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É preciso investir em potenciais

Adversidades de jovens sertanejos são mediadas por educadora da Paraíba com auxílio de ferramentas do curso “Mapa de identidades: ação coletiva no território”


Rafaella Lopes, que foi aluna da OSC da qual hoje é uma das gestoras: olhar para as vulnerabilidades e para os potenciais. Foto: José Olímpio/ACPS/Divulgação.

Por Gustavo de Souza, Rede Galápagos, Campina Grande (PB)

Depoimento de Rafaella Lopes, professora e coordenadora pedagógica da Associação Cultural Pisada do Sertão (ACPS) em Poço de José de Moura (PB)

Os desafios fazem parte de mim desde sempre. Sou Rafaella Lopes, tenho 31 anos, e fui criada em São Caetano do Sul, município da região metropolitana de São Paulo, pois foi para lá que minha família partiu ao deixar Poço de José de Moura, cidade do Alto Sertão da Paraíba que fica a mais de 500 quilômetros de João Pessoa; assim como outros nordestinos que deixaram suas moradas em busca de oportunidades. Quando tinha cinco anos, voltei à terra natal de meus pais e tive que me adaptar a uma nova realidade. Confesso que não achei muito difícil, pois todos diziam que eu era uma criança simpática, estudiosa e criativa. Então, enfrentei essa mudança como uma brincadeira. Só que tinha coisas que não dava para brincar, até porque eu não entendia muito bem. Meu potencial era limitado porque os coleguinhas implicavam demais comigo. 

Uma vez, teve uma coleguinha que me mandou lavar as minhas mãos, porque disse que elas estavam sujas. Não entendi e fui lavá-las, mas ao retornar do banheiro, ela ainda reclamava da sujeira nas mãos. Cheguei a ir três vezes e foi quando minha professora estranhou. Ao explicar a situação, a professora olhou para mim e disse: “por mais que você lave suas mãos elas vão continuar assim, porque elas não estão sujas, essa é sua cor e isso não vai mudar.” Foi assim que, aos poucos, fui me retraindo e me tornando tímida, porque essas situações iam se repetindo ao longo da minha juventude. Mas, minha vontade era de mudar isso de alguma forma, e foi assim que participei do Interact Club, onde estive com outros jovens desacreditados em seu território e na organização sem fins lucrativos encontravam uma forma de dar sentido ao dia a dia participando de trabalhos voluntários. Então, os desafios estavam diante de mim em várias faces.

Depois, coube a mim aceitar o convite para participar de um grupo de xaxado que transformou a minha vida. Era pra ser apenas uma apresentação cultural de uma festividade em comemoração ao padroeiro da cidade, o São Geraldo Majella. A partir dessa apresentação, começou uma história escrita até os dias atuais. Sou coordenadora pedagógica da Pisada do Sertão, que era esse grupo de xaxado antes de se tornar uma OSC (Organização da Sociedade Civil). Convivo com muitas crianças e adolescentes que não entendem os desafios do espaço onde vivem. Assim como eu lidava há alguns anos, eles simplesmente lidam com ciclos que não foram eles que criaram. Enxergar potencialidades em meio a um verdadeiro oásis criado com as desigualdades e preconceitos é complicado, porém quando entrei na Pisada do Sertão, assumi a missão de enfrentar barreiras e hoje encorajo outros jovens e suas famílias para que as enfrentem também. 

Para isto, o trabalho em rede é essencial, pois compartilhando as experiências fica melhor de visualizar os objetivos necessários. Nem sempre esses objetivos significam soluções porque muitas delas não são responsabilidade nossa, mas só depois de ter feito o curso “Mapa de identidades: ação coletiva no território” disponível no Polo, ambiente de formação do Itaú Social, foi que entendi o valor que tem a construção de caminhos. No curso com carga horária de quatro horas, tive acesso a três ferramentas (Árvore de Problemas, Paleta de Identidades e o Plano de Ação) que passei a utilizar nos encontros com os grupos atendidos pela Pisada do Sertão. Ao acessar o site, estas ferramentas podem ser baixadas gratuitamente por quem faz o curso. 

Nos encontros, seja entre os gestores da OSC, nossos educandos ou seus familiares, quando estamos na fase de diagnóstico, sempre começamos colocando à disposição dos participantes a Árvore de Problemas, pois este panorama será feito a partir da perspectiva deles, que enfrentam essas questões diariamente e as conhecem como ninguém.

Atendimento presencial respeitando os protocolos: as famílias são acolhidas na sede da Pisada do Sertão mesmo durante a pandemia. Foto: José Olímpio/ACPS/Divulgação.

Essa é a parte introdutória de um processo complementado com outra ferramenta muito importante do curso chamada de Paleta de Identidades. Nela, a gente entende tanto os potenciais, quanto as vulnerabilidades e os dilemas do território em sintonia com os direitos de crianças e adolescentes, para que nada os impeça de ter acesso àquilo que é previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Dentro dessa estrutura, o Plano de Ação contribui para que nós sejamos mais assertivos no momento de integrar para pôr em prática de maneira coletiva e articulada aquilo que está sendo planejado pela comunidade. 

Além de atuar no terceiro setor há mais de 15 anos, sou professora da educação básica do ensino público de Poço de José de Moura (PB) e observo outro contexto de adversidades. Ainda assim, o repertório oferecido pelo curso do Polo é útil para este tipo de ambiente. Então, aos poucos fui me fortalecendo e voltando a ser quem eu era, mas precisava acreditar em mim para mudar o percurso normal da juventude de sertanejos na minha época. O que não se pode negar é que, em todas as fases da minha vida, esse impulso aconteceu com a educação, que me resgatou enquanto cidadã por meio da cultura e valorizou meus potenciais humanos a partir do meu próprio território. Acredito que, com as formações necessárias, outros adultos possam garantir que nada impeça o acesso ao desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens, porque no que depender de mim, seja enquanto coordenadora, professora ou mãe, lutarei para que os direitos básicos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) sejam promovidos e para que Poço de José de Moura seja um lugar melhor para viver.

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