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Parceiros na educação

É hora de recuperar as aprendizagens e a esperança

Tânia Mara da Silva, secretária municipal de Educação de Santa Bárbara d’Oeste (SP), explica o que envolve o processo de recuperação e compartilha esse trabalho em sua rede


No contraturno, as aulas de reforço na Escola Municipal de Ensino Fundamental e Educação Infantil Professora Antônia Dagmar de A. Rosolen, em Santa Bárbara d’Oeste (SP), possibilitam um trabalho individualizado em favor da recuperação das aprendizagens. Foto: Prefeitura Municipal de Santa Bárbara d’Oeste

Por Paula Salas, Rede Galápagos, São Paulo

É possível ouvir apenas o som metálico dos balanços do parquinho mexendo com o vento. As risadas e as vozes das crianças brincando foram substituídas pelo silêncio. Muitas escolas por todo o Brasil passaram quase dois anos dessa forma. Desde 2020, foram realizadas algumas tentativas de uma retomada gradual, e a alegria do reencontro vinha com um fundo de medo pelas altas taxas de contágio da Covid-19. Em 2022, a esperança de um recomeço trouxe a vida de volta às instituições de ensino. 

Paulo Freire defendia a educação como um ato de amor, de coragem. Tânia Mara da Silva, secretária de Educação no município de Santa Bárbara d’Oeste, em São Paulo, também utiliza esse último atributo para descrever o trabalho dos educadores durante o período: “Garantir o direito de aprender das crianças é um ato de coragem. É entender o quanto a escola precisa se reinventar para passar por esse processo de recuperação”, afirma. 

A trajetória de Tânia na rede municipal teve seu início há 30 anos. Ela foi professora na educação infantil e nos anos iniciais, fez parte da gestão escolar e trabalhou com educação especial. Desde 2013 ocupa o cargo de secretária de Educação. 

Em março de 2022, a educadora participou do 2º Seminário Melhoria da Educação: Recuperação das aprendizagens com foco em equidade, evento promovido pelo Itaú Social com o apoio da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação e do UNICEF.

O evento marcou o lançamento do percurso formativo Recuperação das Aprendizagens – trilha composta de seis cursos gratuitos que vão apoiar as redes de ensino no desafio que está posto na educação básica.

Dentro dessa temática, a secretária Tânia compartilhou como esse esforço está funcionando na sua cidade. A rede atende mais de 15 mil crianças, adolescentes e adultos que frequentam uma das 47 escolas municipais, segundo informações disponibilizadas no site da prefeitura. Dentro desse contexto, a educadora explica como funciona na prática a recuperação das aprendizagens e traz pontos fundamentais para garantir o sucesso dessas ações. 

Legenda: “Acreditamos muito no potencial das crianças e no comprometimento dos professores. A possibilidade de reverter é muito grande, porque temos nos esforçado muito para ter resultados positivos”, diz Tânia Mara da Silva, educadora e secretária municipal de educação em Santa Bárbara d’Oeste, em São Paulo. Foto: Arquivo pessoal

Saberes que vão além dos componentes curriculares
Para começar, é necessário desmistificar a percepção de que foram dois anos perdidos. Apesar de se falar muito das defasagens e dos prejuízos para as aprendizagens curriculares, para Tânia é impossível dizer que as crianças estão no mesmo ponto em que estavam há dois anos. Mesmo sem avanços na leitura ou na matemática da forma como era esperado, os alunos adquiriram conhecimentos que vão além daqueles que a escola oferece. Por isso, durante esta retomada é essencial os professores validarem esses saberes e pensarem em formas de relacionar as experiências dos estudantes na pandemia com as habilidades que precisam ser desenvolvidas.

Após esse movimento, Tânia destaca a necessidade de qualificar e valorizar o tempo das crianças na escola, isto é, garantir que elas estejam frequentando todos os dias. Nessas condições, com a continuidade do trabalho pedagógico, será possível recuperar as aprendizagens que ficaram para trás. A secretária reforça que não é um trabalho que acontecerá de um dia para o outro. “A educação é processo”, resume. 

Ela alerta que é preciso ter calma e garantir que as escolas e os educadores terão o apoio necessário. “Temos de equilibrar nosso desejo de recuperar as aprendizagens para ter capacidade técnica, estudo, pesquisa e serenidade. O educador precisa de acolhimento tanto quanto as crianças”, ressalta. 

Legenda: Especialistas discutem temática de recuperação das aprendizagens em evento on-line promovido pelo Itaú Social. Participaram da conversa (na foto,da esquerda para a direita): Emília Bizzoto, mestre de cerimônias; Angela Dannemann, superintendente do Itaú Social; Tereza Perez, diretora da Comunidade Educativa CEDAC; Tânia Mara da Silva, secretária de Educação de Santa Bárbara d’Oeste; e Chico Soares, professor emérito da UFMG. Foto: Reprodução vídeo/Segundo Seminário Melhoria da Educação: Recuperação das aprendizagens com foco em equidade

O tempo das crianças e a formação para os professores
Além de ser um trabalho desafiador e complexo, é fundamental respeitar o tempo dos estudantes. “Alguns vão precisar de mais tempo e de reforço para que o professor tenha mais tempo para trabalhar suas necessidades”, explica Tânia.

O trabalho no contraturno da escola permite não apenas ter uma atenção individualizada, mas também utilizar estratégias diferentes daquelas que são utilizadas com todo o grupo. “A sala de aula é muito plural, a medida que cabe para um não cabe para outro, por isso a necessidade do reforço, quando há um número menor de alunos e o professor consegue atingir a necessidade de cada um”, explica. 

Planejar e colocar em prática estratégias que possibilitem que todas as crianças tenham a oportunidade de avançar exige um esforço de formação dos educadores. Isso significa que cabe às redes de ensino ofertar cursos de aperfeiçoamento a seus educadores e também que a gestão escolar assegure a frequência dos encontros formativos da equipe pedagógica.

Na escola, a equipe docente pode aprofundar-se em estratégias pedagógicas que sejam interessantes para as necessidades de sua turma. Esses encontros também podem ser um momento de troca de experiências e um espaço de reflexão para traçar planos de ação a partir do diagnóstico das necessidades dos estudantes.

“O professor precisa ser alguém que pesquisa para conseguir ofertar aquilo que o aluno necessita. É preciso avaliar para poder propor”, aponta Tânia. Ela sugere que seja realizado um “mapa” com as aprendizagens e dificuldades de cada sala. 

Dessa forma, os professores vão se sentir amparados e que não estão sozinhos diante desse desafio. “A equipe tem de entender que a responsabilidade do sucesso desse estudante é de todos, não só do professor. Ele precisa encontrar parceiros nessa árdua, porém possível, tarefa”, afirma Tânia. 

Juntos em prol da recuperação
As escolas precisam de parceiros, não apenas dentro da Secretaria de Educação, mas de equipes interdisciplinares. “Há anos defendemos uma escola que converse com o seu território. Percebemos uma grande necessidade de usar uma rede de apoio para garantir os processos de recuperação”, relata. 

Essa rede de apoio é formada pela comunidade escolar, isto é, a equipe docente e a gestora, funcionários da escola, alunos e famílias. “O sucesso da criança, do jovem, do adulto depende do coletivo. É necessário que haja essa rede de apoio dando sustentação ao trabalho que precisa ser desenvolvido na escola”, afirma Tânia. E também contar com agentes externos. “É importante ter um pacto com todo o município se queremos uma escola potente, forte, com bons resultados. É necessário que cada um, no seu lugar, faça sua parte.” 

Esperança para o futuro
Se é possível falar de ganhos durante um período tão difícil, Tânia falaria dos aprendizados. “A pandemia trouxe dados relevantes dos territórios que mais precisam de atenção. Hoje temos um mapeamento da rede, conhecemos suas potências e as áreas que exigem mais cuidado. Equidade é isto: conseguir ofertar mais para quem mais precisa”, afirma. Esse período foi de transformação e deixou marcas que serão levadas, positivamente, daqui para a frente. “Hoje temos uma rede mais atenta às desigualdades, que consegue olhar para cada criança e saber quem precisa de mais cuidado. Consegue olhar suas fragilidades e propor ações, caminhos.”

É a partir dessas experiências que será possível fazer a recuperação das aprendizagens. “Estamos agora estudando, fazendo a formação dos professores, dialogando com as famílias e trazendo as crianças para o centro das nossas discussões”, compartilha Tânia sobre o momento que vivem na rede municipal. 

“Acreditamos muito no potencial das crianças e no comprometimento dos professores. A possibilidade de reverter o quadro das defasagens é muito grande, porque temos nos esforçado muito para ter resultados positivos”, afirma. Nesse processo, entre tentativas e acertos, Tânia vê que será um momento de avaliação contínua dos alunos e de autoavaliação do trabalho pedagógico para continuar com o que está dando certo e reformular o que não está. “Com muito acolhimento, paciência, formação e parceria será possível devolver as cores, sons e vida à escola. Vemos uma luz no fim do túnel e do outro lado sairá uma escola mais unida, fortalecida e com mais equidade.”

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