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Polo de desenvolvimento educacional
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GISELLY LIMA DE MORAES – Das páginas para as telas

Educadora coordena pesquisas sobre literatura infantil digital: “Medo da tecnologia é desfavorável à educação”


Dez perguntas para
Giselly Lima de Moraes
Doutora em educação, professora adjunta da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), pesquisadora em literatura infantil digital e formação do leitor literário, membro do Grupo de Estudo e Pesquisa em Educação e Linguagem (Geling), coordenadora do projeto permanente de extensão Narrativas Literárias, Multimodalidade e Mediações (Namme) e integrante do Coletivo Leitura na Tela

Giselly Lima de Moraes: “A leitura está em todos os processos de produção de sentido, não apenas no verbal”. Foto: Arquivo pessoal

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA)

Nas mais diversas áreas do conhecimento, o avanço tecnológico promoveu alterações na forma de executar determinadas tarefas. O analógico deu lugar ao digital em atividades simples, como ver as horas, e em outras mais complexas, como enviar uma mensagem a alguém que está em outro país. Hoje, com tantos afazeres cotidianos automatizados, mesmo quem viveu as duas realidades já considera difícil a tarefa de imaginar um mundo sem internet. Entretanto, há um grupo de pessoas para quem essa missão é ainda mais complexa: os chamados nativos digitais, pessoas que já nasceram num contexto informatizado.

O surgimento da internet não tem tanto tempo assim. Sua popularização no Brasil, menos ainda. Dados de 2020 mostram que 19% da população brasileira maior de dez anos ainda não tem internet em casa, segundo o Comitê Gestor da Internet no Brasil. Com base nisso, é possível afirmar que as pessoas que chegaram ao mundo e cresceram convivendo com tecnologias digitais correspondem à parcela mais jovem — e mais rica — da população. Estudiosos têm pesquisado como as tecnologias fazem parte da vida de crianças, adolescentes e jovens e quais estratégias podem ser adotadas pelo campo da educação para utilizar os recursos digitais a seu favor.

Giselly Lima de Moraes é uma dessas pesquisadoras. A professora estuda a literatura infantil digital e a formação do leitor literário. Mesmo sendo entusiasta das possibilidades trazidas pelo universo digital, Giselly tem um olhar desconfiado e crítico para a forma como a tecnologia é utilizada, “mediada por algoritmos e criando relações superficiais”, em suas palavras. Deixa claro, entretanto, que a internet está longe de ser uma vilã e que o seu bom uso é fundamental para a educação e para a formação de leitores.

Giselly foi uma das palestrantes do webinário “A leitura no mundo digital”, promovido pelo Itaú Social, que contou com a presença de Mara Sofia Zanotto, professora da PUC-SP; Giselly de Moraes, da Universidade Federal da Bahia (UFBA); e Luisa Setton, coordenadora de negócios sociais da Vaga Lume. A abertura foi feita pela pesquisadora americana Maryanne Wolf, autora do livro O cérebro no mundo digital (Editora Contexto, 2019). Na obra e no encontro virtual, Wolf levanta uma discussão urgente: como podemos encontrar aprendizado por meio da leitura, a partir da conexão entre o texto impresso e o virtual? A pesquisadora Giselly Lima de Moraes está morando na Espanha, onde faz pós-doutorado em literatura digital infantil e juvenil na Universidade Autônoma de Barcelona. A seguir, a conversa que tivemos com ela sobre educação, tecnologia e literatura infantil digital.

NNotícias da Educação — De onde surgiu o seu interesse pelo tema da literatura infantil digital?

GGiselly Lima de Moraes Sou formadora de professores e trabalho com formação de leitores literários desde que ensinava na educação básica, na década de 1990. Acompanhei toda essa revolução tecnológica, o advento das interfaces gráficas e do PC. Cheguei a trabalhar com publicidade, na época em que houve o boom do desktop publishing. Sempre gostei de lidar com as diferentes linguagens e sempre tive interesse em literatura infantil. Acho que esses dois pontos chamaram a minha atenção para os processos de leitura que envolviam mais do que a linguagem verbal. No campo da literatura infantil, voltei-me para a formação a partir dos livros ilustrados, aqueles em que, além do texto verbal, a imagem é preponderante e tem uma forte importância na construção de sentido.
Comecei a trabalhar como formadora de professores no campo da leitura digital com o projeto UCA – Um Computador por Aluno, do governo federal, por volta de 2010. A ideia era que todos os estudantes tivessem um laptop, e logo começou a surgir uma demanda de materiais de leitura para eles. Percebi que o material, geralmente, era produzido por pessoas da área de informática, e não por aquelas especializadas em leitura literária. Havia coisas muito precárias, feitas de improviso, ou muito didáticas, como uma historinha para ensinar matemática, outra para geografia. Não existia literatura, de fato, e isso me fez buscar materiais digitais que envolvessem literatura. Foi quando descobri o mundo da literatura infantil digital.

NCom qual definição de leitura você trabalha?

GPodemos falar de leitura numa perspectiva mais linguística ou numa outra mais semiótica, que envolve outros signos além do verbal. Existe a leitura no sentido estrito, como a decodificação do código alfabético. Por outro lado, falo de leitura como processo de produção de sentido. Em tecnologia digital, estamos falando de recursos de imagem, de cor, movimento, som, gestos e, mais recentemente, de sensações. Na realidade virtual, um joystick na sua mão lhe proporciona um tremor, uma sensação que é sinal para uma determinada ação, e você tem que interpretar aquilo. Quem trabalha com multimodalidade vai entender leitura como produção de sentido na relação com todos esses signos, não excluindo o verbal. Nossa comunicação hoje é multimodal. Isso só mostra a necessidade de lidarmos de maneira mais crítica com as comunicações. Há formas muito sofisticadas de usar esses recursos, inclusive para nos confundir, como as fake news, por exemplo.

É preciso cuidado para não olhar a cultura digital de forma acrítica. Há muita coisa no digital extremamente retrógrada, de baixa qualidade e que não contribui para a formação leitora.”

NDurante algum tempo, as novas tecnologias foram interpretadas como potenciais vilãs para o desenvolvimento infantil. Alguns pais, por exemplo, evitavam que as crianças tivessem contato com as novidades. Do que as pessoas tinham medo?

GInicialmente, houve um deslumbramento com a tecnologia. O computador e todas as suas possibilidades, a ideia de uma inteligência artificial, uma máquina que calcula, processa e resolve problemas para as pessoas… Sempre há os deslumbrados e os desconfiados. Isso existe em relação a tudo o que é novo. Acho que o adequado é um lugar intermediário entre esses dois extremos. Ainda que uma pessoa não tenha computador em casa e não use celular, não está livre das relações mediadas pelo digital: o banco, o hospital, a escola, todo o processo burocrático, não tem jeito. O ciberespaço está aí e as pessoas necessitam dele para trocar informação.
Quando se fala em criança, isso realmente vira uma questão mais evidente. Os pais querem proteger seus filhos. A internet ampliou os benefícios e os perigos da comunicação. É difícil ter controle sobre a que as crianças têm acesso. O fator social também é importante. Alguns têm espaço físico amplo, livros em papel para compartilhar com seus filhos, uma realidade concreta que lhes permite ter acesso a muitos bens culturais. Outras pessoas só têm o celular e a TV, não têm material de leitura. Informações às vezes muito alarmistas em relação às tecnologias criam um ambiente difícil de regular. O medo é desfavorável à educação, apesar de não ser infundado. A tecnologia é como a vida, que nos oferece muitos riscos, mas ensinamos os nossos filhos a lidar com isso. 

NComo você vê as conclusões da neurociência a respeito da relação entre os recursos tecnológicos e o desenvolvimento cognitivo infantil?

GNão trabalho com neurociência, mas com ciência da educação. Ciências humanas trabalham com as pessoas, os sentidos que elas dão e suas experiências. Vejo que a supervalorização das neurociências é um fenômeno muito próprio da América, muito por influência dos Estados Unidos. É claro que existem contribuições. São pesquisas que vão olhar o cérebro, as sinapses, e isso é muito importante. Igualmente importante é escutar a sociologia, as pesquisas em educação e em literatura para podermos construir uma ideia. Tenho percebido que as neurociências têm falado com uma voz de autoridade, e isso é preocupante. Existem pesquisas concretas com pessoas falando das suas histórias e contextos, independentemente do que as máquinas de ultrassonografia, ressonância magnética ou tomografia vão mostrar. As pessoas sabem o que tem sentido para elas, o que é bom e o que não é.
Maryanne Wolf diz que o cérebro se acostuma com um caminho, e é preciso que, desde cedo, ele percorra o da linguagem verbal para que desenvolva processos neurais importantes para o desenvolvimento da capacidade de leitura profunda. Para interpretar e para produzir empatia. Se isso é tirado da infância, essa capacidade pode não se desenvolver depois. Talvez se criem gerações menos empáticas. No entanto, quantas crianças brasileiras se desenvolvem praticamente sem nenhum contato com a leitura e o texto impresso, sem que tenham sido ensinadas a ler de verdade? Será que essas crianças se tornaram menos empáticas por isso? Fomos lá pesquisar para saber se não são capazes de refletir sobre o mundo? Há pessoas que foram alfabetizadas quando adultas e se tornaram escritoras ou leitoras, ou ainda professores de universidade. É claro que a plasticidade do cérebro é maior na primeira infância, e as crianças têm muito mais capacidade de desenvolver várias possibilidades de percursos dos estímulos neurais —  quanto mais cedo elas tiverem acesso a essas diferentes formas de linguagem, melhor para elas. Nem a própria Maryanne fala em substituição, mas em duplo letramento, no sentido de que é preciso trazer experiências digitais e impressas de qualidade. A minha geração dizia que “quem gosta de televisão não gosta de ler”. Fui uma criança que viu muita TV e que leu muito também. Mas eu descobri a literatura. Outras pessoas não tiveram essa experiência ou não foram formadas para isso. Acho prematuro o discurso de uma suposta competição entre possibilidades.

Você não pode simplesmente apagar o outro, bloquear ou desligar e não ver mais. A escola é um espaço necessário por isso.”

NO acesso à literatura sempre foi desigual. Você entende que, com a tecnologia tendo um papel cada vez mais protagonista na educação e na literatura infantil, essa desigualdade tende a aumentar?

GCompletamente. Vemos o aumento de políticas públicas relacionadas à oferta de materiais didáticos digitais na escola. Mesmo com baixíssima qualidade, há material de leitura digital. Entretanto, não adianta trazer softwares novos, jogos e livros digitais para as crianças se elas não têm a devida condição de acesso a esses bens. O digital tem esse desafio. É preciso avançar no suporte, no celular, no computador, na internet, em condições concretas de utilização desse material. As crianças vão ler no celular, mas a presença de apenas um aparelho para uma família inteira não dá acesso, de fato, aos textos e às condições de leitura. Precisamos pensar sobre a necessidade de ainda haver acesso ao livro impresso. Não podemos elaborar políticas de leitura no sentido de uma substituição. O livro impresso forma a nossa cultura leitora. Nossas competências, pensamento e forma de interpretar o texto são afetados pela linguagem que construímos através da escrita durante esse tempo todo e não podemos abandonar isso de uma hora para outra. As crianças precisam se formar como leitoras da palavra e do livro, ter acesso a um material de leitura que possa levar a qualquer lugar, sem depender da internet, criar outras práticas de leitura. Mas também precisam ter acesso digno e adequado aos recursos digitais, materiais de leitura de qualidade. É preciso cuidado para não olhar a cultura digital de forma acrítica. Há muita coisa no digital extremamente retrógrada, de baixa qualidade e que não contribui para a formação leitora.

A pesquisadora Giselly Lima de Moraes fala no webinário “A leitura do mundo digital”: “Maryanne Wolf dá uma grande contribuição, a começar por mostrar que o impresso e o digital não se opõem”. Imagem: Reprodução

Nem todos são nativos digitais, visto que nem todo mundo nasceu em um contexto digital, mesmo fazendo parte da geração Z.”

NComo as desigualdades impactam na transição para o digital e na distribuição equilibrada do acesso à tecnologia em relação à população infantil?

GNo Brasil, existem diferentes realidades. Há a escola privada, onde as crianças têm acesso a tablets, uma sala de informática equipada, internet rápida e professores com formação adequada. Há também escolas privadas que não têm essas condições e escolas públicas extremamente precárias, da zona rural, que nem sequer têm acesso à internet… Aqui na Espanha, também há desigualdade. Na minha experiência, ainda não consegui encontrar esse lugar que tenha um equilíbrio de acesso.
Estudos mostram que é preciso, independentemente das condições econômicas e do contexto, formação para o digital. Crianças precisam aprender a ler no digital. Conheço uma iniciativa na França, de uma professora do ensino fundamental, que estava trabalhando com seus alunos a detecção de fake news. Mesmo crianças francesas de boas escolas ainda não desenvolveram condições de leitura para lidar com as tensões desse ambiente para ser um leitor crítico e autônomo. O que dizer daquelas que estão expostas a contextos em que a única fonte de informação é o WhatsApp? Com o meio digital, o conhecimento fica muito dependente do poder aquisitivo, das condições econômicas de cada família. Isso vai criando hiatos e abismos sociais muito grandes. Recentemente, li que grandes empresas estão investindo em realidade virtual, no tal do metaverso. A ideia é criar uma espécie de Matrix em realidade virtual. Esse é o futuro da tecnologia. Quem vai ter dinheiro para comprar esses equipamentos, ter acesso e se educar dentro desse novo contexto de produção de conhecimento?

A pesquisadora Giselly Lima de Moraes: “Há um universo a descobrir, mas é preciso desenvolver conhecimento para lidar com ele. Isso é educação”. Foto: Arquivo pessoal

NA recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) é para que crianças de até dois anos evitem o acesso a telas. O que você tem acompanhado sobre a relação idade-telas?

GRespeitar as orientações da OMS é o mais sensato a fazer, ainda que o próprio documento da recomendação admita não haver pesquisas suficientes que permitam afirmar categoricamente os efeitos da tela na primeira infância. As pesquisas internacionais que trazem dados quantitativos sobre o uso de dispositivos digitais na infância apontam para o tempo excessivo de tela, mesmo antes dos dois anos. Mais do que nos riscos da exposição às telas, é preciso que pensemos em criar coletivamente as possibilidades para que as famílias disponham de um tempo qualificado e rico em interações e trocas com as suas crianças. Isso inclui, nas condições adequadas, os dispositivos digitais.
É preciso atentar para o fato de que há propostas de interação não sedentárias com o meio digital, como jogos e experiências imersivas, que requerem uma atividade intensa da criança, com proposta de interatividade que demanda mobilidade corporal, por exemplo. Uma hora de tela envolvida nesse tipo de atividade não é o mesmo que uma hora solitária e passiva diante do smartphone ou de uma tela de TV.
Nem toda experiência digital apela para o isolamento ou para o engajamento viciante que se costuma associar ao lazer digital. O tempo de tela é apenas um dos aspectos dessa relação. Há que considerar também a mediação parental como estratégia-chave de cuidado, além da qualidade dos conteúdos e formatos com os quais as crianças estão interagindo desde tenra idade.

NO livro digital oferece uma série de recursos, audiovisuais e interativos, e o leque de possibilidades parece ficar cada vez maior. O livro físico vai resistir a esse mercado?

GA tendência é que ele vá encontrando o seu lugar. O livro impresso ganhou grande concorrência e perdeu a hegemonia na transmissão do conhecimento, mas ainda é necessário. A leitura do verbal proporciona um outro tipo de pensamento em relação à de imagens e som. É preciso pensar em convivência. Vi uma entrevista de um grande escritor dizendo que, se fosse jovem, não investiria mais em escrever romances, mas séries ou video games, porque ele entende que essas serão as novas formas de ficção a que os jovens vão se dedicar. Por outro lado, no final da mesma revista, se estava falando de uma escritora de vinte e poucos anos, uma grande romancista jovem irlandesa, Sally Rooney, que está vendendo muito e é considerada uma grande promessa da literatura. Os movimentos acontecem ao mesmo tempo. Precisamos fazer com que todas as pessoas tenham acesso a diferentes formas de cultura literária, ficcional, do pensamento, e que não estejam isoladas em nenhuma delas, mas que possam escolher. Tem gente que não gosta de cinema, outros não gostam de ler e vão se informar de outra maneira. São formas de interação humana. São muitas possibilidades e virão cada vez mais. E uma não precisa substituir a outra.

NNa cultura do livro impresso, as pessoas se debruçavam sobre as enciclopédias para se aprofundar em conteúdos pelos quais se interessavam. Uma das possibilidades da internet é o acesso a uma espécie de biblioteca infinita, a qualquer momento, na palma da mão. A longo prazo, você acredita que essa disponibilidade de conteúdos pode impactar a curiosidade das pessoas em se aprofundar nos seus assuntos de interesse?

GProcuro problematizar tudo o que se baseia na ideia de “antes era assim, agora é diferente”. Na minha época de escola, para fazer pesquisas, procurávamos o verbete na enciclopédia e copiávamos tudo. Não tinha aprofundamento, era só copiar e levar. Há uma mediação educativa que ensina a ler numa enciclopédia. Com a internet é igual. O que acontece é que vivemos em um contexto de excesso, e isso é tão conflituoso quanto o contexto de escassez. Agora, o nosso problema é selecionar. Temos um mediador, o algoritmo, que não é humano e está relacionado a interesses de mercado para vender produtos e criar necessidades. Estamos nos deixando levar por essa estrutura de inteligência artificial que não nos permite a autonomia na seleção. Se naquela época eu tinha que desenvolver a capacidade de selecionar e ler em profundidade num contexto de escassez, tenho que fazer isso agora, mas num ambiente que tem muita coisa disponível. Comecei minha formação como professora no início da internet. Tive o privilégio de tê-la em casa desde 1993. Naquela época, todo mundo via a internet como algo que ia nos dar acesso ao mundo. Não imaginávamos que terminaríamos isolados em bolhas determinadas por algoritmos. Nem temos acesso a tantas possibilidades porque o que chega já está filtrado. Entendo que há um universo a descobrir, mas é preciso desenvolver conhecimento para lidar com ele. Isso é educação. Por essa razão trabalho com ela e acredito que precisamos, urgentemente, pensar nessas mediações.

“O video game é importante, mas fica à margem das preocupações educativas porque ainda é visto como mero entretenimento. É um sistema cultural que atinge 74% da população brasileira e o mais relevante para a juventude hoje.”

NEstá em alta o tema da geração Z ou nativos digitais, crianças que já nasceram no contexto informatizado. Em termos de letramento, essas crianças terão um entendimento diferente do universo digital?

GAutores como Ana Elisa Ribeiro problematizam a ideia dos nativos digitais. Para ela, há uma desigualdade. Nem todos são nativos digitais, visto que nem todo mundo nasceu em um contexto digital, mesmo fazendo parte da geração Z. A expressão “nativo digital” é questionada porque traz a falsa ideia de que toda criança que nasce nessa geração sabe mexer em tudo, e não é bem assim. É óbvio que elas têm menor dificuldade para lidar com o mouse, com a tela tátil ou com as interfaces atuais das tecnologias digitais. Mas isso não significa que esses sujeitos, só porque nasceram nessa geração, vão ter maior ou menor autonomia em relação ao digital. Isso até faz parecer que as crianças não precisam de formação nesse campo, mas elas precisam. Do mesmo modo, é errôneo pensar que só porque são dessa geração gostarão mais da literatura digital do que da impressa. A primeira oferece um desafio interpretativo e interativo, que precisa ser aprendido. Algo curioso acontece com algumas crianças desta geração, ao consumir literatura digital. Estão lendo a obra e param no meio porque acham que acabou. No livro, você percebe que não terminou porque há o resto das páginas. O sujeito que tem uma relação mais próxima com o video game tem maior facilidade para manusear, interagir e interpretar a literatura infantil digital. O game é importante, mas fica à margem das preocupações educativas porque ainda é visto como mero entretenimento. É um sistema cultural que atinge 74% da população brasileira e o mais relevante para a juventude hoje. Não é o cinema, não é a literatura, mas o video game. Ali também tem leitura, e os educadores e pesquisadores da leitura precisam estar atentos.

Pergunta bônus

Vamos ter que esperar pra ver. Recentemente, li que as crianças que voltaram para a educação infantil nas escolas estão mais quietas. É óbvio que haverá um efeito, mas ainda não sabemos dizer qual. Acredito que precisaremos retomar a nossa capacidade de convivência porque a cultura digital, da forma como está sendo vivenciada na maioria dos contextos, promove interações superficiais mediadas por algoritmos que não nos permitem conviver com a diferença, o que acaba criando intolerâncias. Será preciso reaprender a conviver. A escola, por exemplo, é um espaço de tensão, onde há conflito de diferenças, pessoas com diferentes perspectivas de vida, religiões diversas. É a oportunidade de conviver com as diferenças e não ficar só na superficialidade das telas. Você não pode simplesmente apagar o outro, bloquear ou desligar e não ver mais. A escola é um espaço necessário por isso. Os professores precisam ser mais escutados porque sofreram muito nesse contexto. A responsabilidade de fazer essa transição foi colocada sobre seus ombros. É preciso escutá-los e formá-los para lidar com a mediação dessas tecnologias de modo a formar leitores ou ensinar matemática.