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Polo de desenvolvimento educacional

De jovens, para jovens: como a renovação das organizações das juventudes negras está mudando a luta por direitos no país

O enfrentamento ao racismo vem sendo pautado e organizado pelos movimentos negros do Brasil há décadas. Atualmente, porém, há uma enorme renovação na maneira como os direitos da população negra são reivindicados. Os jovens assumem a linha de frente das batalhas por acesso a direitos básicos de cidadania como educação de qualidade, emprego, saúde e segurança. Mas não só. Eles e elas também querem que seus territórios de origem, as favelas e periferias, sejam reconhecidos como produtores de conhecimento. Vão em busca de representatividade política e de políticas públicas que reparem as desigualdades seculares existentes no país. Desejam ter suas identidades respeitadas. Com esse objetivo, lutam para que a sociedade reconheça e valorize suas manifestações culturais, estéticas e religiosas.

As mudanças nas pautas e formas de ação são algumas das principais conclusões da Pesquisa Nacional Sobre Organizações de Juventudes Negras. Em parceria com o Observatório das Favelas, o Itaú Social ouviu 40 instituições responsáveis por 63 projetos em diferentes cantos do país para compor o estudo. Ouvindo especialistas, militantes e entidades, a equipe de pesquisadores construiu um amplo painel das organizações que lutam pelos direitos dos jovens negros no Brasil.

Os números atestam o perfil predominantemente jovem das organizações: 92% têm colaboradores de até 29 anos e 70% produz projetos exclusivos para a juventude:

Fonte: Pesquisa Nacional Sobre Organizações de Juventudes Negras

 

Fonte: Pesquisa Nacional Sobre Organizações de Juventudes Negras

Ter ações sendo desenvolvidas por e para sujeitos que compartilham de um lugar comum na sociedade é positivo. “Essa tendência representa ganhos incalculáveis ao engajamento e à sinergia dentro das instituições”, afirma Juliana Yade, pesquisadora e especialista em educação do Itaú Social. “Um quadro de colaboradores com pouca idade também garante às organizações que suas agendas estejam alinhadas com o que há de mais atual e diverso em termos de espaços de movimentação e campos de atuação”.


Menos formalização, mais autonomia na organização

Outro achado do levantamento é a predominância de modalidades organizativas com baixa densidade de formalização institucional, como coletivos e empresas sociais. Embora mais frágeis estruturalmente, tais arranjos permitem maior autonomia de organização. Um exemplo desse protagonismo está nos jovens moradores de favelas e periferias que vêm surgindo como líderes e promovendo ações dentro de seus territórios de origem, quase sempre organizados em coletivos. Por lá, eles e elas lançam mão da cultura, da comunicação e da arte como ferramentas de visibilidade de suas pautas.

A relevância sociopolítica das organizações que se voltam às juventudes negras é outra marca. A maior parte dos projetos se dedica a atender um público entre 15 e 24 anos. Trata-se de uma faixa etária que, em geral, não está inserida em políticas sociais governamentais, apresenta menor escolaridade, baixa empregabilidade e são os grandes alvos da violência. Segundo o Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência, de 2017, o risco de um jovem negro ser vítima de um homicídio é 2,7 vezes maior do que um jovem branco no Brasil.

Também mereceu destaque no painel a variedade estética das formas de resistência dos jovens negros. Eles e elas criam narrativas nos slams, nas rodas de rima e bailes funk; escrevem leituras de si e da sociedade brasileira por meio da literatura marginal, do grafite e das rimas do hip-hop; produzem filmes e fotografias a partir de seus olhares. “A pesquisa avança no sentido de desvelar quem são essas pessoas pouco vistas em universidades, cargos de liderança e cadeiras políticas”, diz Juliana. A pesquisadora ressalta que as novas formas de atuação das organizações são um convite para olhar para o espaço onde se inserem. “Passamos a questionar onde viviam esses sujeitos. Até mesmo em termos de melhoria do transporte é preciso mudar, afinal, agora, a periferia cada vez mais vai para o centro. Numa realidade em que a favela é vista como produtora de conhecimento, o deslocamento contrário também é forçado a acontecer”, finaliza a especialista.

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A identidade racial como princípio de engajamento, o digital como caminho para a disseminação

Os termos “empoderamento” e “protagonismo” nunca estiveram tão em voga, sobretudo nos movimentos ligados às minorias políticas. Entre as juventudes negras, os conceitos adquirem contornos concretos. Um exemplo é a parcela de jovens que se autoidentifica como “geração tombamento”. No sentido de “tombar o racismo”, eles e elas ressignificam corpos e cabelos, carregando com orgulho seus traços ancestrais. A valorização da cultura de matriz africana e afro-brasileira, incluindo aí o direito à liberdade religiosa, ocupa papel importante na afirmação de identidade racial.

Também se transformam as alternativas de organização e divulgação das agendas das entidades. Um dos reflexos é o uso das redes sociais como instrumento para comunicação. Por meio delas, os jovens articulam eventos, dialogam, denunciam e conseguem fazer com que suas pautas alcancem públicos variados. No dia-a-dia, porém, para além do mundo digital, o corpo a corpo, os diálogos presenciais, as rodas de conversa, os seminários e outros encontros são cruciais para a aproximação e construção de afetos entre sujeitos que batalham pelas mesmas causas.

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