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Educação à prova de Covid

"Com o projeto Apadrinhe um Sorriso, mesmo durante a pandemia continuo levando atividades e literatura às crianças da comunidade onde moro"


Fabiana da Silva, na sede em Duque de Caxias: crença na educação como caminho para transformação. Foto: Felippe NTK

Depoimento de Fabiana da Silva, Pedagoga em Duque de Caxias, Rio de Janeiro
Por Marcos Furtado, Rede Galápagos, Rio de Janeiro

Na infância, como minha mãe precisou ficar muito tempo no hospital para acompanhar o tratamento do meu irmão com câncer, eu e minha irmã tivemos de deixar a escola para cuidar da casa e dos demais. Só consegui voltar a estudar aos 12 anos. A partir daí eu não parei. Trabalhei como camelô vendendo balinhas, entre outras coisas. O ensino superior foi uma conquista. Hoje sou pedagoga formada pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Moro na comunidade Parque das Missões, em Duque de Caxias. Motivada pela vontade de aplicar na comunidade os conhecimentos da minha formação, comecei em 2009 o projeto Apadrinhe um Sorriso, com ações pontuais de entrega de brinquedos no Natal. Na época, meus colegas de faculdade ajudavam.

Dois anos depois, criei o Sarau de Poesia. Como não existia um espaço específico, eu botava livros em uma mala e saía chamando uma turma de crianças para participar da roda de leitura no quintal da vizinha. A iniciativa cresceu e hoje, com cerca de 300 alunos, temos as ações de leitura, aulas de teatro, capoeira e futebol para crianças a partir dos 4 anos. Ao longo destes 12 anos já disponibilizamos mais de 10 mil livros para crianças e jovens.

Para nos adaptarmos à realidade da quarentena, disponibilizamos lápis, folhas de papel A4 e um livro por semana para as crianças realizarem atividades em casa. Passamos tarefas de leitura de livros e de construção de frases para aquelas que sabem ler. Para as crianças que não foram alfabetizadas, obras de literatura com imagem. Em alguns casos, quando o responsável não sabe ler, eu gravo e envio vídeos contando as histórias dos livros. Também focamos na distribuição de cestas básicas, materiais de limpeza, álcool gel e informativos sobre cuidados, além das reuniões on-line com as mulheres da comunidade.

Uma das iniciativas, que até então era presencial, se chama Roda de Mulheres. Foi criada para acolher moradoras vítimas de violência de gênero. Garantimos o acompanhamento jurídico e psicológico para elas. O Apadrinhe um Sorriso mexe com a estrutura ao mostrar que o Parque das Missões tem cultura, lazer, arte, educação e projeto de futuro. A comunidade precisa fazer parte da cidade e resistir ao processo de apagamento de sua história. Mexer na estrutura é ver alunos do projeto voltando para fazer por outros o que foi feito por eles. Eu considero que educação é transformação.

Atualmente temos 784 padrinhos, que fazem doações e contribuem com o que podem, e onze voluntários fixos. Eu trabalho na Ouvidoria Externa da Defensoria Pública do Rio de Janeiro. Pago minhas contas e o que sobra invisto na ONG. As desigualdades sociais não aumentaram com a pandemia, como muitos dizem. É muito leviano colocar tudo na conta do coronavírus. Essa situação somente abriu a cortina e mostrou a ausência do poder público, realidade que não é novidade para quem vive em uma comunidade como a nossa. Somos a única ação que oferece atividades educativas e culturais no Parque das Missões. Ver alunos das primeiras turmas do Apadrinhe um Sorriso na faculdade me dá a certeza de que essa iniciativa vale a pena.  E isso só reforça a minha crença que educação é transformação.

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