Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca
Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Dez perguntas para

VINÍCIUS OLIVEIRA PEREIRA – É preciso ler para crer

Literatura como aliada de professores para promover um olhar antirracista desde cedo


Dez perguntas para
Vinícius Oliveira Pereira
Graduado em pedagogia, mestre e doutorando em educação. Pesquisador do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros da Uerj, professor de educação infantil na Escola Municipal Professora Wanda Gomes Soares, em Duque de Caxias (RJ), e autor de artigo científico selecionado pelo Edital Equidade Racial na Educação Básica, do Itaú Social

Vinícius e a boneca abayomi Maria Mariô na sala de leitura da Escola Municipal Professora Wanda Gomes Soares: “De algum modo, impactamos um pouco o entendimento que essas crianças têm sobre pertencer à população negra”. Foto: Arquivo pessoal

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA)

Júlio Emílio Braz é um premiado escritor brasileiro, com carreira voltada à literatura infantojuvenil. É autor de Pretinha, eu?, o primeiro livro da vida do repórter que aqui escreve, apresentado pela sua professora da 5ª série. Júlio também escreveu Felicidade não tem cor, em que conta a história de Fael, uma criança negra que sonha em se tornar branca para fugir de ofensas racistas. Além do autor, os dois livros têm em comum a abordagem leve para um tema complexo como o racismo. Por isso, as obras são utilizadas por professores que pretendem tratar de pautas raciais na sala de aula.

Um desses professores é o pedagogo Vinícius Oliveira Pereira. Cursou graduação e mestrado e atualmente faz doutorado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Ele sempre estudou em escolas públicas e decidiu que esses espaços eram onde iria atuar profissionalmente. Negro, o pedagogo entende que a jornada por um mundo melhor tem na educação o seu ponto de partida. “Por causa da minha inserção acadêmica e por questões que eu percebi na escola, não tinha como o meu trabalho pedagógico não estar articulado a um debate sobre as possibilidades de construção de uma educação antirracista”, avalia.

Desde 2013, Vinícius trabalha na Escola Municipal Professora Wanda Gomes Soares, em Duque de Caxias, RJ, onde nasceu e cresceu. Em seu ofício, ele é o responsável pela sala de leitura da escola, onde realizou uma atividade de contação de história com estudantes da educação infantil até o 5º ano. O pedagogo utilizou o livro Felicidade não tem cor, de Júlio Emílio Braz, e uma boneca abayomi que tinha em casa, a Maria Mariô, para fazer as crianças refletirem sobre as questões raciais. Vinícius conta a experiência e os seus resultados no artigo científico “A potencialidade da literatura como prática pedagógica antirracista: um estudo de caso”, um dos nove selecionados pelo Edital Equidade Racial na Educação Básica. Em entrevista ao Notícias da Educação, o professor fala sobre as suas percepções e projeções a respeito de uma educação antirracista.

O Edital Equidade Racial na Educação Básica buscou a mobilização e articulação de escolas, redes de ensino, coletivos, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil para viabilizar e fortalecer estratégias de enfrentamento das desigualdades raciais na educação. A iniciativa do Itaú Social contou com a realização do Ceert (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades) e a parceria do Instituto Unibanco, da Fundação Tide Setubal e do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância).

Na categoria Pesquisa Aplicada, foram selecionados 15 projetos, desenvolvidos durante um período de 18 meses, a partir de outubro de 2020. Na categoria Artigo Científico foram nove selecionados, sendo três artigos feitos por estudantes de graduação, três de mestrado e três de doutorado. Seis artigos contaram com reconhecimento financeiro e três receberam menção honrosa. Em relação à raça-cor dos inscritos, 74% se declararam pesquisadores negros. Entre os autores de artigos, 77%. A publicação digital que reúne todos os projetos selecionados pode ser acessada neste link

NNotícias da Educação — Você entende que a Lei 10.639 tem sido efetiva em promover uma educação antirracista?

VVinícius Oliveira Pereira — Há muitas experiências positivas de professores que entendem a importância dessa lei para a reeducação das relações étnico-raciais. Aqui em Duque de Caxias temos um grupo forte de professores engajados com a temática que tentam desenvolver práticas pedagógicas antirracistas. Porém, as pessoas que se engajam nessa prática ficam muito isoladas. Por vezes, ela não é contemplada de forma institucional. Por exemplo, uma professora vai discutir essa temática e faz um excelente trabalho, mas isso acaba não sendo suficiente. Quando essa pessoa que trazia a perspectiva racial para as práticas pedagógicas sai da escola, o trabalho se perde porque não é um trabalho institucional. O grande desafio da aplicação da Lei 10.639 é: de que modo as diretrizes que estão presentes nesse documento serão inseridas e adotadas pela instituição, em seu conjunto. 
Outra dificuldade é a ideia de que nós vivemos uma democracia racial. Uma parcela do corpo docente entende que “não precisamos tratar da temática racial porque isso acaba segregando”. Diz-se que esse tipo de abordagem segrega a sociedade brasileira, mas ela já está toda segregada. Uma parcela da sociedade, devido a suas especificidades étnicas, está sendo vítima de discriminações, o que produz desigualdade. Falam dos Estados Unidos, que vivem uma segregação mais acirrada, como se nós tivéssemos relações raciais harmônicas.

NEntão, na prática, o mito da democracia racial atrapalha?

VÉ um dos elementos que, com certeza, atrapalham. Se a gente vive numa democracia racial, por que eu vou falar de consciência negra? Vamos falar de consciência humana. É como se esse discurso universal desse conta das especificidades. As pessoas acreditam que nós só falamos da questão racial quando falamos da cultura negra, mas todo o currículo escolar é marcado pela dimensão racial. É importante, quando se fala da história, destacar de que modo ela está marcada pela questão racial, mesmo quando a gente não fala de pessoas negras. A história que nos é contada é marcada por uma perspectiva racial, na medida em que se trata do olhar de uma parcela branca da sociedade. Só que elas não são reconhecidas como raça, são reconhecidas como se fossem… Não existe a dimensão racial quando se fala da branquitude. Quando falamos de raça, visibilizamos essa dimensão, que às vezes é mascarada, mas está presente a todo momento.

“O fato de o estudante negro dizer que não é negro diz mais sobre a sociedade do que propriamente sobre ele mesmo.”

NComo os livros didáticos têm se adaptado a essa perspectiva?

VA historiografia brasileira, sobretudo, tem avançado bastante nessas questões. Com a Lei 10.639, vieram também orientações para a produção dos livros didáticos. Eu trabalho na sala de leitura, então não tenho contato diretamente com os livros didáticos, mas já percebo alguma mudança. Não se fala mais em descobrimento, mas em chegada dos portugueses ao Brasil. Sobre a abolição da escravatura, percebo uma mudança ao lembrar dos livros didáticos com os quais eu tive contato quando estudante do ensino básico, que deram pouca ou nenhuma visibilidade às pessoas escravizadas que participaram de movimentos abolicionistas. A historiografia tem dado visibilidade a esses movimentos e ao modo como foram responsáveis pelas conquistas que nós tivemos. É um caminho lento, mas está acontecendo. É um longo processo porque quando a gente fala de racismo, fala de uma estrutura que está aí há muito tempo. E a lei está completando 18 anos agora em 2021.

Após leitura do livro Felicidade não tem cor, as crianças passaram a usar o lápis marrom para pintar tons de pele: “Ninguém quer parecer com aquilo que não é valorizado”. Foto: Arquivo pessoal

“O racismo não é um problema exclusivo da população negra. Foi bom incluir os alunos brancos para que eles pensassem em que medida influenciam nessas relações e como podem pensar outras atitudes possíveis.”

NVocê trabalha com literatura na escola e pesquisa relações raciais na universidade. De que forma entende que a literatura pode ser elemento de promoção da equidade racial no espaço escolar?

VTenho o cuidado de escolher livros literários que representam de forma positiva a população negra. As crianças se veem representadas nas histórias por pessoas que são negras como elas. A literatura tem apresentado uma série de possibilidades de discussão de temáticas que não são contempladas no currículo oficial. Identificamos que a questão racial era uma pauta a ser trabalhada nas escolas porque era comum as crianças negras não se reconhecerem enquanto parte desse grupo étnico, por exemplo. Entendemos que o fato de o estudante negro dizer que não é negro diz mais sobre a sociedade do que propriamente sobre ele mesmo. Quais imagens vinculadas à população negra fazem com que um estudante não se sinta parte daquele grupo étnico-racial? Costumo dizer que as crianças não são bobas e estão, a todo momento, atentas ao que é valorizado. Ninguém quer parecer com aquilo que não é valorizado.
Em relação à atividade que realizamos, como o livro é grande para ser lido de uma única vez, eu lia um ou dois capítulos e, depois da leitura, abria uma roda de diálogo. Eu perguntei às crianças: o que fez Fael querer ser branco? A partir dessa literatura, as crianças identificaram as questões que estavam implicadas na condição de vida de Fael, mas não só isso. Começaram a relatar as situações de racismo que elas mesmas vivenciam no espaço escolar. Entenderam que o desejo de ser branco do personagem se dava justamente por ele sofrer questões de preconceito, não porque ele achava que era melhor ser branco. A princípio, os estudantes falavam que era bullying, mas depois o racismo apareceu como um elemento que marca a história. Os estudantes negros participavam, mas os brancos também. O racismo não é um problema exclusivo da população negra. Foi bom incluir os alunos brancos para que eles pensassem em que medida influenciam nessas relações e como podem pensar outras atitudes possíveis. A partir da história de vida de Fael, as crianças puderam analisar as suas próprias histórias de vida.

NPor que é importante diferenciar as noções de racismo e de bullying?

VTenho percebido que, muitas vezes, práticas racistas são consideradas bullying. E, às vezes, esse discurso de bullying fica na superficialidade e não dá conta das dimensões raciais e de gênero que estão presentes nessas práticas. Fica muito no “feio” ou “bonito”. Mas o que é feio? O que é considerado bonito? O bonito geralmente está ligado a uma ideia de branquitude, a traços característicos de pessoas brancas, enquanto o que é considerado feio está conectado com traços de pessoas negras, como o cabelo crespo ou o nariz grosso. É interessante pensar no que a Djamila Ribeiro fala: precisamos nomear as questões. Temos que dizer quando uma prática foi racista, de fato. Um apelido comum que surge nas escolas aqui no Rio de Janeiro é “pão careca”. Geralmente, essa expressão é usada para meninas que têm o cabelo crespo. Acho importante ser explícito com a criança ao dizer que isso não é só bullying: “Isso que você está fazendo é racismo. Você está discriminando uma menina pelo fato de ela ter cabelo crespo”. Ser honesto com a criança porque, às vezes, ela pode reproduzir racismo. É importante que a escola mostre a ela que isso é racismo para que reflita sobre a sua própria ação. Não que eu não considere a temática do bullying importante, mas nem tudo pode ser colocado na bandeja do bullying. Tem questões que são questões outras.

“É preciso entender que o trabalho pedagógico é, necessariamente, um trabalho político.”

NQuais eram os objetivos da atividade de literatura que você realizou com as crianças? Foram atingidos?

VO balanço foi muito positivo porque as expectativas foram superadas. A princípio, eu tinha a ideia de apenas trabalhar com o livro e fazer uma discussão sobre a questão racial. Não tinha pensado em convidar o Júlio Emílio Braz, por exemplo. Porém, as crianças se envolveram tanto com a proposta que outras frentes se abriram. O trabalho com bonecas abayomi surgiu a partir de um diálogo com uma colega que trabalha com esse tipo de abordagem, e eu a convidei para ir até a escola e fazer essa oficina com as crianças. A escola adotou a proposta como ação institucional, e foi bacana porque as crianças foram mobilizadas. Quando recebemos o Júlio, todas as turmas escreveram cartas e perguntas para o autor. 
Alguns meses depois da atividade, uma professora de educação infantil trouxe um relato. Ela falou que era comum que as bonecas negras ficassem na caixa de brinquedos sem ser escolhidas, mas agora, depois desse trabalho, elas eram objetos de disputa. Todas as crianças queriam ser pais e mães das bonecas negras. Elas passaram a se pintar como crianças negras, utilizando lápis marrons. No início, lembro que tinha uma resistência ao contato com a boneca Maria Mariô, mas depois ela virou uma pop star na escola. A sala de leitura passou a ser chamada Sala Maria Mariô, e a boneca fica lá, em cima dos livros. De algum modo, impactamos um pouco o entendimento que essas crianças têm sobre pertencer à população negra. Elas passaram a ter elementos positivos para se vincularem a esse grupo. 

Homenagem que as crianças fizeram a Maria Mariô

NFrantz Fanon, uma das referências do seu artigo, foi um importante estudioso das relações raciais. Em uma de suas obras, ele diz que “quando não pode fundamentar-se numa base biológica, o racismo assume uma base cultural”. Como você entende e aplica isso no dia a dia?

VUtilizei no artigo alguns autores para ajudar a pensar a questão do racismo como um fenômeno. Eu trouxe a Djamila Ribeiro porque ela conceitua um pouco o que é o racismo, entendendo-o como um elemento estrutural da sociedade brasileira. Independentemente da nossa vontade, o racismo marca as nossas relações sociais. Trabalhei também com Fanon, grande referência quando se pensa no racismo. Durante o século XIX, tentou-se defender o racismo por meio da biologia. Contemporaneamente, esse debate, em termos biológicos, está superado. E aí é interessante pensar que, apesar dessa superação, o racismo ainda seja o elemento que estrutura as nossas relações. Em termos biológicos, todo mundo sabe que não há diferença entre os grupos étnicos. O que faz com que as pessoas negras sejam vítimas do racismo? A dimensão que o Fanon traz é a da negação do outro em termos culturais. Uma das direções do racismo é fazer com que os sujeitos que são vítimas da inferiorização vinculem essa inferioridade às características étnicas. O racismo faz com que essas crianças neguem a sua própria existência. Eu também gosto de trabalhar com o texto da Grada Kilomba, Memórias da plantação, que dialoga muito com o trabalho do Fanon.

NComo educar professores para que eles não reproduzam falas e comportamentos racistas na sala de aula?

VA escola pode ser um espaço traumático para muitas crianças. Se não tomarmos cuidado, reproduzimos o racismo a todo momento. O desafio é fazer com que reconheçamos que a raça é um elemento que está estruturando as nossas relações o tempo todo. No cotidiano escolar, é visível o tratamento diferenciado que crianças negras, às vezes, recebem em relação ao dispensado a crianças brancas. Tem um livro da Eliane Cavalleiro, Do silêncio do lar ao silêncio escolar, em que ela discute o racismo na educação infantil e mostra de que modo as crianças negras recebem menos carinho, são menos penteadas. Mesmo sem falar, o professor está reproduzindo a todo momento práticas fundamentalmente racistas. Um dos desafios que temos é fazer com que esses professores entendam que a questão racial é um elemento que precisa ser pensado porque, se não for pensado, a gente vai continuar reproduzindo relações muito negativas dentro do espaço escolar. Ler aquele livro da Djamila Ribeiro, Pequeno manual antirracista… Fazer leituras e ouvir o que pessoas negras têm a dizer. E nós temos muitas coisas a dizer.

NAs crianças com quem você trabalha convivem com pessoas negras o tempo todo, mas as referências de pessoas bem- sucedidas que elas têm são de pessoas brancas. Como convencer as crianças de que elas também podem ocupar lugares de destaque, se elas não se veem neles?

VAcredito que a escola tem que ser um espaço de contraponto. No artigo, trabalhei com os conceitos de denúncia e anúncio de Paulo Freire. Precisamos denunciar a estrutura desumanizante, mas também anunciar um novo mundo possível. Entender que o trabalho pedagógico é, necessariamente, um trabalho político. Os materiais, os autores, as figuras com as quais eu escolho trabalhar têm uma dimensão política. Precisamos fazer as nossas escolhas de forma consciente. Quando vou trabalhar com algumas imagens, por exemplo, eu faço um movimento de busca, muito na perspectiva do professor pesquisador, que monta o seu próprio material pedagógico. Se vou precisar de uma imagem de médico, procuro uma imagem de médico negro e coloco nos materiais com que eu vou trabalhar. A escolha do livro do Júlio Emílio Braz, por exemplo… Ele é um autor negro extremamente premiado, ganhou um Prêmio Jabuti. Não tem como mensurar isso, mas penso, nas dimensões significativas e em termos de representatividade, o que foi ter o Júlio na escola conversando com as crianças. Fico pensando de que modo essa atividade colaborou para que se possa pensar outro mundo. Provavelmente uma criança que entendia que a literatura e o trabalho como escritor são espaços da branquitude vê o Júlio e pensa: “Eu posso ser um escritor. Por que não?”. A escola pode mostrar que é possível sonhar outros mundos onde as pessoas negras ocupem não apenas espaços considerados subalternizados, mas espaços de poder.

NO que você diria para um(a) professor(a) que quer começar a adotar práticas antirracistas?

VQueria registrar um pouco o que eu falei no final do meu trabalho, que é a importância das professoras e professores registrarem essas práticas pedagógicas. Tenho a impressão de que muitas coisas bacanas são produzidas, em termos de uma educação antirracista, de um trabalho que tem um cuidado e visa reeducar para as relações raciais. Nós, professores, produzimos muito, mas registramos pouco os nossos trabalhos. Essa experiência que eu relatei, por exemplo, não tinha sido escrita. Resolvi escrever a partir do edital. Convido os educadores a registrar as suas práticas pedagógicas no sentido de compartilhar. Não como uma receita a ser seguida, mas como experiências possíveis. Nós aprendemos muito no diálogo e na troca, e ouvir a experiência de outras pessoas é sempre muito enriquecedor. Temos muito a aprender no diálogo uns com os outros.

Leia mais