhar o desempenho de suas turmas. “Se a classe aprende muito, o professor é bom”, avalia. “Se ele é ruim, a turma aprende pouco.” O especialista defende que se elimine de 3% a 6% dos piores docentes para elevar o nível de ensino. O problema é como fazer isso, mas Hanushek revela dois caminhos: “Os futuros professores só seriam absorvidos se tivessem boa atuação, como acontece em outras profissões. Para os que já estão na rede, seria necessário oferecer uma proposta diferenciada para que pudessem migrar para um novo contrato que levasse em conta o desempenho de cada um.”

Outros caminhos

Além do especialista internacional, brasileiros de diferentes áreas deram suas contribuições e garantiram a riqueza do debate. A professora Maria Helena Guimarães, da Universidade Estadual de Campinas, por exemplo, reconhece o valor das pesquisas e avaliações que envolvem o tema e lamenta que ainda não exista algo que mensure a qualidade do professor e as ações que funcionam na escola. Aproveitou seu tempo de exposição para defender o plano de metas implantado em São Paulo, que foi criado durante sua gestão como secretária de Educação do estado. “Não adianta ter resultado de estudo se não existe um plano de intervenção pesada”, conta. “Esse é o caminho para ter profissionais mais qualificados.”

Também falou sobre o impacto decisivo que a leitura e a escrita têm sobre outras áreas de conhecimento, como matemática e ciências. Por esse motivo, a professora considera essencial uma política que impacte a alfabetização e estimule o comportamento leitor. Sobre investimento, Maria Helena pontuou que no Brasil há sim um problema com verbas porque o gasto por aluno é de R$ 1.400, muito baixo segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Nessa questão, o professor Naercio de Menezes Filho, da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e do Insper, complementa: “A relação entre gasto e proficiência não é direta”.

Segundo ele, pesquisas demonstram que mesmo as escolas que gastam mais com educação, permanecem com desempenho parecido com as que injetam menos porque não são acompanhadas de outras ações complementares.

Do mesmo jeito que Hanushek, Menezes Filho considera a educação escolar a variável mais importante na sociedade, pois pessoas mais educadas produzem mais e isso resulta em crescimento econômico, além de reduzir a desigualdade de renda e a pobreza. No Brasil, o avanço educacional das últimas décadas trouxe frutos. Porém, está estagnado no momento. Um dos problemas localizados pelo especialista está no ensino médio. Além da evasão, existe um problema de acesso. “Com a falta de vagas para esse segmento, os alunos não conseguirão chegar às universidades.”

Uma possibilidade apontada pelo pesquisador Ricardo Paes de Barros, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), é a estratégia que vem sendo adotada pelo Instituto Unibanco, por meio do Projeto Jovem de Futuro. Trata-se de uma ação desenvolvida em parceria com secretarias estaduais de Educação para oferecer a escolas públicas de ensino médio regular apoio técnico e financeiro para a concepção, implantação e avaliação de um plano de melhoria de qualidade.

Segundo o pesquisador, após um ano de programa, os dados mostram que um pequeno investimento de R$ 100,00 por aluno, dependendo da maneira como é empregado, tem impacto direto na aprendizagem dos alunos. “Se conseguirmos colocar o programa em todo o Brasil, a taxa de crescimento aumentaria um ponto percentual”, prevê. “Seria um caminho para crescer em um pequeno período de tempo.”